terça-feira, novembro 04, 2014

Sobre Janer Cristaldo


Adeus, amigo[i]

Eu conheci o Janer num jantar na casa de um dos colegas articulistas do MSM. Depois intensificamos a troca de mensagens através das antigas comunidades do Orkut, quando me divertia com as provocações que ele destinava a turma de fanáticos religiosos. Não só estes, mas preferencialmente estes. Mais tarde passei a frequentar bares e restaurantes com o Janer, com conversas muito agradáveis. Às vezes saia algo dali para a tela do computador. E eu sabia muito pouco da vida do Janer, exceto pelo que ele escrevia ou comentava conosco por alto. Então eu era um amigo que lhe encontrava episodicamente e ultimamente sempre que ia a S.Paulo após me mudar para Florianópolis. Desnecessário dizer quanto prazer obtive lendo teu pai e o quanto aprendi. Como também já se tornou comum dizer, não concordávamos sobre tudo, mas o que discordávamos (e no meu caso era mais a música ou como encará-la), não havia diferenças substanciais, menos sobre objetos do que por condutas. O Janer fugia de sectários, como até garotos de visão liberal bastante lúcida, mas amarrada demais que tentaram aliciá-lo ideologicamente. Enfim, eu já sabia e tinha visitado duas vezes nos últimos meses, de seu estado de saúde. Eu costumo apostar na permanência e justifico que poderia viver bastante ainda em estado crítico se pudesse ler e escrever. E justamente por causa disto, conhecendo teu pai, imagino só o tormento que deve ter sido estes últimos dias para um homem que vivia isso. Que vivia a liberdade de expressão e a comunicação escrita. O amor que ele nutria por sua ex, pela festa e alegria com seus amigos, pelas viagens, pelas lembranças, pelo aprendizado e vivência nos colégios de padres, por mais paradoxal que fosse, pelos pagos de Martín Fierro, pela literatura que ora desdenhava, pela precisão de quem se baseou no direito e leis, pela força e vigor teórico proporcionado pela filosofia, pelo profundo conhecimento de história e humildade em achar que não era especialista, em sua paixão por conhecer e aprender outras culturas, pelo pago da fronteira, por Estocolmo, Paris e, sobretudo, Madri. Uma pena que não conheceu a Austrália, que indico fortemente, mas pelo menos foi para a Irlanda, que recomendei. Embora talvez nem lembre de que eu tenha sugerido. Enfim, como disse um amigo em comum:

"Certamente, é o tipo de pessoa que há quem goste e uma minoria que não goste dele, mas não há quem o despreze. É a mais nobre avaliação que se pode fazer de uma pessoa."

E eu não poderia deixar de dizer a ti como ele te amava. Parecia um pai bobão (como eu sou um) que se gaba de cada detalhe do filho(a), do tropeço, da caminhada, do emprego, do sucesso, de que aprendeu etc.

Enfim, vou me lembrar muito dele como certa vez comentando sobre fanáticos irados nos ameaçando no Orkut, eu disse "vocês se estressam a toa com o Janer, ele está lá na frente do computador levantando uma taça de vinho enquanto que dá um sorrisinho de satisfação", ao que ele me respondeu "ah Anselmo! Como tu me conhece tanto assim?" Pois é, não tanto, mas o suficiente para saber o que te move e apaixona.

Adeus amigo e um abraço, Isadora Pamplona. Levante a cabeça, te erga que a vida deste cara foi uma que valeu a pena.

Anselmo Heidrich





[i] Mensagem enviada a sua filha no dia 29, cerca de dois dias após sua morte.