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quinta-feira, agosto 23, 2018

Guri de Apartamento


Tente entender uma visão deturpada para depois debater e convencer.
Quando eu era criança fui o que chamávamos, depreciativamente, de “guri de apartamento”, superprotegido não aprendi a jogar bola e ser bom em outras atividades físicas. A própria Educação Física na escola era uma tortura para mim e naquela época, em Porto Alegre não tínhamos esse corpo mole de hoje em dia… Os professores eram, muitas vezes, jogadores do Inter ou do Grêmio fazendo extra nas escolas. Sim, difícil de crer, não?
Começávamos com corrida, 20 ou mais voltas, depois muito polichinelos, apoios (flexões no chão) e o pior, agachamentos para depois de outros exercícios, se desse tempo haver uns 15 min de jogo para relaxar. Imagine chegar com isto hoje em dia, tem aluno (e pais) que irão denunciar o professor na primeira oportunidade. Mas minha relação com o futebol sempre foi triste, eu gostava, mas não sabia jogar. Se detestasse, estava bem, mas infelizmente não era o caso.
Nos meus 17 anos por aí tinha um baita grupo de amigos que se reunia, religiosamente todas terças-feiras para jogar. Vinha gente até de cidade vizinha e fizesse Sol, chuva, frio, não importava, estávamos lá naquela quadra de areião. Eu, como sempre e um amigo, sem agilidade a quem chamavam de “Robô” sempre éramos os últimos a serem escolhidos. Eu ainda conseguia ser pior do que o Robô e quando o cara me escolhia fazia um meneio com a cabeça, tá, vem… Enquanto o capitão do outro time dava uma risada por já levar uma vantagem ao não me ter na equipe.
Mas nem sempre era assim. Eu na zaga, pois corria muito pouco atrapalhava e sempre tive uma coisa, aliás, minha família de sentir menos dor. Não estou me gabando não, meu filho não é assim, mas minha filha me puxou e fico impressionado como ela não reclama de cada tombo ou machucado que toma. Sei lá, não sei explicar. Então, como eu dizia, na zaga, eu não me importava com as pancadas e atrapalhava mesmo. Não era bom, mas era útil. E o mais engraçado é que quando meu time ganhava, os colegas tinham uma dupla satisfação, não só de ganharem a partida, mas de “ganharem com o Anselmo!”
Bem, saí de casa aos 20 e poucos, fui pra S. Paulo e lá virei mais gaúcho e gremista que era na terrinha. Esse fenômeno é bem mais comum que imaginamos. Note que os conflitos nacionalistas, étnicos etc. ocorrem, justamente, quando há mistura e atritos entre diferentes grupos. Claro que não vivi uma Guerra da Bósnia, mas os paulistas veem a nós, gaúchos como argentinos, o que soa muito estranho, ainda mais sabendo que os gaúchos têm muita rivalidade com nuestros hermanos.
Tudo faz sentido e tem lógica, pois em regiões de fronteira temos dois tipos de homens, aquele que diz “o que será que tem lá do outro lado?” e aquele, talvez mais comum que afirma “não quero nem saber daquela porcaria, aqui é melhor”. E para quem é de fora, os dois bicudos que não se beijam são muito parecidos. Vi isso quando disse a um irlandês que eles se pareciam muito com os ingleses e ele, com um ar estupefato me retrucou “sim, o clima”.
Essa coisa de se colocar no outro lugar, de migrar, de experimentar compreender o ponto de vista alheio se chama relativização. É um exercício muito útil e só te faz crescer intelectualmente. Não adianta ler livros e citar nomes de autores para se envaidecer se tu não é capaz de refletir minimamente sobre as próprias condições de vida e dos outros ao teu redor. Sei, sei que dirão que a “relativização moral” está na raiz de nossos males, com o que concordo, aliás, mas quando falo em se relativizar é para compreender antes de julgar.
O que você já fez nesse sentido? Quando procurou compreender quem pensa de modo diverso e por que o faz? Lembre-se, isto não significa concordar com ele, mas… Tente.
Anselmo Heidrich
23–08–2018

quarta-feira, janeiro 20, 2016

O Feminismo Seletivo ignora o Islã


A dominação, seja ela de quem for só existe porque o dominado consente e aceita como algo 'natural'. Quando uma mulher muçulmana, tapada com seu véu acha que a "liberdade de expressão é terrorismo ocidental", então a situação é muito pior do que imaginamos... Imagem: infielatento.blogspot.com.br

Baita dica do colega Xavier, sobre o tratamento dispensado às mulheres no islã:
https://conscienciavisionaria.wordpress.com/2015/08/31/como-as-mulheres-de-todas-as-idades-sao-vistas-pelo-isla/. Sabe... Nunca refleti muito sobre este negócio de feminismo. Para mim, antes mesmo de eu enveredar pelo liberalismo, a coisa toda era bastante simples: se uma mulher ou grupo de mulheres ou o sexo feminino inteiro tivesse alguma desvantagem em relação aos homens, fruto de injustiça, eu apoiava a reparação. Quando comecei a ler sobre o assunto, pouco é verdade, percebi que muitas das demandas das mulheres não se resolviam no final, na consequência, na ponta do processo obrigando empregadores (ou empregadoras) a contratar mais mulheres ou lhes pagar mais, MAS sim ao prepará-las melhor para o mercado de trabalho. Mas isto, aí é que está... Não é algo que os homens devam fazer por elas, mas elas que devem fazer por si mesmas. Ou seja, elas devem se preparar melhor para o mercado de trabalho (o que, na verdade, já estão fazendo a todo vapor), abdicar de ficar grávida (ao menos temporariamente) e, assim como os homens, lutar por uma simplificação, quando não mudança mesmo de nossa legislação trabalhista arcaica. Eu não digo isto, especialmente o 2º item de bom grado, pois adoro filhos, só que pensando como empregador é simples, eles não vão querer empregar quem pode se ausentar durante meses. Não é a toa que justamente nos países em que as mulheres são melhor tratadas e consideradas no mercado de trabalho sejam os que elas mantém as mais baixas taxas de fertilidade/fecundidade (número de filhos por mulher em idade fértil). Daí que, voltando ao assunto, uma mulher lutar por sua melhoria individual, sou de pleno acordo. O problema é quando disto se parte para uma chorumela ressentida e auto-vitimizadora. Daí é um saco e a coisa evolui para situações que pouco teria a ver com categorias coletivas tão amplas, como o sexo feminino. Para dar um exemplo claro do que digo, esses dias vi aqui no facebook, que passa muita notícia que nem sempre tem a ver com o que procuramos ou visualizamos com frequência em nossas linhas de tempo, uma notícia sobre uma cantora mexicana, bonita inclusive, mas que nem procurei ver que estilo de música tinha ou se era boa cantora. O modess, como se diz? Absorvente dela caiu, parecendo um enorme guardanapo entre as coxas durante uma apresentação. Vi em uma foto em um desses sites politicamente corretos, Huff alguma coisa. Detalhe, a mulher estava com uma sainha pouco maior do que um band-aid e, claro que se ela dança muito (imagino que fosse o caso), o troço ali não ia se sustentar muito a não se que estivesse enterrado. Enfim, tudo bem até aí, fofoca pra caramba, um monte de babacas falando mal da garota e poderia ter fim a reportagem, mas não.... Acho que a jornalista que escreveu a matéria resolveu por em prática toda baboseira que aprendeu em "introdução à sociologia" na faculdade e começou um discurso auto-vitimizador pra lá de piegas... "nós que sofremos com a discriminação machista", " se fosse homem ninguém comentava", "eles nos julgam e fazem escárnio por um situação vexatória", "essa situação reflete o patriarcado em nossa sociedade" e um monte de besteira. Quer dizer que um punhado de caras, digamos 6 ou 8, nem 10 fazem chacota da moça e o caso vira o cume do iceberg de uma luta entre sexos? Cara, isto é um exagero atroz e faz com que não se leve a sério a luta feminista por causa disto, destes casos que na falta do que falar e postar (já que o site publicou uma fofoca para falar mal depois de quem faz fofoca), cai na mesma decoreba cheia de clichês como se ainda tivéssemos um patriarcado onde as mulheres não têm nenhuma voz e liberdade.
Quanto ao artigo sobre o péssimo tratamento dispensado às mulheres no mundo islâmico[1] é bem isto mesmo, em que pese as variantes regionais ou nacionais na dominação das mulheres, o islã tem um sério problema com a ideia de prazer. E creio que tu pegaste bem o ponto, as feministas (ou pelo menos a grande maioria delas), nem sequer comenta o que ocorre nesta cultura atroz. A razão, como podemos imaginar, é a fusão do feminismo com o movimento geral das esquerdas e aí, qualquer cultura não ocidental e que prime pelo desenvolvimento capitalista e democrático passa a ser uma “vítima do capitalismo, imperialismo e globalização”. Este coletivismo metodológico, de entender o islã inteiro como uma cultura com homogeneidade e posição política coesa anticapitalista é a típica forçada de barra da nossa esquerda ocidental atual. E quando se critica este absurdo há uma condenação automática de nossa postura ao nos tachar de “etnocêntrico”, “preconceituoso” ou “racista”. É a eterna busca de um meio de cercear o pensamento alheio, agora com uma espécie de código de ética para não se criticar a cultura muçulmana ou o islã.

Não é só contra o feminismo atual que devemos bradar contra, mas sim atacar qualquer forma de coletivismo. Não podemos admitir um relativismo ao ponto de se criticar atitudes machistas no mundo ocidental, mas permitir na cultura islâmica “por ser sua marca própria, outra cultura” etc.
Quando esta "autodeterminação" se torna uma opressão à liberdade de indivíduos, não existe respeito, mas desprezo, nojo de minha parte. Acho que é muito fácil reclamar uma autodeterminação dos povos em detrimento do livre-arbítrio ou como se este fosse menos importante, especialmente quando não se é uma mulher com o destino traçado e definido por outra pessoa. Se é que se pode chamar isto de 'pessoa'.

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Se concorda, compartilhe.





[1] “Como as mulheres (de todas as idades) são vistas pelo Islã?” Disponível em: https://conscienciavisionaria.wordpress.com/2015/08/31/como-as-mulheres-de-todas-as-idades-sao-vistas-pelo-isla/. Acesso em 20 jan. 16.

quinta-feira, abril 11, 2013

Notas sobre o relativismo chinfrim – 1



Pense no que seria o conhecimento?
Acho mais fácil responder "o que não é conhecimento?", afinal há vários tipos de conhecimento. O básico, como alguém chamou "sensorial" pertence aos nossos sentidos, como olfato, tato, visão etc. e o que apreendemos deste mundo é guardado em nossa memória que, por sua vez, é outro tipo de conhecimento. Com o desenvolvimento da linguagem, o raciocínio se sofisticou, elevando o nível do que chamamos de conhecimento para explicações, argumentos e em nossa vida social, o desenvolvimento da retórica e das ideologias. Estas não deixam de ser conhecimento mesmo quando têm por objeto precípuo, o engano, o sofisma ou qualquer tipo de "falsa consciência" que venha a produzir. Afinal, como também já disse alguém, mesmo quando pensamos que temos conhecimento sobre algo podemos apenas estar sentados de costas para uma fogueira vendo sombras projetadas na parede do que realmente se passa às nossas costas...
Ou seja, dizer que tudo é posição ou escolha político-ideológica ignora que há algo concreto passível de ser apreendido objetivamente.

domingo, novembro 06, 2011

A moral dos dentes do tubarão



Quem nunca se deparou com uma resposta pronta “não se pode julgar uma cultura pelos olhos de outra”, quando criticou uma dada idiossincrasia comportamental induzida ou procedimento costumeiro de outro povo? Obviamente, que o relativismo cultural é útil para entendermos porque uma sociedade ou parte menor dela, uma comunidade ou tribo isolada adota certa valoração e padrão de ação social. Mas, daí a tomar como “certo” ou igualmente válido porque tem sua origem em outro contexto distinto do qual se vive vai uma enorme, abissal distância.