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domingo, junho 18, 2017

O mundo melhora graças ao Capitalismo e tem que ser cego para negar


O ocaso das ideologias explica algo assim? Para mim ele reflete sua irrelevância em termos práticos. Uma vez configurado o fracasso total de qualquer ideologia de esquerda ter tido sucesso no século XX, antigos apologistas como Daniel Bell vaticinaram “o fim das ideologias”, mas eu me pergunto, só ele que não viu isto antes? Basta ver a baixa qualidade de um veículo produzido na era soviética em comparação com qualquer outro da antiga Alemanha Ocidental ou na força de trabalho chinesa puxando arados no lugar de bois durante o período comunista para sabermos que aquilo foi uma farsa do início ao fim. E dentro do capitalismo, quem insiste em não mudar, física e condicionalmente tende a padecer na miséria.

Mas por que devemos ficar alertas com a propaganda ideológica socialista?

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terça-feira, janeiro 03, 2017

Despacito, despacito, o mundo melhora


O cientista cognitivo Steven Pinker, professor da universidade de Harvard, é um dos autores que mais forneceram dados em defesa dessa tese. Seu livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Companhia das Letras) busca demonstrar que vivemos na época mais pacífica e próspera da história. “As pessoas, em todos os cantos do mundo, estão mais ricas, gozam de mais saúde, são mais livres, têm mais educação, estão mais pacíficas e desfrutam de uma maior igualdade do que nunca antes”, diz Pinker ao EL PAÍS. “Todas as estatísticas indicam que melhoramos. Em geral, a humanidade se encontra melhor que nunca.”
O escritor e historiador sueco Johan Norberg é outra das vozes destacadas dessa corrente de pensamento. Defende em seu livro Progress: Ten Reasons to Look Forward to the Future (“progresso: dez motivos para olhar para frente”) que o capitalismo é o sistema que mais fez o ser humano progredir, e que vivemos no melhor momento da nossa história. “O mundo está melhorando rapidamente. Na verdade, nunca antes o mundo melhorou tão rápido. A cada minuto desta conversa, cem pessoas saem da pobreza”, argumenta.
 Paradoxos do progresso: dados para ser otimista http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/29/internacional/1483020328_085937.html?id_externo_rsoc=TW_CC via @elpais_brasil
 

Fonte: El País
Esta visão que o S. Pinker e outros citados tem, eu já tinha visto com o B. Lomborg (se lembra dele? das discussões ambientalistas?) e é fato reconhecido nos meios liberais que as sociedades estão melhorando mesmo, embora haja aqueles com situação crítica, eles não representam a maioria, nem abaixam a média do desenvolvimento mundial. E ele também está certíssimo sobre a desigualdade não ser o problema, pois se falta água na África do Sahel, se há baixa ingestão de calorias no Subcontinente Indiano, isto não se dá porque suas elites bebem ou comem mais, mesmo porque se forçássemos uma redistribuição destes recursos, provavelmente ainda faltaria o suficiente para a maioria. A questão é outra, se refere ao tipo de sistema e isto não tem nada a ver com comparar Capitalismo com Socialismo e outras dicotomias simplistas, mesmo porque há tantas sociedades diferentes, até díspares que entram no bojo do que chamamos "capitalismo" que soa inócuo discutirmos a posse dos meios de produção como causa última do desenvolvimento. Poderíamos enumerar o grau de livre-comércio dessas sociedades; sua segurança jurídica; o acesso à propriedade privada; o grau de burocratização; a criminalidade; a transparência pública; a liberdade de expressão etc. Quantas sociedades chamadas de capitalistas tem estes detalhes em muito baixa conta? Várias. Portanto, se faz necessária uma discussão mais técnica e detalhada que aponte as falhas. 
Alexis de Tocqueville já observara que o capitalismo contém um
paradoxo, o paradoxo da riqueza, pois só em sociedades afluentes vamos encontrar pedintes nas ruas. Alguém por acaso já viu mendigos pedindo esmola no sertão paraibano? Claro que não, eles estão acumulados justamente onde a riqueza aflui, nos grandes e prósperos centros urbanos. Então, é absolutamente natural que a pobreza persista. A questão não é, no entanto, se ela existe ou não, pois ser pobre, em termos relativos, até eu sou. A questão de verdade é quanto desta pobreza pode ser considerada absoluta, isto é, que não atinge as condições minimamente satisfatórias de sobrevivência. E aí, cada dia mais, seu número diminui proporcionalmente. Proporcionalmente, sempre é bom observar, pois em termos absolutos podemos ter mais pobres do que em 1950, pois também temos uma população absoluta maior do que em 1950. Mas reitero, quanto a fatia desses considerados pobres cresceu? Se é que cresceu... 

O ocaso das ideologias explica algo assim? Para mim ele reflete sua irrelevância em termos práticos. Uma vez configurado o fracasso total de qualquer ideologia de esquerda ter tido sucesso no século XX, antigos apologistas como Daniel Bell vaticinaram o fim das ideologias, mas eu me pergunto, só ele que não viu isto antes? Basta ver a baixa qualidade de um veículo produzido na era soviética em comparação com qualquer outro da antiga Alemanha Ocidental ou na força de trabalho chinesa puxando arados no lugar de bois durante o período comunista para sabermos que aquilo foi uma farsa do início ao fim. E dentro do capitalismo, quem insiste em não mudar, física e condicionalmente tende a padecer na miséria. Recentemente doei muitas roupas a uma família da serra catarinense com quem minha mulher mantém contato. E lhe perguntei o que acharam, ela me surpreendeu dizendo que a mãe dos garotos usava meias diferentes, ambas com furos nos dedões, mas feliz da vida por manter os pés aquecidos durante o inverno. Agora pergunto, onde isto acontece em uma favela brasileira? Nas "comunidades" em que jovens usam celulares e os poucos sem acesso à internet em suas casas ainda frequentam lan houses. A realidade mudou muito e estes pobres desconhecidos das periferias brasileiras tem sua realidade ignorada pela maioria de nossos (pseudo-)cientistas sociais que deveriam estar mapeando-os, classificando e quantificando suas condições e hábitos. Muito pouco disto é feito, é uma vergonha manter uma casta de inúteis professores de humanas nas universidades que contribuem com mera produção ideológica ultrapassada. Puro lixo teórico.

Aos trancos e barrancos, o mundo melhora sim. Não como desejaríamos, em velocidade e qualidade, mas evoluiu positivamente. O que não podemos ter em mente é a mera comparação com os demais, sejam países, regiões, estados, cidades etc. Temos que manter nossas comparações, fundamentalmente, com nós mesmos, pois é aí que buscamos forças para ir além. Por isto, o orgulho não é um bom sentimento, ele sugere uma estagnação, um "estou satisfeito porque sou melhor do que...", ao invés da ambição, esta sim, uma condição do espírito que te impulsiona, sempre e te faz conquistar mais e mais para si e para os outros com quem interage. 


domingo, maio 04, 2014

As 100 melhores cidades para investir no Brasil


As melhores cidades para negócios,
 de 30 de abril de 2014 é uma típica boa matéria da Revista Exame. Gostei particularmente da seção destinada a duas das cidades elencadas no ranking dos melhores destinos ao investimento, Rio das Ostras no Rio de Janeiro e Parauapebas no Pará. Antes de tudo, é bom que se frise de tratar de uma análise geral, isto é, não há um estudo detido por setor, que me levou a comprar a revista com a esperança de que encontrasse indicações de melhores centros para se investir em ensino, com cursos preparatórios (para concursos, vestibulares etc.). Os casos destas duas cidades, a do estado do RJ e do PA são sintomáticos de como decisões políticas e não, tendências econômicas já preestabelecidas podem traçar o futuro de uma cidade, a região que polariza e, por vezes, um estado inteiro. A cidade paraense vive com a renda gerada pela extração do minério de ferro pela Companhia Vale do Rio Doce (sim, aquela que, uma vez privatizada elevou sua participação, produtividade e competitividade globais) e que, se prevê estar apenas com mais duas décadas de matéria-prima abundante. Duas décadas... Pode parecer muito, quase uma geração inteira, mas é pouco se pensarmos nos investimentos necessários, a começar pela formação de mão de obra para diversificar a formação da riqueza local e regional. E o que está sendo feito? Absolutamente nada, além do que estou fazendo aqui: divagando. Quanto à cidade fluminense ocorre exatamente o oposto, a começar pelo investimento na faixa educacional mais importante, a do ensino básico. Consequentemente, enquanto a renda geral dos dois municípios aumentou (chegando a superar a da capital, no caso paraense), em uma delas, a renda dos mais pobres também cresceu acima da média nacional, que foi o caso de Rio das Ostras. Claro que nesta localidade, o impulso dependeu da captação dos royalties do petróleo que, por ser mais raro é também mais estratégico do que nossas abundantes reservas de minério de ferro. No entanto, nada mudaria substancialmente se este recurso não fosse bem aplicado. Administrativamente falando, Rio das Ostras é um caso raro, no qual apenas 30% do PIB da cidade é gasto com manutenção de servidores, enquanto que o limite dado por lei é de 60% e outros 20% são investidos no município. A cidade também foi uma das primeiras a criar seu Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano em 1999, com a particularidade de estabelecer uma zona especial para indústrias distante da orla turística. Bom senso básico ao procurar equilibrar uma atividade poluidora com o setor turístico, que nutre ojeriza a isto. Não precisou fomentar um conflito entre setores econômicos e, com a distância haverá tempo (este é outro desafio) para estabelecer planos de mitigação de externalidades negativas ambientais. Enquanto cresce (a população decuplicou em duas décadas), outro plano diretor é traçado para 2030. Quer dizer, bem ao contrário do que fazem outras municipalidades brasileiras, cujos planos de desenvolvimento urbanos servem para “tapar buracos” tentando, infrutiferamente, resolver problemas, o da cidade fluminense traça contornos para seu futuro.
E a cidade de Parauapebas? Nada disso nem daquilo, apenas ostenta uma posição entre as 100 mais violentas cidades do país. São 60,5 homicídios por 100.000 habitantes. Além do descaso que são sintomas comuns com a qualidade de vida da população: na já vergonhosa taxa de esgotamento sanitário brasileira, que é de 48%, Parauapebas não vai além de míseros 13%. Mas é a 2ª melhor cidade do Brasil com mais de 100.000 habitantes com potencial para receber novos investimentos. E aí eu te pergunto, isto vale à pena?! Tendo outras alternativas, alguém em sã consciência se mudaria para lá com seus filhos? Eu não.
Agora a cidade onde resido, Florianópolis. De cara, algo me chama atenção e não fecha o raciocínio... Se há 39% dos empregados com ensino superior, contra a média nacional de apenas 18%; 111 matrículas no ensino superior contra 37, respectivamente; mas, o crescimento do número de empresas é pouco mais da metade da média nacional de 20% e de empregos formais apenas 11%, também pouco mais da metade do país, como é que é “tão bom viver aqui”? Para onde estão indo estes trabalhadores que formam o “maior capital humano de uma cidade com mais 100.000 habitantes” no país? Por outro lado, os exemplos citados na seção, de profissionais que largaram seus locais de origem, em outras cidades do estado e, sobretudo, em outros estados são daqueles que pertencem ao topo da pirâmide de empregados qualificados, cujos salários, embora perfaçam metade do que poderiam obter fora, ainda assim são muito maiores do que os encontrados localmente. Ora, o que faz a capital catarinense parecer “tão boa” é mais um artifício temporário da demografia do que uma tendência de longo prazo. Assim como cidade teve um boom de desenvolvimento com a instalação de sedes de empresas estatais e universidades a partir dos anos 70, com o turismo nos anos 80 e permeando tudo isto com a venda de imóveis e terrenos (que ainda continua), a taxa de crescimento vegetativo é baixa (sendo complementada pela imigração), o que compõe, seletivamente, o quadro populacional sem miseráveis. Mas, eu duvido que isto se mantenha no longo prazo se não houver investimentos mais pesados, como faz Palhoça, cidade da área metropolitana. Vejam: o equilíbrio é a chave de tudo. Se investimentos exclusivos, sem preocupação com o desenvolvimento social, como o caso de Parauapebas criam uma bomba relógio, o caso florianopolitano apenas ruma à estagnação e, talvez, decadência. Afinal, melhor capital humano sem emprego dará em quê? 
Rio das Ostras leva a melhor, embora esteja em 16ª posição em um ranking de 100 cidades pesquisadas porque não vive do passado e elabora o 2º plano diretor; investe em setores industriais, embora valorize o turismo; depende da riqueza de um setor energético, mas elabora sua independência relativa do setor e harmoniza o desenvolvimento equilibrando educação com renda (embora ainda falhe na oferta de serviços de saúde). Se os dados colhidos pela Exame forem fiéis à realidade, esta é minha opção de cidade exemplar. Não apenas pela sua posição absoluta atual, que é apenas um flash da realidade, mas pelo filme todo, pois saiu de uma situação de penúria e avança econômica e socialmente. Não tem essa de que investir no setor econômico se dá em prejuízo do social, ou vice-versa. Isto é balela de esquerda, os dois setores são necessários, obviamente porque se complementam. Não há como ter uma boa mão de obra sem ensino e não há como ter saúde e educação sem geração de renda pelas empresas. Lições tão óbvias que não são ensinadas na maioria dos cursos de humanas do país devido à doutrinação ideológica rasteira e sofista.
Em tempo, não podemos nos esquecer ainda da boa gestão pública de Rio das Ostras, fundamental, como conter gastos com pessoal sem transformar o setor público em “cabides de empregos”, para tristeza dos sindicatos.

Rio das Ostras... Quero conhecer.

(...)

sábado, novembro 23, 2013

Os Limites da Justiça Social Internacional


A ajuda externa tem raízes no conceito de justiça internacional e em seu corolário de reparação. A questão é quão eficaz ela realmente é? Imagem: shadow.foreignpolicy.com

“Justiça”, hoje em dia, tornou-se um termo inflacionado na cultura política nacional e internacional ultrapassando o âmbito propriamente jurídico, se estendendo para o econômico e o cultural. Na verdade, uma grande fonte de irracionalismo, a palavra “justiça” tem sido mal utilizada e soa como mero clichê, cujas premissas se assentam em meros ressentimentos para uma falaciosa compreensão dos problemas mundiais.
Vivemos tempos confusos, neste “Bravo Novo Mundo” onde a cultura ocidental é posta em cheque, de dentro de sua própria sociedade, como se o germe da desconstrução partisse de sua própria sanha civilizatória. Para seus críticos, a busca de “um outro mundo possível” significa revolucionar o modelo vigente e não apenas reformá-lo. O fato de que preocupações com a questão social internacional partam de setores dos pólos capitalistas mundiais, não significa que devam admitir qualquer culpa por fatos passados que, uma vez mal explicados, atribuem à Europa e, mais ostensivamente, aos Estados Unidos toda a carga de responsabilidade pelos insucessos cometidos no chamado “Terceiro Mundo”. As causas para tanto são várias, complexas e nem este conjunto de países mais pobres do globo apresenta qualquer homogeneidade que não sejam índices econômicos tomados superficialmente. Reivindicações até justas de países em desenvolvimento não devem ser confundidas com um “tribunal imaginário”, substancialmente ilegítimo, que pretende julgar a História como se nela houvesse “réus” e “vítimas”. Não raro, fenômenos culturais complexos e abrangentes são enfiados nesta equação simplista entre “explorados” e “exploradores”. Um mecanismo teórico-ideológico análogo é a oposição Ocidente VS. Islã... Huston Smith em The World's Religions[1] indaga por que a Cristandade teve tantos choques com o Islã, uma vez que tais crenças têm uma origem comum no Judaísmo e não se observa o mesmo com, por exemplo, Cristianismo VS. Hinduísmo. A razão é mais simples do que podemos imaginar: domínio territorial, um imperativo geopolítico, cuja proximidade entre os grupos gera tensões. Muito antes das Cruzadas, os árabes já chegavam às portas francesas nos Pirineus para estender a influência do Crescente. Seria justo por isto condenar a civilização islâmica pelo seu longínquo passado? Julgarmos toda uma complexa teia de relações históricas a partir de um único vetor, como rotineiramente se faz com, por exemplo, a igreja católica subentende que esta tenha sido a única a ter culpa no “cartório das humanidades”. Isto é, no mínimo, desrespeito pelo intelecto, para não dizer pura má fé mesmo.
Há várias formas de procurar atingir um objetivo não tão evidente por si. Um deles é fingir desejar algo, como uma sociedade mais justa enquanto que, na verdade, se trabalha arduamente para acabar com esta sociedade. O teor de muitas das críticas “contra o sistema” não procura resolver antigas querelas sócio-civilizacionais, mas tem seu combustível ideológico na própria desconstrução do capitalismo. No atual cenário mundial, a maioria dos protestos tem seu epicentro na Europa. É neste mesmo continente, onde cerca de ¼ dos trabalhadores são compostos por funcionários públicos e segurados que vivem de transferências de renda[2], também são assolados pelas recorrentes revisões da máquina pública européia em transformação. No Reino Unido, mesmo com uma oposição episódica como foi a de Tony Blair, os fundamentos das reformas implementadas por Margaret Thatcher não foram revistos. Seu espectro ainda ronda e assombra os revolucionários europeus... Na Alemanha, Helmut Kohl não foi exatamente o que poderia se chamar de um bem sucedido reformador do país, mas sua contribuição para afastar a antiga Alemanha Oriental da órbita soviética, unificar o país e ainda se manter aliado a OTAN foi inegável.[3] No geral, aos trancos e barrancos podemos dizer que a evolução do Ocidente foi positiva sim.
Lembramos com facilidade de conflitos sangrentos, sejam de ordem externa ou interna, mas são esses processos de longo prazo, morosos e incertos que desmotivariam várias situações de beligerância. Apesar de certas incongruências contábeis que mais tarde cobrariam seu preço através dos inexoráveis déficits públicos, pode-se dizer que foram menos perniciosas do que teriam sido uma guerra civil. Não podemos nos esquecer que até bem pouco tempo em termos históricos, nos países capitalistas, as muitas reivindicações trabalhistas tiveram efeitos benéficos através de um processo contínuo de negociações. Esta tensão bipolar entre mais ou menos estado dá a tônica da evolução do Ocidente, ao contrário da deturpação anticapitalista que processa uma leitura unilateral, ora com a construção do estado de direito a partir de conquistas populares, ora a partir da espoliação de povos por grandes conglomerados industriais, como se não houvesse uma sinergia entre diversos setores da sociedade.
Os sucessivos fracassos revolucionários que se sucederam a partir do pós-guerra, muito antes da derrubada de qualquer muro, bem entendido, mas justamente pela ineficácia econômica comprovada,[4] a estratégia dos órfãos do estatismo como panacéia civilizacional passou a se denominar “socialismo democrático”. A forma mais palatável com que se tenta ressuscitar o socialismo, falsamente democrático, parte de uma concepção programática nova. Ao invés de simplesmente se tomar o núcleo de poder estatal para suprimir a oposição e dominar por completo a economia, se busca a ocupação de instâncias estratégicas com diversos cargos de confiança e instauração de programas clientelistas. Estes até podem trazer benefícios políticos no curto e médio prazo, mas no longo não visam mais que criar uma massa de dependentes de favores estatais, a qual será, obviamente, objeto de manipulação política.
Mas, quando a economia cobrar seu preço no longo prazo pela farra do desequilíbrio das contas públicas? Aí entra em cena a retórica de clichês que brada contra as “injustiças históricas”, o “passivo civilizacional” etc. Mais do que “justiça internacional”, o bode expiatório se configura, recorrentemente, no “Tio Sam”, o arquétipo do vilão, cuja conveniência satisfaz o tirocínio de intelectuais com discurso datado. O roteiro é conhecido, a locomotiva capitalista desacelera, inflação e estagnação econômica se tornam mais presentes para, no day after, o intervencionismo estatal passe de causa para solução da crise. Como isto é possível? Basta uma boa campanha de marketing, manipulação estatística e inversão entre causa e efeito... Não é estranho que sociedades que mantém altíssimas cargas tributárias tenham suas crises diagnosticadas como “excesso de neoliberalismo”? Como um problema econômico pode ser explicado justamente pelo que não tem como característica? Um estado agigantado com impostos escorchantes ser visto como seguidor do neoliberalismo não faz o menor sentido.
Questões inescapáveis como a maior produtividade e criatividade inerentes ao capitalismo, as quais já tinham sido propostas por Schumpeter há mais de meio século permanecem soterradas por um manto de irracionalismo que põe a eficácia econômica como um verdadeiro palavrão. Quando jovens, muitos dos quais segurados pelo Welfare State,[5] saíam às ruas em Londres ou Davos para protestar contra a Globalização[6] estavam, tal qual movimentos sindicais do século passado, fortalecendo grandes corporações que recebiam apoio privilegiado de aparelhos estatais. A título de salvar os empregos da classe operária, os sindicatos não raro fortaleceram empresas que fugiam da concorrência e recebiam polpudos fomentos para sua indústria através do erário, isto é, de recursos federais constituídos com os impostos de cidadãos sem ligação com os postos de trabalho em questão. Analogamente, os jovens que acreditam protestar contra um sistema explorador estão, na melhor das hipóteses atuando em prol de burocracias estatais e seus privilégios[7] e na pior, ainda fortalecendo mais a maquina estatal e seus braços armados com apoio a setores antiglobalizaçao, antimercado e pró-intervenção, inclusive armada.[8] Não é difícil entender a ligação quando se pensa que países com menor atividade comercial internacional são os mais propensos a entrar em guerra uns contra os outros.[9]
Do outro lado do Atlântico, no país mais conhecido (e incompreendido) do mundo, os Estados Unidos, o movimento sindical teve a chance de escapar, afortunadamente, do controle de socialistas e anarquistas dogmáticos, com o objetivo de melhorar a situação material dos operários, através da redução da jornada de trabalho e aumento real da renda.[10] A pressão sindical econômica e não ideológica consagrou a seleção natural do empresariado americano. É verdade que cidades como Detroit pagaram com a desindustrialização, mas não servem como parâmetro para o boom econômico que se seguiu no país, em especial no sul e oeste americano. O caso de Detroit serve, justamente, como exemplo oposto ao que falamos, pois se trata de uma metrópole na qual o empresariado ficou a mercê dos políticos com propostas regulamentadoras do trabalho e mais fortemente tributaristas, como os Democratas.[11] Mesmo com fatos que desaprovam os resultados e benefícios alegados ao longo da história, como este tipo de retórica estatista ainda apresenta tantos adeptos? Não por acaso, destas mesmas hostes saíram os discursos de palanque que mascararam nossas mazelas ao atribuir responsabilidades a outrem, “países centrais”, as multinacionais, o FMI etc. Por outro lado também existe uma verdadeira submissão intelectual de nossos homens públicos às contingências de um discurso de ocasião que procura opor Norte VS. Sul, sem que de fato, o “Sul” tenha efetivamente chegado a enxergar como o “Norte” funciona. Tudo ancorado num raciocínio simplista de “jogo de soma zero”, segundo o qual alguns ganham porque outros perdem. Nada mais conveniente do que atribuir nossas mazelas e o ressentimento fundamentalista de regiões como o Oriente Médio à pujança capitalista. Assim, é chegada a hora de cobrar a conta pelo serviço não prestado: “Ressentidos do mundo: uni-vos!”
A produção em larga escala popularizada por Henry Ford desperta menos interesse do que aventuras de Guevaras, demagogias Castristas, ódios de Husseins e Ladens, esses sim, são valorizados e tomados como palavra última e, em nome deles, multidões amedrontadas com a dinâmica produtiva se levantam e clamam pela manutenção da estagnação tecnológica. A “tecnofobia” mistifica problemas reais, seja a produção agrícola, a geração de energia e preservação de recursos naturais, entre outros, os temas têm seu significado e conceito deturpados, a começar pela sustentabilidade.[12] Esta simplesmente inexiste sem incremento tecnológico e adequação produtiva, mas para a militância ambientalista não se trata disto e sim de uma “ruptura com o atual sistema”.
Tudo vale no discurso persecutório que procura culpar não um, alguém, mas uma entidade, o “Capital”. A estratégia consiste em demonizar uma bárbara realização da Civilização e esquecer-se de sua relação destruidora/criadora. Os críticos do Ocidente não desejam mais que destruí-lo, sem perceber que nunca sequer chegariam a ter os instrumentos materiais de comunicação que utilizam de modo paranóico, não fosse por ele. Alguns desses críticos que ocupam cátedras universitárias, não desejam verdadeiramente soluções pacíficas para os problemas do mundo subdesenvolvido, mas apenas disseminar sentimentos de frustração e rancor para com o mundo capitalista desenvolvido. Odeiam o que desconhecem.
Mesmo que muitos digam que a saída não se daria mais por vias “socialistas tradicionais” e que esse sistema não mais se configura como uma alternativa, a verdade desagradável é que uma boa parte dos países atrasados (me perdoem a ausência de eufemismo), por razões ligadas a sua cultura política – neopatrimonialismo, nepotismo, clientelismo, corrupção pura e simples etc. – pouco fizeram para a adoção de medidas que resultassem em desenvolvimento econômico. Não vejo possibilidade de que uma justiça calcada em princípios universais se realize em escala global quando ao lado de direitos, não haja constituição simétrica de um corpo de deveres, dentre os quais figurem o equilíbrio fiscal e a busca pela eficiência produtiva com apoio da segurança jurídica e transparência contábil. Isto pode parecer pessimista, mas como sabemos a história já nos pregou diversas peças, e não seria agora que surpresas como a que vimos no século passado e o poder do acaso se esgotariam. Afinal, como alguém já disse há milênios, a necessidade é a mãe da invenção.



[1] SMITH, Huston. The World’s Religions. Harper San Francisco. 1991.
[2] DAHRENDORF, Ralf. O Conflito Social Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.; São Paulo: Edusp, 1992, p. 139.
[3] GEDMIN, Jeffrey. Helmut Kohl, giant. Disponível em: <http://www.hoover.org/publications/policy-review/article/6283>. Acesso em: 23 nov. 13
[4] ROSA, Alexsander. O colapso da URSS. Disponível em:
[5] MITCHELL, Daniel J. English riots, moral relativism, gun control, and the welfare state. Disponível em: <http://www.cato.org/blog/english-riots-moral-relativism-gun-control-welfare-state>. Acesso em: 18 nov. 13; HEATH, Allister. Britain’s in crisis: the real causes of chaos on streets. Disponível em: <http://www.cityam.com/news-and-analysis/allister-heath/britain-s-crisis-the-real-causes-chaos-streets>. Acesso em: 18 nov. 13.
[6] O GLOBO. Davos, Londres, Praga, Gotemburgo: protestos explodem no rastro de Seattle. Disponível em: <http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/davos-londres-praga-gotemburgo-protestos-explodem-no-rastro-de-seattle-10337463>. Acesso em: 19 nov. 13.
[7] DiLORENZO, Thomas. O funcionalismo público e seus sindicatos. Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=916#.Uo4LpQ4w1kc.twitter>. Acesso em: 21 nov. 13.
[8] SYLVESTER, Petro. Definindo a liberdade. Disponível em: <http://www.mises.org.br/EbookChapter.aspx?id=667>. Acesso em: 21 nov. 13.
[9] ADORNEY, Julian. Want Peace? Promote Free Trade. Disponível em: <http://www.fee.org/the_freeman/detail/want-peace-promote-free-trade#axzz2j2McKFje>. Acesso em: 1 nov. 13.
[10] ALMEIDA, Carlos Fernandes de. O sindicalismo nos países industriais. Disponível em: <http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1224161582B5aYZ8dg3Hs99DT2.pdf>. Acesso em: 23 nov. 13.
[11] AHLERT, Arnold. How the Democrats destroyed Detroit. Disponível em: <http://frontpagemag.com/2013/arnold-ahlert/how-the-democrats-destroyed-detroit/#.UTTxYjiu5gl.blogger>. Acesso em: 23 nov. 13.
[12] DRIESSEN, Paul. Real susteinability VS. Activist sustainability. Disponivel em: <http://townhall.com/columnists/pauldriessen/2013/02/02/real-sustainability-versus-activist-sustainability-n1502612>. Acesso em: 23 nov. 13.