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terça-feira, novembro 03, 2020

Porque eu rejeito Donald Trump

 Há várias razões porque rejeito #DonaldTrump, mas o principal está na política externa e na geopolítica, o que não é um problema secundário, frente à situação doméstica dos EUA. É algo fundamental ao seu desenvolvimento e equilíbrio internacional.


Escute o episódio mais novo do meu podcast: Porque eu rejeito Donald Trump https://anchor.fm/anselmo-heidrich/episodes/Porque-eu-rejeito-Donald-Trump-elvun8

domingo, maio 31, 2020

O Nosso Alvo


Quando digo que sou professor de geografia, muitos deduzem que eu pertença ou faça coro com determinada corrente política, notadamente marxista. Isso é um grande equívoco, assim como seria dizer que há uma “geografia liberal” por oposição. Não, em absoluto. Geografia é geografia, se me permitem a tautologia. Há um saber específico em coordenar os fenômenos que se inter-relacionam na superfície terrestre em uma síntese e a geografia é, simplesmente, isto. Não tem que se ter uma carteirinha de sindicato de esquerda ou milícia de direita para fazer geografia. Em primeiro lugar, a pesquisa, as hipóteses que resultarão em teorias e, a partir daí, só então, é que cada indivíduo, de posse de um conhecimento fundado na objetividade, vai utilizá-lo da forma como achar melhor adequando-o a sua visão de sociedade e projeto político. Essa separação entre “o que eu vejo a partir de um método de estudo” e “o que eu desejo a partir de premissas filosóficas por mim endossadas” é de suma importância.
A síntese que gosto de caracterizar como sendo típica da geografia é um complemento às diversas especialidades prévias, das quais depende esta tradição de conhecimento. Pré-requisitos, como a distribuição das formas de vida na superfície de acordo com o zoneamento climático, a biogeografia; a distribuição de províncias geológicas e as várias formas de relevo resultantes da interação entre fatores climáticos e a estrutura da crosta; as diversas bacias hidrográficas que conectam grandes áreas sendo afetadas pela expansão das manchas urbanas e suas regiões funcionais, com uma hierarquia de cidades operando como um sistema circulatório que, drena recursos em uma via e irriga capitais em outra.
Também é possível fragmentar o objeto de estudo e focalizar em setores, como o agrário, o industrial, o urbano etc., mas não se pode perder a perspectiva geral sob o risco de não entender causas de certos fenômenos. Até aí, nada de mais, pois se eu for me debruçar, p.ex., sobre certos efeitos climáticos em escala urbana vou ter que, necessariamente, entender o fenômeno das “ilhas de calor”. Ocorre que neste exato ponto da narrativa surge o discurso político-ideológico que tornou a geografia mais um campo de estudos totalmente poluído e sem objetividade científica. No exemplo que acabei de dar, a crítica sobre a atividade industrial adquire um tom moral, ao invés de técnico, enfatizando a indústria como exploradora e, essencialmente, predatória, sem propor avanços tecnológicos ou dar o devido destaque às melhorias com igual peso.
Uma dessas subáreas muito conhecida de nome, a geopolítica surge aqui e ali, na mídia, na internet, nos materiais didáticos, como uma descrição exaustiva do “conflito norte-sul”, entre países ricos e pobres (o que não passa de uma grotesca generalização), em oposição à outra bipolaridade, a leste-oeste, vigente durante a Guerra Fria, entre países capitalistas e comunistas de 1945 a 1990. Por ironia da história, hoje, com o surgimento de uma nova direita, o discurso aparentemente mudou, mas sua estrutura de raciocínio permanece exatamente a mesma: substituíram-se os velhos capitalistas-imperialistas, no linguajar leninista, pelo dito cujo “globalismo” que grassa nos discursos de ideólogos como Olavo de Carvalho e seu seguidor, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Na perspectiva de ambos, o globalismo é um sistema em expansão que trabalha em várias frentes para desintegrar a autonomia dos estados-nação do mundo.
Seja em uma perspectiva de esquerda, Capital vs. Trabalho, ou seja, em uma perspectiva de direita, Organismos Supranacionais vs. Estados-Nação, o método simplista de entender a realidade funciona como um resumo esquemático em detrimento dos interesses locais e regionais, suas particularidades históricas e culturais que têm muito mais peso para as sociedades que qualquer efeito de grupos de interesse internacional com seus poderes superestimados.
Pois então… Nessa nossa trajetória de todas as terças-feiras[*], as Terças Realmente Livres, em oposição ao produtor de Fake News chamado, inapropriadamente, de “Terça Livre”, iremos confrontar estas visões maniqueístas do mundo com exemplos concretos, fatos e dados. As teorias que funcionam como narrativas de uma falsa consciência e sedimentam ilusões ideológicas desses grupos que ora compactuam com governos populistas serão nosso principal alvo.
[*] Texto publicado, originalmente, na página “Biologia Política”, dia 19 de maio, uma terça-feira.
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Anselmo Heidrich
Fas est et ab hoste doceri
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quinta-feira, março 28, 2019

Russos na Venezuela: intenções, ações e consequências

Bombardeiro russo proveniente da Venezuela pousa em Manágua (Nicarágua) em 2013 (http://mil.ru/conference_of_pro/news/more.htm?id=11862998@egNews).

“Maduro é o mesmo que Bashar al-Assad, mas em proporção diferente”. Então por que a Rússia perde seu tempo apoiando o falido governo de Maduro?
A Rússia não tem amigos, tem aliados e interesses, os primeiros temporários e os segundos, permanentes. Há sucata que enviou para a Venezuela ao custo de bilhões de dólares — armas ultrapassadas — e investimentos que precisa proteger, mas a China é responsável por muito mais, mais da metade de todo o investimento na América Latina é de origem chinesa na Venezuela. Então, por que a China não envia tropas do maior exército do mundo para o país?
A Rússia foi bem sucedida nas suas ações na Síria. Bashar al-Assad estava virtualmente derrotado pela oposição e aliados de Obama até que Putin, um grande enxadrista, viu nela uma oportunidade de jogar e ganhar a parada. Hoje, Assad está no governo e em dívida com Moscou. Em que pese todas as bravatas de Trump — inclusive a de ter desbaratado o Estado Islâmico, na realidade, obra dos curdos. Só que brincar de novo em “outro playground”, o da Venezuela não é a mesma coisa:
1. Há uma grande proximidade com os EUA;
2. O Caribe funciona como um “Mediterrâneo de Washington”, ele é vital para a segurança nacional da potência;
3. Há envolvimento de outros países fortemente constituídos, como Brasil e Colômbia, ao contrário de países etnicamente divididos como Líbano ou Iraque;
4. A memória da Crise dos Mísseis em Cuba (1962) é muito viva para os americanos. Os EUA não admitirão a instalação de bases com artefatos nucleares na região.
A situação na Venezuela não é segredo para ninguém. Cerca de dois anos atrás, relatório da ONU mostrou que fora o único país do mundo, cuja população perdeu peso devido a crise que atravessam, cães e gatos são comida, não sobrevivem mais e há relatos de canibalismo nas cidades. Manifestantes contra o regime estão sendo mortos, membros da guarda bolivariana — a polícia do regime — quando pegos em desvantagem são linchados pelos populares, um famoso shoppingo de luxo em Caracas se tornou um centro de tortura do regime, o caos está instalado e a única chance de manutenção do regime é pela via da repressão militar pura e simples aliada ao terrorismo, cortes de eletricidade ocorreram recentemente e um jogo de mentiras oficiais visa confundir a população para obter apoio: Maduro acusa Washington e oposicionistas pelo feito.
Este artigo aposta na ignorância russa sobre a realidade venezuelana: https://www.unian.info/world/10492980-will-russia-release-demons-of-war-in-venezuela.html?utm_source=social&utm_medium=share&utm_campaign=site, mas nunca é demais lembrar, como o próprio autor afirma, que ações não intencionais podem levar a uma escalada da violência, pois a presença de 100 militares russos treinados para manter o regime e bombardeiros não serão ignoradas pelos EUA.
Para nós, brasileiros, tudo isto é péssimo, pois são nossos filhos e próximas gerações que estarão na linha de frente deste conflito. Por enquanto, por enquanto… É só o espaço aéreo da fronteira norte até Manaus que virou um stand de tiro, cujas baterias antiaéreas venezuelanas podem derrubar qualquer aeronave. Qualquer uma…
Não imagino uma solução fácil, mas dependemos de Washington. Enquanto que nosso insensato presidente falou em “libertar a Venezuela” com o “apoio bélico” dos EUA, o vice-presidente, inteligentíssimo, Mourão já avisara que “uma intervenção está fora de cogitação”.
O que nos sobra então?
A aliança com o exército venezuelano e a traição à Maduro.
Lembremos que aliarmo-nos ao exército deles (o que inclui a Washington fazer também) significa perdoar alguns dos tiranos que estiveram ao lado do déspota, mas ou é isso ou é um banho de sangue de milhares.
A guerra, goste ou não goste, é um cálculo que usa vidas como peões.
Anselmo Heidrich
28 mar. 19

sexta-feira, setembro 28, 2018

Rússia VS. (a sua) Geografia


O editorial The Geopolitics of Russia: Permanent Struggle da Stratfor contém uma análise “bastante geográfica” da Rússia, isto é, calcada em sua cartografia. É como se o próprio mapa apresentasse determinações. A posição intermediária do país entre Ocidente e Oriente levou a um tipo de política reativa quando pensamos nas invasões ocidentais, de Napoleão à Hitler no passado ou a expansão da OTAN na atualidade. Isto sem contar com as invasões mongóis, turcas, suas frágeis fronteiras com o Islã ao sul e a hegemonia chinesa tomando corpo na orla do Pacífico.
Outro ponto é o que o que preenche este espaço, vasto espaço, diga-se de passagem, a sua população. A história russa entremeada de conflitos se reflete em uma pirâmide etária toda recortada, na qual cada reentrância decorre de uma queda da natalidade devido ao drástico aumento da mortalidade durante a guerra. Hoje em dia, a Federação Russa sofre com um módico declínio demográfico.[1]
Se compararmos esta situação com a de países vizinhos do mundo muçulmano, particularmente na Ásia Central[2] ou na distante China, cuja política de controle de natalidade não é suficiente para conter um aumento significativo de sua população absoluta,[3] a Rússia é um gigante extenso e pouco povoado. A forma efetiva de controle de um território nacional se dá pela base demográfica condizente, sem a qual pode ficar inviável.
Estas dificuldades, sejam elas estáticas, como sua geografia, sejam elas dinâmicas, como sua população levam a uma perspectiva de reação do estado e a Federação Russa parece estabelecer um plano de retomada do antigo espaço soviético. De certa forma, sim, mas não é tão simples como se fosse uma mera reedição dos áureos tempos do comunismo soviético… Na verdade, o “plano russo” estipula tratamentos diferenciados de influência, controle e domínio territorial sobre países em sua órbita de influência. São basicamente quatro formas de atuação:
  • Primeiro grupo: países que a Rússia pretende restabelecer sua influência de modo pleno (Bielorrússia, Cazaquistão, Geórgia e Ucrânia). São países de inquestionável valor estratégico devido a sua posição geográfica. Eles permitem acesso aos mares Negro e Cáspio para um gigante como a Rússia, com poucas saídas marítimas que não congelam durante o inverno e também ligam áreas agrícolas nacionais ao coração industrial da federação;
  • Segundo grupo: países que Moscou deseja ter maior aproximação. Trata-se dos países Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), Cáucaso (Azerbaijão) e Ásia Central (Turcomenistão e Uzbequistão). Não há grande necessidade de mantê-los sobre influência de Moscou, mas por precaução se deve afastá-los das tentativas de criação de laços com o Ocidente por estarem muito próximos da zona de segurança russa;
  • Terceiro grupo: países sem grande importância econômica ou política, mas que devido a suas instabilidades internas e governos fracos podem se tornar alvos fáceis da influência externa. É o caso da Armênia, Moldávia, Quirguistão e Tajiquistão, países que se apresentam como “presas fáceis” para cooptação externa;
  • Quarto grupo: países que não constituíram parte do espaço soviético no passado, mas que a Rússia entende como possível área de influência futura. Este é, sem dúvida, o grupo mais complexo onde temos Alemanha, França, Polônia e Turquia. Como influenciá-los? Não há perspectiva fácil, ainda mais sabendo que são membros da OTAN, mas que nem por isso se colocam como subservientes ou em relação de submissão aos EUA. Trata-se se uma necessidade e perspectiva de longo prazo para uma estratégia eurasiática se torne possível.
O irônico disto tudo é que justamente a estratégia de contenção utilizada ao longo da história contra a URSS e agora contra a Rússia, que consiste na criação de estados-tampões está sendo agora utilizada por Moscou contra seus rivais. Isto deveria servir de alerta contra a visão de ciclos preestabelecidos como senso comum. O exemplo do fim do comunismo é um que não deveria turvar nossa percepção… É bom lembrar que mesmo tendo reduzido a extensão de seus domínios com o fim da URSS, a Rússia retornou ao seu tamanho do século XVII. Diversamente a um declínio ou decadência, Moscou tem assegurado um domínio de longo prazo.
A perseverança geopolítica da Rússia é ainda mais notável quando se leva em consideração o enorme gasto para manter seu território, que a pôs em desvantagem frente a seus competidores ocidentais e asiáticos. E, claro, a competição armamentista com os EUA sufocou sua capacidade de desenvolvimento deslocando importantes recursos para este setor, vital para sua manutenção como império. Ainda, a perda de toda Europa Oriental, partes da Ásia Central e do Cáucaso como área de influência exclusiva, são provas inegáveis da vitória do capitalismo ocidental. Mas, de certo modo, a sorte de um país como a Rússia é não ter como vizinho próximo uma China aventureira e com planos expansionistas.
Parece difícil uma maior fragilização do cenário russo, mas a história tem lá suas mudanças dramáticas… Agora, com a expansão da OTAN sobre o Cáucaso e Leste Europeu, o sentido de autodefesa russa se torna ainda mais aguçado. Apesar do crescente destaque internacional do país, a Rússia não tem logrado sucesso em suas investidas: não está segura no Cáucaso; perdeu influência na Ucrânia, na Moldávia e na Ásia Central; bem como amarga o recolhimento da linha de segurança nos Cárpatos e no Báltico, o que é inaceitável, assim como a neutralidade da Bielorússia; também não obtiveram um porto livre de bloqueios ocidentais. Estes são alguns pontos chave e a disputa pela hegemonia com os EUA no Oriente Médio tem muito a ver com tentativas de deslocar a atenção de Washington para áreas mais distantes do interesse imediato russo.
Por outro lado, também não interessa uma grande fragilidade interna russa que possa levar a convulsões internas e uma política externa mais agressiva, como se viu claramente no caso da Geórgia, Chechenia ou Ucrânia. Apesar de nossas dúvidas sobre o futuro do país, a manutenção de seu heartland tem sido um problema mais geográfico que ideológico. As mentalidades, filosofias políticas e ideologias vêm e vão, se metamorfoseiam, mas se dispensarmos a avaliação em uma escala de tempo geológica, o território da Mãe Rússia é perene.

Anselmo Heidrich
27 set. 18

[1] Cf. http://worldpopulationreview.com/. Acesso em 27 set. 2018.
[2] Cazaquistão, 1,10%; Uzbequistão, 1,42%, como algumas repúblicas da ex-URSS; E, embora, não tendo fronteira terrestre com a Rússia, potências regionais próximas e, em maior ou menor grau, rivais como Irã e Turquia também apresentam taxas de crescimento demográfico positivas: 1,05% e 1,45%, respectivamente.
[3] Isto significa mais de 5 milhões e meio por ano, em menos de uma década, uma população equivalente a Argentina surge dentro da China.

segunda-feira, abril 16, 2018

Por que a Guerra da Síria?

Imagem: Notícias ao Minuto Brasil - Síria sofre com ataques logo após votação sobre cessar-fogo na ONU

A Síria é um país situado em uma das mais instáveis regiões do globo, o Oriente Médio. Sua concentração populacional está a oeste, uma franja de terra mais úmida do país e o interior é um enorme deserto que se estende ao sul, na Península Arábica. Mas não é qualquer deserto… Ele margeia o Golfo Pérsico que concentra 1/3 das reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás) mundial. Mas para enviar esta riqueza aos principais centros consumidores (Europa e América) tem que se circundar a península, passar por um estreito – Ormuz – que é estratégico e vigiado de perto por inimigos (Irã), costear o sul com vizinhos em pé de guerra (Iêmen), atravessar outro estreito – Bab-el-Mandeb – sujeito à pirataria somali e adentrar no Mar Vermelho para depois atravessar o Canal de Suez e só daí então conseguir entrar no Mar Mediterrâneo no sul do continente europeu onde estão alguns dos principais consumidores. Claro que tudo isto custa. A distância, a passagem pelo canal e os riscos embutidos nesta hercúlea tarefa sem considerarmos os “custos políticos”, i.e., manter governos aliados que tenham interesse na estabilidade regional e manutenção da integração comercial. Só que há um jeito mais fácil.
Seria um mamãozinho com açúcar se pudessem enviar a produção de hidrocarbonetos diretamente pelo deserto em dutos passando pela Síria até chegar ao Mediterrâneo Oriental. Mas se tudo fosse uma mera questão de logística e pagar a quem tem poder de cobrar seria bem menos confuso. Quando falamos em Oriente Médio não nos referimos apenas à vastidão desértica e seu subsolo. Há muito mais tipos de paisagens sobre a superfície, só que culturais… Descendo os rios Tigre e Eufrates (que nascem na Turquia) até sua desembocadura encontramos uma grande e fértil planície, a Mesopotâmia que foi berço de civilizações, como a Assíria. Formando um arco até o Rio Nilo dentro do Egito temos o Crescente Fértil que são dois grandes ecúmenos (regiões favoráveis ao povoamento) na região. Três grandes regiões monoteístas surgiram aí, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo que mais tarde, por diferentes razões entrariam em conflitos. Também civilizações tiveram a região em seu bojo, os persas, os gregos e os romanos. O Império Romano se dividiu em dois e o Império Romano do Oriente sobrevive resistindo ao Império Islâmico, que se formaria mais tarde. Mas os católicos tentam recuperar esta área de onde teria surgido a sua religião. Mais tarde, provenientes da Ásia Central chegam os turcos otomanos e seu império domina o mundo árabe, norte da África e os Bálcãs no sudeste da Europa por 600 anos até a I Guerra Mundial. Quando esta finda, surgem países onde havia uma coesão dada pela força turca.
Pela primeira vez temos a Síria no mapa, assim como a Jordânia, o Iraque, a Arábia Saudita criados no em 1916, quando ingleses e franceses partilharam o território do Império Turco-Otomano. Como não podiam vencer os turcos sozinhos articularam uma aliança como os árabes que eram subjugados pelo império. A promessa, na verdade uma moeda de troca era a criação de um país para os árabes, a Grande Arábia. Mas o que ocorreu, de fato foi a partilha em vários países. Inicialmente o Iraque, a Jordânia e a Palestina pelos britânicos, a Síria pela França.
Vamos definir os fatores envolvidos, como toda grande população não há uma homogeneidade que faça uma maior união entre os árabes que sua própria língua. Isto pode ser básico, mas não é suficiente. Lembremos que a religião é um fator essencial na região e não há somente uma, mas três grandes religiões monoteístas, cada qual com sua visão de mundo, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Embora vários países fossem criados, eles permaneceram divididos internamente entre grupos religiosos e suas subdivisões internas, as seitas, como foram os sunitas xiitas dentro do Islã. Para melhor controle da situação e aliança com grupos locais, algumas dessas elites locais privilegiaram seus grupos étnicos. P.ex., xiitas na Síria e sunitas no Iraque.
Como sabemos, a região é riquíssima em petróleo, mas este não é o caso da Síria que, por sua vez tem um ótimo acesso ao Mar Mediterrâneo. Os grandes produtores voltados para leste, contrariamente vivem sob tensão entre rivais (Irã, Iraque, entre outros) com saída apenas pelo Golfo Pérsico e uma estreita passagem, o Estreito de Ormuz. Com a II Guerra Mundial, o ciclo do chamado imperialismo finda e as nações europeias enfraquecidas abandonam a região, mas plantando um problema, a criação de um estado polêmico, Israel. Quando abandonada pelos britânicos, Israel é atacada pelos estados árabes vizinhos. Próxima à Israel, Síria tem constantes golpes de estado e assim como a região se torna uma bomba-relógio. Justamente nesta época surge na Síria uma ideologia o Baaz que resgata o antigo sonho de união do mundo árabe, o panarabismo com ideias socialistas, mas com algo que a distingue de muito do que vemos hoje, a divisão entre estado e religião, isto é, a laicidade. Seguindo esta visão, Síria e Egito formam uma aliança e enquanto este nacionaliza (estatiza) o petróleo no país, Al Assad, pai do atual Bashar al-Assad se torna o chefe do estado baaz no país. Ao lado, no vizinho Iraque, Saddam Hussein, aquele mesmo que foi enforcado cresce em poderio, mas mantém suas diferenças e divergências com o país vizinho. Isto leva os demais países árabes a se dividirem em Baaz pró-Síria ou Baaz pró-Iraque. Em cena, que na verdade nunca tinha saído do ato, a velha Razão de Estado dá as caras, novamente. Em suma, não se trata de uma gritante diferença étnica, religiosa que inviabiliza a convivência entre os povos na região, assim como as diferenças religiosas, pois mesmo quando situadas distantes há o aproveitamento dessas para manutenção e expansão do poder dos organismos estatais. E mesmo no caso de uma ideologia laica criada na região, o Baaz, a Razão de Estado prevalece. Por essas e outras é que não é a teologia ou ideologia qualquer que explica isto tudo, a não ser como um elemento a mais. Mas sim a Geopolítica. Ela é que é o estudo adequado para entender a realidade em sua complexidade, como uma eterna luta pela conquista e administração do poder territorial como algo inerente aos humanos e suas agremiações políticas e sociais.
Agora estamos na Guerra Fria e a divisão geopolítica do globo fica clara, ou somos pró-EUA ou pró-URSS. Esta oposição se reflete em conflitos regionais, como entre árabes e israelenses com ataques no sul do Líbano, área estratégica entre Síria e Israel. Mas nesta luta não há apenas dois lados ou duas ideologias claramente antagônicas como muitas vezes aprendemos nos bancos de escola. Surge dentro da Síria um movimento de oposição ao regime, a Irmandade Muçulmana que manterá até 1963, quando ocorre um golpe do Partido Baaz. A oposição com força religiosa cresceu durante os anos 70 até que milhares fossem massacrados no levante de Hama, em 1982. Temporariamente apagada, as sementes dessa resistência iriam germinar mais tarde…
Agora lembremos a composição religiosa da região. A maioria dos árabes era (e continua sendo) muçulmana e esta se subdivide em dois ramos fundamentais, sunitas e xiitas, cujas diferenças remontam a época da morte de seu profeta, Maomé.[1] No caso da Síria, apesar de ser um estado laico, os governantes eram xiitas que representavam menos de 13% da população e mais de 70% da população, sunita. Um fato curioso é que os cristãos perfazem 10% da população do país. Enfim, os xiitas controlam a população através da administração e o exército.
síria etnias
Distribuição étnica na Síria
No ano 2000, Assad, o pai morre e o filho assume com muitas promessas modernizadoras na área social, econômica, tecnológica etc. que se seguiu a um período de intenso debate político. Agora lembre-se, que em momentos de abertura política de regimes autoritários (vide URSS no período Gorbatchov), a oposição que jaz adormecida mantém sua crítica e revolta contra o regime, latentes. Na menor chance de manifestação ressurgem com força e, geralmente, de forma caótica que leva a uma violência de um governo que vê na repressão pura e simples, uma instituição já consagrada. Como vimos, a repressão com milhares de mortos já era corriqueiro desde os anos 70. Por que agora em um “mundo globalizado” não iria ocorrer da mesma forma só por que celulares se tornaram mais acessíveis? É uma grande ingenuidade achar que o simples acesso a mercados internacionais torna a política mais civilizada e a cultura como um todo, automaticamente, mais compreensiva entre suas diferenças em qualquer lugar do mundo. O desenvolvimento nunca é homogêneo para todos e sem a percepção e administração que leve a cultura e geografia locais, não há sociedade que se estabilize.
No plano externo, o então presidente americano George W. Bush declara a Síria pertencente ao “Eixo do Mal” (juntamente com Iraque, Líbia, Cuba, Coreia do Norte e Irã). Isto leva ao isolamento do país e as negociações emperram. Novamente, Razões de Estado operam… Até outubro de 2015, o governo de Assad era apoiado por Rússia (que já detinha bases militares no país), por Irã e China. Todos esses países que a Europa chama de “oriente” (mesmo incluindo a Rússia nesse bolo). Aliados à oposição de Assad estão Estados Unidos, Reino Unido, França, Turquia e Arábia Saudita. A divergência entre estes grupos de países, o Ocidente e o chamado “Eixo do Mal” não é só pelo financiamento ao terrorismo. Sauditas, cujo país é um grande aliado americano também são acusados de ajudarem grupos terroristas e financiamento de mesquitas com mensagens claramente antiocidentais mundo afora e nem por isso sofreram qualquer tipo de boicote e nem poderiam, pois são os maiores exportadores mundiais de petróleo. A questão que leva a outro nível de complexidade regional é quem se opõe ao controle que vise facilitar a distribuição dos recursos energéticos que facilitam o consumo de seus principais importadores. Lembre-se que a Síria estava no caminho e agora, como herdeira das relações com a antiga URSS, uma aliada da Federação Russa.
Agora entram em cena outros agentes, não menos importantes, responsáveis pela inclinação do pêndulo geopolítico ora para as forças ocidentais (EUA, Europa Ocidental, Japão, Arábia Saudita etc.), ora para as orientais (Rússia, Irã e China): os curdos. Os curdos considerados o maior povo apátrida do mundo, que se distribuem entre Síria, Iraque, Turquia e Irã também começam a se manifestar no cenário político sírio, o que leva à repressão e mortes. Em 2011, como já devem saber começa a chamada Primavera Árabe, uma série de protestos que vai se estendendo por todos os países árabes em nome da democracia. O que tem que ficar claro é que democracia não é um ideal per se quando se trata de um regime político, mas um meio para se atingir certos ideais. A questão agora é saber quais seriam estes em países árabes? Uma coisa que chama atenção ao lermos editoriais politicamente corretos em defesa da democracia, que estão certos quanto ao método político é que não se perguntam qual o objetivo de muitos desses movimentos no uso da democracia: é por um estado de direito aos moldes ocidentais ou a instalação de teocracias que destituam regimes laicos e autoritários do poder na borda subdesenvolvida do mundo?
Duas categorias de países se formam na região, os que viabilizam processos de mudança através do regime democrático e os que sofrem repressão de seus governos, o caso da Síria. Esta se generaliza dando origem a uma guerra civil entre diversas facções. Quais são elas? Lembremos que uma minoria, xiita, laica e governista se opõe a uma maioria religiosa sunita, em que pese o fato de haver uma minoria laica na oposição, a grossa maioria tem fundamentação religiosa, como se pode averiguar no quadro abaixo:

XiitasSunitas
LaicosIslamitasIslamitas extremistas
Governo AssadFSA (Frente Islâmica)
“oposição”
Al Nusra
(al Qaeda
na Síria)

ISIS (EI = Exército Islâmico)





Obviamente que em meio a uma crise como esta surgem oportunistas, dos quais o ISIS é apenas mais um, que se alimenta do ressentimento da opressão aos sunitas, da visão do ocidente invasor, a identidade árabe e a mitologia de antigos árabes. O objetivo do ISIS impacta muitos. Pretendem construir um Estado Islâmico em todo o Norte da África e Oriente Médio, mas seus oponentes não se restringem a Assad ou o Ocidente. Lembre-se dos curdos, que têm organizações políticas, como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (Parti Karkerani Kurdistan, PKK) perseguidas em muitos países, mas com ao tirar proveito da crise passaram a controlar o norte da Síria e eles têm recebido financiamento para lutar contra os insurgentes. Perseguidos por aliados ocidentais como a Turquia, os curdos também são inimigos de “inimigos maiores” dos ocidentais. Na confusa geopolítica do Oriente Médio, a máxima de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” não funciona, pois o inimigo de meu inimigo pode ser meu inimigo também.
Aqui já podemos tirar algumas conclusões. Enquanto os impérios europeus existiram durante, a Síria como conhecemos há pouco mais de 70 anos. Claro que como toda ex-colônia não foi ela quem formatou suas fronteiras, mas isto também não deve servir de desculpa e causa única para todas as mazelas posteriores. Fosse assim, nós aqui na América Latina também deveríamos estar em ebulição civil porque houve imposição de linhas demarcatórias.
Para muitos analistas, a anatomia da crise política, social, econômica nas ex-colônias se resume ao seguinte quadro esquemático:
Necessidade de controlar o próprio destinoZONA ESTRATÉGICA
Todos a querem
Impérios
Europa divide a região para controle
Países desenhados sem consulta à população
FRACASSO: Guerra Civil
A retórica ideológica embutida no esquema politicamente correto acima diz que todo povo deve controlar seu próprio destino, mas o que vemos é que “povo” é uma categoria vaga, melhor substituída por população que encerra um conceito meramente quantitativo ou sociedade, que compreende um conceito qualitativo não harmônico, isto é, que tem o conflito e divisão de interesses como premissas. Quando percebemos que durante estas décadas, a ideologia agregadora daquelas pessoas foi a laica, nacionalista e socialista Baaz, que só se manteve no poder graças a repressão nos perguntamos qual a densidade teórica do ideal de historiadores? Portanto, o relato histórico tem que ser descritivo mesmo ou não entenderemos mais nada. Quando substituída por premissas valorativas que nada mais são que juízos de valor pautados por frágeis ideais, só ficamos mais e mais confusos sem entender o que realmente acontece. Este é o caso da Síria, quando a retórica nacionalista é usada para apontar soluções esquecendo-se que foi justamente ela que levou à ruína da pouca estabilidade que existia.
Se este artigo serviu para algo espero que seja a resposta à pergunta “quem tem razão na guerra na Síria?” ao que direi depende. Agora, claro está que este relativismo analíticonão deve servir como relativismo moral, pois se há algum valor que sirva como baliza absoluta aí está e é nele que devemos nos pautar quando dizemos que algo está errado, independente de qual lado, ideologicamente mais simpático venha a agressão. Evidentemente que numa guerra ocorrerão mortes, mas daí resta saber quem agrediu primeiro e de que forma nos levando a uma análise um tanto quanto tecnicista, mas necessária para podermos ter alguma posição (nem que seja a da neutralidade) neste bravo novo mundo tribal globalizado.




[1] Quando este morreu não deixou nenhum sucessor e seu primo e genro, Ali reivindicou a posse de profeta da religião e os califas, chefes-de-estados – os shiat Ali –“partidários de Ali”, mais conhecidos como xiitas assumiram que qualquer liderança religiosa só poderia vir da linhagem de Maomé. Seus opositores, os sunitas, seguem um documento que narra as experiências de Maomé, a Sunna e admitem como lideranças sucessores de outros califas além de Ali. Como se deduz, é uma luta por poder sucessório que vai além de qualquer teologia.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Por que existe nazismo na Ucrânia?


Ucraina, parlamentari e ministri del regime in parata con i simboli delle squadracce naziste. Dove sono i mass media? – World Affairs – L’Antidiplomatico
http://www.lantidiplomatico.it/dettnews-ucraina_parlamentari_e_ministri_del_regime_in_parata_con_i_simboli_delle_squadracce_naziste_dove_sono_i_mass_media/82_21792/
Eu já tinha lido sobre a influência e ligação dos ucranianos com o Nazismo. Isto não se justifica, evidentemente, mas se explica… Desde a Revolução Bolchevique que os ucranianos são submetidos aos russos. um antigo anarquista – Nestor Makhno – foi traído por eles após ter ajudado a derrubar o czar e os russos brancos – mencheviques.Durante o Pós-Guerra vigorou a máxima “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, logo, os nazistas como inimigos dos comunistas (representados pelo poder russo) passaram a ser vistos com simpatia. Lembremos também que aquela área, em menor proporção do que o Cáucaso ou os Bálcãs sofre com o avanço islâmico que é a situação perfeita para o ressurgimento da xenofobia e ideias de pureza racial. Toda migração em massa leva a um tipo de reação xenófoba, mas quem misturou propositalmente os povos na antiga URSS? Se pensou em Stalin acertou. Esta era a chamada “política do liquidificador”, de misturar os povos acabando com suas antigas identidades tradicionais para criar o “novo homem” do comunismo, mas que na prática foi uma reedição da estratégia imperialista “dividir para reinar”. O que temos hoje é um reflexo do passado que tinha sido amortecido/ocultado nos anos de Gorbatchev e Ieltsin, mas que agora com o refortalecimento da potência sob os governos de Putin/Medvedev/Putin em que se (re-)marcou a presença da Federação Russa, não só na Ucrânia, mas também em outros países da periferia da antiga URSS que estão sob pressão de Moscou. O papel americano em sentido contrário é fazer exatamente a mesma coisa que fizeram durante a Guerra Fria e quando digo “fizeram”, não me refiro apenas aos EUA, mas também à URSS. Seja quando esta financiou os vietcongscontra os EUA na Indochina, seja quando os americanos financiaram os afegãos, particularmente o taleban (que apoiou Bin Laden mais tarde) contra os soviéticos. Este é o “Grande Jogo”, como era chamado durante a Guerra Fria e que durante alguns poucos anos tivemos a ilusão de que tinha sido deixado para trás. Só que agora com um detalhe nada desprezível, a entrada da China e de parceiros menores na corrida armamentista já “quase socializada” em termos de potencial nuclear (o difícil ainda é a balística de levar o artefato até o destinatário).
Quanto à participação de Israel neste imbróglio, eu não tenho conhecimento. Tenho sim de sua atuação em relação à Síria, contra o Irã etc. E quanto a participação do megainvestidor George Soros, também desconheço, mas me chama muito atenção que tanto Esquerda quanto a (Nova) Direita o tenham como inimigo comum. Isto tem uma explicação lógica para mim, suas operações financeiras requerem um enfraquecimento das soberanias e tanto no que vingou se chamar de Esquerda ou de Direita a partir do século XX é, fundamentalmente, estatista.

Bom dia,
Anselmo Heidrich

quinta-feira, outubro 12, 2017

Por que o Sudão se tornou um aliado dos EUA?


The Economist explains: Why America has lifted sanctions on Sudan https://www.economist.com/blogs/economist-explains/2017/10/economist-explains-7?cid1=cust/ddnew/email/n/n/20171010n/owned/n/n/ddnew/n/n/n/nla/Daily_Dispatch/email via @TheEconomist
Esse é o tipo de notícia que nossos partisans ideológicos deveria ler e ver se captam alguma coisa. Ouvi e li muito que “com Trump seria tudo bem diferente”. Pessoal, até certo ponto, ATÉ CERTO PONTO podem haver mudanças, realmente, mas há temas sensíveis que isto simplesmente NÃO ocorre não porque o presidente – @POTUS – não quer, mas porque ele não pode, porque ele não consegue. Tentou-se diminuir o fluxo de imigrantes muçulmanos, principalmente aqueles relacionados de alguma forma à atividade terrorista e neste caso estava o Sudão. Este país sofria embargo econômico desde o governo Clinton por ter dado guarida à terroristas, entre os quais Osama bin Laden e depois foi reforçado pela guerra civil e genocídio praticado contra os sudaneses do sul (“infiéis”, isto é, não muçulmanos). Mais tarde, com a mudança política, colaboração contra o terror e amenização nas relações com os vizinhos, parceria na exploração de petróleo com a China, colaboração no controle migratório para a Europa etc., o país saiu da lista de não gratos para sofrer sanções novamente com o Governo Trump. Mas, UMA VEZ QUE Cartum, a capital do Sudão decidiu colaborar contra o regime norte-coreano se tornando um aliado contra Kim Jong-un com o qual se aventa ter mantido relações estratégicas no passado (compra de armas), o olhar de Washington sob o governo Trump mudou novamente.
Lembre-se, por mais potência que você seja, o domínio é uma constelação de interesses e articulações. Sempre existe um cálculo econômico no domínio geopolítico e ninguém faz procurando o caminho mais difícil ou caro. Trump está aprendendo e mudando COMO TODOS os outros, descendo do palanque e sentando à mesa de negociações.
Anselmo Heidrich