segunda-feira, abril 16, 2018

Por que a Guerra da Síria?

Imagem: Notícias ao Minuto Brasil - Síria sofre com ataques logo após votação sobre cessar-fogo na ONU

A Síria é um país situado em uma das mais instáveis regiões do globo, o Oriente Médio. Sua concentração populacional está a oeste, uma franja de terra mais úmida do país e o interior é um enorme deserto que se estende ao sul, na Península Arábica. Mas não é qualquer deserto… Ele margeia o Golfo Pérsico que concentra 1/3 das reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás) mundial. Mas para enviar esta riqueza aos principais centros consumidores (Europa e América) tem que se circundar a península, passar por um estreito – Ormuz – que é estratégico e vigiado de perto por inimigos (Irã), costear o sul com vizinhos em pé de guerra (Iêmen), atravessar outro estreito – Bab-el-Mandeb – sujeito à pirataria somali e adentrar no Mar Vermelho para depois atravessar o Canal de Suez e só daí então conseguir entrar no Mar Mediterrâneo no sul do continente europeu onde estão alguns dos principais consumidores. Claro que tudo isto custa. A distância, a passagem pelo canal e os riscos embutidos nesta hercúlea tarefa sem considerarmos os “custos políticos”, i.e., manter governos aliados que tenham interesse na estabilidade regional e manutenção da integração comercial. Só que há um jeito mais fácil.
Seria um mamãozinho com açúcar se pudessem enviar a produção de hidrocarbonetos diretamente pelo deserto em dutos passando pela Síria até chegar ao Mediterrâneo Oriental. Mas se tudo fosse uma mera questão de logística e pagar a quem tem poder de cobrar seria bem menos confuso. Quando falamos em Oriente Médio não nos referimos apenas à vastidão desértica e seu subsolo. Há muito mais tipos de paisagens sobre a superfície, só que culturais… Descendo os rios Tigre e Eufrates (que nascem na Turquia) até sua desembocadura encontramos uma grande e fértil planície, a Mesopotâmia que foi berço de civilizações, como a Assíria. Formando um arco até o Rio Nilo dentro do Egito temos o Crescente Fértil que são dois grandes ecúmenos (regiões favoráveis ao povoamento) na região. Três grandes regiões monoteístas surgiram aí, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo que mais tarde, por diferentes razões entrariam em conflitos. Também civilizações tiveram a região em seu bojo, os persas, os gregos e os romanos. O Império Romano se dividiu em dois e o Império Romano do Oriente sobrevive resistindo ao Império Islâmico, que se formaria mais tarde. Mas os católicos tentam recuperar esta área de onde teria surgido a sua religião. Mais tarde, provenientes da Ásia Central chegam os turcos otomanos e seu império domina o mundo árabe, norte da África e os Bálcãs no sudeste da Europa por 600 anos até a I Guerra Mundial. Quando esta finda, surgem países onde havia uma coesão dada pela força turca.
Pela primeira vez temos a Síria no mapa, assim como a Jordânia, o Iraque, a Arábia Saudita criados no em 1916, quando ingleses e franceses partilharam o território do Império Turco-Otomano. Como não podiam vencer os turcos sozinhos articularam uma aliança como os árabes que eram subjugados pelo império. A promessa, na verdade uma moeda de troca era a criação de um país para os árabes, a Grande Arábia. Mas o que ocorreu, de fato foi a partilha em vários países. Inicialmente o Iraque, a Jordânia e a Palestina pelos britânicos, a Síria pela França.
Vamos definir os fatores envolvidos, como toda grande população não há uma homogeneidade que faça uma maior união entre os árabes que sua própria língua. Isto pode ser básico, mas não é suficiente. Lembremos que a religião é um fator essencial na região e não há somente uma, mas três grandes religiões monoteístas, cada qual com sua visão de mundo, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Embora vários países fossem criados, eles permaneceram divididos internamente entre grupos religiosos e suas subdivisões internas, as seitas, como foram os sunitas xiitas dentro do Islã. Para melhor controle da situação e aliança com grupos locais, algumas dessas elites locais privilegiaram seus grupos étnicos. P.ex., xiitas na Síria e sunitas no Iraque.
Como sabemos, a região é riquíssima em petróleo, mas este não é o caso da Síria que, por sua vez tem um ótimo acesso ao Mar Mediterrâneo. Os grandes produtores voltados para leste, contrariamente vivem sob tensão entre rivais (Irã, Iraque, entre outros) com saída apenas pelo Golfo Pérsico e uma estreita passagem, o Estreito de Ormuz. Com a II Guerra Mundial, o ciclo do chamado imperialismo finda e as nações europeias enfraquecidas abandonam a região, mas plantando um problema, a criação de um estado polêmico, Israel. Quando abandonada pelos britânicos, Israel é atacada pelos estados árabes vizinhos. Próxima à Israel, Síria tem constantes golpes de estado e assim como a região se torna uma bomba-relógio. Justamente nesta época surge na Síria uma ideologia o Baaz que resgata o antigo sonho de união do mundo árabe, o panarabismo com ideias socialistas, mas com algo que a distingue de muito do que vemos hoje, a divisão entre estado e religião, isto é, a laicidade. Seguindo esta visão, Síria e Egito formam uma aliança e enquanto este nacionaliza (estatiza) o petróleo no país, Al Assad, pai do atual Bashar al-Assad se torna o chefe do estado baaz no país. Ao lado, no vizinho Iraque, Saddam Hussein, aquele mesmo que foi enforcado cresce em poderio, mas mantém suas diferenças e divergências com o país vizinho. Isto leva os demais países árabes a se dividirem em Baaz pró-Síria ou Baaz pró-Iraque. Em cena, que na verdade nunca tinha saído do ato, a velha Razão de Estado dá as caras, novamente. Em suma, não se trata de uma gritante diferença étnica, religiosa que inviabiliza a convivência entre os povos na região, assim como as diferenças religiosas, pois mesmo quando situadas distantes há o aproveitamento dessas para manutenção e expansão do poder dos organismos estatais. E mesmo no caso de uma ideologia laica criada na região, o Baaz, a Razão de Estado prevalece. Por essas e outras é que não é a teologia ou ideologia qualquer que explica isto tudo, a não ser como um elemento a mais. Mas sim a Geopolítica. Ela é que é o estudo adequado para entender a realidade em sua complexidade, como uma eterna luta pela conquista e administração do poder territorial como algo inerente aos humanos e suas agremiações políticas e sociais.
Agora estamos na Guerra Fria e a divisão geopolítica do globo fica clara, ou somos pró-EUA ou pró-URSS. Esta oposição se reflete em conflitos regionais, como entre árabes e israelenses com ataques no sul do Líbano, área estratégica entre Síria e Israel. Mas nesta luta não há apenas dois lados ou duas ideologias claramente antagônicas como muitas vezes aprendemos nos bancos de escola. Surge dentro da Síria um movimento de oposição ao regime, a Irmandade Muçulmana que manterá até 1963, quando ocorre um golpe do Partido Baaz. A oposição com força religiosa cresceu durante os anos 70 até que milhares fossem massacrados no levante de Hama, em 1982. Temporariamente apagada, as sementes dessa resistência iriam germinar mais tarde…
Agora lembremos a composição religiosa da região. A maioria dos árabes era (e continua sendo) muçulmana e esta se subdivide em dois ramos fundamentais, sunitas e xiitas, cujas diferenças remontam a época da morte de seu profeta, Maomé.[1] No caso da Síria, apesar de ser um estado laico, os governantes eram xiitas que representavam menos de 13% da população e mais de 70% da população, sunita. Um fato curioso é que os cristãos perfazem 10% da população do país. Enfim, os xiitas controlam a população através da administração e o exército.
síria etnias
Distribuição étnica na Síria
No ano 2000, Assad, o pai morre e o filho assume com muitas promessas modernizadoras na área social, econômica, tecnológica etc. que se seguiu a um período de intenso debate político. Agora lembre-se, que em momentos de abertura política de regimes autoritários (vide URSS no período Gorbatchov), a oposição que jaz adormecida mantém sua crítica e revolta contra o regime, latentes. Na menor chance de manifestação ressurgem com força e, geralmente, de forma caótica que leva a uma violência de um governo que vê na repressão pura e simples, uma instituição já consagrada. Como vimos, a repressão com milhares de mortos já era corriqueiro desde os anos 70. Por que agora em um “mundo globalizado” não iria ocorrer da mesma forma só por que celulares se tornaram mais acessíveis? É uma grande ingenuidade achar que o simples acesso a mercados internacionais torna a política mais civilizada e a cultura como um todo, automaticamente, mais compreensiva entre suas diferenças em qualquer lugar do mundo. O desenvolvimento nunca é homogêneo para todos e sem a percepção e administração que leve a cultura e geografia locais, não há sociedade que se estabilize.
No plano externo, o então presidente americano George W. Bush declara a Síria pertencente ao “Eixo do Mal” (juntamente com Iraque, Líbia, Cuba, Coreia do Norte e Irã). Isto leva ao isolamento do país e as negociações emperram. Novamente, Razões de Estado operam… Até outubro de 2015, o governo de Assad era apoiado por Rússia (que já detinha bases militares no país), por Irã e China. Todos esses países que a Europa chama de “oriente” (mesmo incluindo a Rússia nesse bolo). Aliados à oposição de Assad estão Estados Unidos, Reino Unido, França, Turquia e Arábia Saudita. A divergência entre estes grupos de países, o Ocidente e o chamado “Eixo do Mal” não é só pelo financiamento ao terrorismo. Sauditas, cujo país é um grande aliado americano também são acusados de ajudarem grupos terroristas e financiamento de mesquitas com mensagens claramente antiocidentais mundo afora e nem por isso sofreram qualquer tipo de boicote e nem poderiam, pois são os maiores exportadores mundiais de petróleo. A questão que leva a outro nível de complexidade regional é quem se opõe ao controle que vise facilitar a distribuição dos recursos energéticos que facilitam o consumo de seus principais importadores. Lembre-se que a Síria estava no caminho e agora, como herdeira das relações com a antiga URSS, uma aliada da Federação Russa.
Agora entram em cena outros agentes, não menos importantes, responsáveis pela inclinação do pêndulo geopolítico ora para as forças ocidentais (EUA, Europa Ocidental, Japão, Arábia Saudita etc.), ora para as orientais (Rússia, Irã e China): os curdos. Os curdos considerados o maior povo apátrida do mundo, que se distribuem entre Síria, Iraque, Turquia e Irã também começam a se manifestar no cenário político sírio, o que leva à repressão e mortes. Em 2011, como já devem saber começa a chamada Primavera Árabe, uma série de protestos que vai se estendendo por todos os países árabes em nome da democracia. O que tem que ficar claro é que democracia não é um ideal per se quando se trata de um regime político, mas um meio para se atingir certos ideais. A questão agora é saber quais seriam estes em países árabes? Uma coisa que chama atenção ao lermos editoriais politicamente corretos em defesa da democracia, que estão certos quanto ao método político é que não se perguntam qual o objetivo de muitos desses movimentos no uso da democracia: é por um estado de direito aos moldes ocidentais ou a instalação de teocracias que destituam regimes laicos e autoritários do poder na borda subdesenvolvida do mundo?
Duas categorias de países se formam na região, os que viabilizam processos de mudança através do regime democrático e os que sofrem repressão de seus governos, o caso da Síria. Esta se generaliza dando origem a uma guerra civil entre diversas facções. Quais são elas? Lembremos que uma minoria, xiita, laica e governista se opõe a uma maioria religiosa sunita, em que pese o fato de haver uma minoria laica na oposição, a grossa maioria tem fundamentação religiosa, como se pode averiguar no quadro abaixo:

XiitasSunitas
LaicosIslamitasIslamitas extremistas
Governo AssadFSA (Frente Islâmica)
“oposição”
Al Nusra
(al Qaeda
na Síria)

ISIS (EI = Exército Islâmico)





Obviamente que em meio a uma crise como esta surgem oportunistas, dos quais o ISIS é apenas mais um, que se alimenta do ressentimento da opressão aos sunitas, da visão do ocidente invasor, a identidade árabe e a mitologia de antigos árabes. O objetivo do ISIS impacta muitos. Pretendem construir um Estado Islâmico em todo o Norte da África e Oriente Médio, mas seus oponentes não se restringem a Assad ou o Ocidente. Lembre-se dos curdos, que têm organizações políticas, como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (Parti Karkerani Kurdistan, PKK) perseguidas em muitos países, mas com ao tirar proveito da crise passaram a controlar o norte da Síria e eles têm recebido financiamento para lutar contra os insurgentes. Perseguidos por aliados ocidentais como a Turquia, os curdos também são inimigos de “inimigos maiores” dos ocidentais. Na confusa geopolítica do Oriente Médio, a máxima de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo” não funciona, pois o inimigo de meu inimigo pode ser meu inimigo também.
Aqui já podemos tirar algumas conclusões. Enquanto os impérios europeus existiram durante, a Síria como conhecemos há pouco mais de 70 anos. Claro que como toda ex-colônia não foi ela quem formatou suas fronteiras, mas isto também não deve servir de desculpa e causa única para todas as mazelas posteriores. Fosse assim, nós aqui na América Latina também deveríamos estar em ebulição civil porque houve imposição de linhas demarcatórias.
Para muitos analistas, a anatomia da crise política, social, econômica nas ex-colônias se resume ao seguinte quadro esquemático:
Necessidade de controlar o próprio destinoZONA ESTRATÉGICA
Todos a querem
Impérios
Europa divide a região para controle
Países desenhados sem consulta à população
FRACASSO: Guerra Civil
A retórica ideológica embutida no esquema politicamente correto acima diz que todo povo deve controlar seu próprio destino, mas o que vemos é que “povo” é uma categoria vaga, melhor substituída por população que encerra um conceito meramente quantitativo ou sociedade, que compreende um conceito qualitativo não harmônico, isto é, que tem o conflito e divisão de interesses como premissas. Quando percebemos que durante estas décadas, a ideologia agregadora daquelas pessoas foi a laica, nacionalista e socialista Baaz, que só se manteve no poder graças a repressão nos perguntamos qual a densidade teórica do ideal de historiadores? Portanto, o relato histórico tem que ser descritivo mesmo ou não entenderemos mais nada. Quando substituída por premissas valorativas que nada mais são que juízos de valor pautados por frágeis ideais, só ficamos mais e mais confusos sem entender o que realmente acontece. Este é o caso da Síria, quando a retórica nacionalista é usada para apontar soluções esquecendo-se que foi justamente ela que levou à ruína da pouca estabilidade que existia.
Se este artigo serviu para algo espero que seja a resposta à pergunta “quem tem razão na guerra na Síria?” ao que direi depende. Agora, claro está que este relativismo analíticonão deve servir como relativismo moral, pois se há algum valor que sirva como baliza absoluta aí está e é nele que devemos nos pautar quando dizemos que algo está errado, independente de qual lado, ideologicamente mais simpático venha a agressão. Evidentemente que numa guerra ocorrerão mortes, mas daí resta saber quem agrediu primeiro e de que forma nos levando a uma análise um tanto quanto tecnicista, mas necessária para podermos ter alguma posição (nem que seja a da neutralidade) neste bravo novo mundo tribal globalizado.




[1] Quando este morreu não deixou nenhum sucessor e seu primo e genro, Ali reivindicou a posse de profeta da religião e os califas, chefes-de-estados – os shiat Ali –“partidários de Ali”, mais conhecidos como xiitas assumiram que qualquer liderança religiosa só poderia vir da linhagem de Maomé. Seus opositores, os sunitas, seguem um documento que narra as experiências de Maomé, a Sunna e admitem como lideranças sucessores de outros califas além de Ali. Como se deduz, é uma luta por poder sucessório que vai além de qualquer teologia.

sexta-feira, março 30, 2018

quinta-feira, março 29, 2018

O Principal Ingrediente na Luta contra a Corrupção

(Imagem: For Brazil's white-collar criminals, 2015 was the Year of the Snitch chicagotribune.com)
ANSELMO HEIDRICH[i]
A rigor, a corrupção não é uma doença identificada em alguma classificação estatística de doenças como o CID,[1] mas ela se relaciona a estes efeitos orgânicos em vários sentidos. Em Serra Leoa, país da costa ocidental africana e portador de um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) mundiais, os protestos contra a inação governamental contra surtos de Ebola resultaram em aprisionamento de seus manifestantes (The Guardian, 2016). Portanto, quando criticamos a situação econômica e social de países pobres lembre-se que isto é pior do que um mau arranjo institucional ou péssimos índices de desenvolvimento humano, mas sim a repressão bruta a toda liberdade de expressão que visa apontar a ineficiência e corrupção governamentais.
Pode se argumentar que estamos longe deste cenário, que o Brasil reagiu a um quadro de corrupção sistêmica, quando este atingiu seu ápice. Isto tudo pode ser verdade, mas para uma parte do país, a sociedade. A outra parte, nosso estado não tem o mesmo tipo de imunidade. Lembre-se que a maior parte das andanças do ex-presidente Lula por Cuba, República Dominicana, Gana e Angola foram bancadas pela Odebrecht, a principal beneficiária de obras licitadas pelo governo petista. Foram bilhões em projetos só para esta empreiteira e mais outros de financiamento pelo “banco público” mais conhecido como BNDES. Mas o que faltou aqui para os manifestantes anticorrupção terem o mesmo destino de serraleonenses? O que quase tivemos, um Estatuto da Imprensa.
A abertura de mais um congresso do PT, em 2011 marcava uma antiga obsessão do partido, que é o controle da imprensa, sob o eufemismo de “democratização dos meios de comunicação” (Veja, 2011). Este é um risco enorme que ainda temos, caso os mesmos agentes que lideraram o maior esquema de corrupção mundial possam retornar aos postos de direção de nosso Executivo (já que ainda persistem no Legislativo e têm notória influência no Judiciário). Por isso é um erro achar que a corrupção é só financeira. Nossa complacência com ações que levam ao totalitarismo, o total controle da sociedade começam com o ataque sistemático a nossa liberdade de expressão, este é o ponto. Quando se torna a manifestação de qualquer opinião como, necessariamente favorável ao estado, não há mais separação nítida entre setor privado e público. E aí pouco importa se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha, se o poder público engolfou o privado ou se o privado embolsou o público, o resultado negativo é o mesmo. Ao invés de termos menos interferência de interesses escusos, o contrário ocorre e para nos iludirmos ganhamos conceitos como “participação política” de brinde. Se por acaso, um de seus resultados é adverso aos interesses em jogo, simplesmente se ignora os mesmos resultados, tal como aconteceu com o Estatuto do Desarmamento.
Tentou-se avançar no controle da sociedade com o Estatuto da Imprensa, temporariamente suspenso e depois o Decreto dos Conselhos Populares, no qual um membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ou qualquer outro grupo subsidiado pelo estado teria tanta voz quanto um parlamentar revelando a clara intenção de solapar a verdadeira democracia representativa. É evidente que a corrupção não é um produto exclusivo Made in PT, mas se há alguma agremiação política que sintetizou melhor esta anomia social, esta foi o partido de Mr. Lula e por isso mesmo não foi casual que a luta contra a corrupção começasse atacando este partido. Só que agora não pode se limitar a ele… Quando sabemos que a polícia federal acusou o Instituto FHC de receber 975 mil em doações da Odebrecht fica claro que alguns dos principais partidos políticos do país não podem se destacar de um dos seus principais financiadores, que não há autonomia de fato e isto mina a estrutura que deveria garantir uma mínima isenção política. Mas antes a raiz do problema se limitasse ao âmbito federal…
O Brasil possui mais de 5.500 municípios. Se o Congresso Nacional e o Executivo, mais visados apresentam flagrantes casos de corrupção já investigados e em julgamento imaginem o que não encontraríamos diluídos em todas as municipalidades? Em 2015, a Polícia Federal investigou a Câmara de Florianópolis, na qual cerca de 14 vereadores teriam recebido quase 900 mil de propina para aprovar um novo projeto de publicidade para a cidade. Isto, em uma operação, dois anos atrás em uma capital.
É verdade que quanto maior o estado, maior a corrupção. Trata-se de um enunciado plenamente lógico, mas há mais do que isto em jogo. 80% dos municípios brasileiros são avaliados como tendo péssimas administrações (Melo et al., 2018). As denúncias vão de desvios de verbas da merenda escolar a fraudes nas desapropriações passando pelo superfaturamento e excesso nas compras de materiais de consumo, nos combustíveis, irregularidades em licenciamento de obras, falsos orçamentos para manutenção da frota de veículos, acusações de nepotismo, existência de funcionários fantasmas, superfaturamentos na construção de escolas, hospitais, ginásios e outros prédios públicos, compras de carros de luxo disponibilizados ao gabinete do prefeito e muitas vezes utilizados com fins particulares, compras superfaturadas de medicamentos, material e equipamento hospitalares. Nos maiores centros urbanos também há irregularidades nas concessões de transporte coletivo, nos aumentos dos preços das passagens, fraudes nos serviços de coleta de lixo e limpeza urbana, desvios de verbas federais oriundos de convênios específicos, e a clássica alteração financeira e patrimonial de prefeitos após o término de seus mandatos em comparação ao período de sua entrada sem que se investigue como isto foi possível.
Se fosse apenas uma questão do tamanho do estado, isto não deveria existir porque os orçamentos municipais são bem menores, mas há outro motivo: a centralização dos recursos na capital federal cria uma distância entre o cidadão munícipe e seu poder executivo. É como se os recursos fossem “doações federais” e que não lhes cabem gerir ou fiscalizar, mas que tudo depende de acordos e bom relacionamento entre o prefeito e instâncias superiores como o governo estadual e o federal. O grau de corrupção de uma sociedade depende do tamanho da máquina pública, isto é fato, mas não é algo autoexplicativo. O tipo de relação que levou a esta fusão entre bens públicos e interesses privados é chamado na literatura por patrimonialismo. É algo que deriva das sociedades em que os estados, seja na figura do monarca ou de alguma oligarquia, comuns na Europa Oriental não tiveram seus estados criados por uma base contratual com derrubadas de antigos regimes.
Se formos analisar o modus operandi do estado brasileiro, muito mais que um cenário de disputas interclassista, ocorre é uma verdadeira apropriação da máquina pública que deveria ser uma “coisa pública” (res publica). Neste processo de constituição do estado, ele tem muito pouco a ver com a formação de estados em sociedades liberais. Não se trata de uma excrescência, mas o patrimonialismo moderno, o chamado neopatrimonialismo que caracteriza estados como o brasileiro, vai além de formas de sobrevivência de antigas estruturas tradicionais. São formas bastante atuais de dominação política por um estrato social que não necessariamente detém propriedades como meio de dominação: a burocracia.
Em Bases do Autoritarismo Brasileiro, Simon Schwartzman explica nossa estrutura estatal de acordo com a linha de continuidade que Max Weber via entre a dominação patrimonial tradicional e a dominação neopatrimonial burocrática. Esta deve ser vista em contraste com outra linha de continuidade, que se deu entre o feudalismo e adominação racional-legal que vigorou na Europa Ocidental. Ambas têm seus estados formados, mas apresentam diferenças na sua constituição. Enquanto que a primeira se caracterizou por forte centralização de poder, a segunda se pautou em “relações contratuais estabelecidas entre unidades relativamente autônomas” (1988, p.60).
Para melhor nos situarmos, vejamos o quadro esquemático abaixo:
Tipologia de dominação política em WeberRelação de poder


Sistema normativo
AbsolutaContratual
TradicionalPatrimonialismoFeudalismo
ModernoPatrimonialismo burocrático (neopatrimonialismo)Dominação racional-legal
Apud Schwartzman, op.cit.
Como bem observou Raymundo Faoro em seu Os Donos do Poder, nem os críticos liberais, nem tampouco os marxistas deram conta de analisar o fenômeno do patrimonialismo, entendendo-o como meramente transitório (1989, p.735). Diversas especialidades de cientistas sociais, até bem pouco tempo relutaram em reconhecer este fenômeno como fator de força de uma sociedade. Se considerarmos as características do pensamento nos cursos de humanidades no Brasil que são basicamente marxistas, não é possível mesmo que seus pesquisadores entendam isto, pois para as teorias e metodologias que fazem uso constante, tudo se resume ao par dialético forças produtivas/relações de produção proposta por Karl Marx. Aqueles que foram adestrados a crer que “a história da humanidade é a história da luta de classes” ou que os agentes históricos por excelência são apenas duas classes fundamentais, a burguesia e o proletariado não conseguirão mesmo compreender a dimensão do poder de estado, que é um agente social dividido internamente em vários grupos de interesses, se tratando de uma arena por disputa de poder. O caminho para nos livrar do tipo de servidão que este Leviatã nos impõe não é uma revolução para tomarmos seu poder de assalto, mas reformas que o reduzam, substancialmente e, muito importante, o descentralize.
A importância desta observação reside no fato de que o desenvolvimento da sociedade pautada na propriedade privada não prescinde da máquina pública, pois afinal de contas, quer queira quer não é afetada por ela. O que tem que se levar em conta é que mais que a propriedade privada, a marca de uma sociedade livre da corrupção reside na existência de bases contratuais transparentes, cuja segurança jurídica não incentive contratos escusos, conluios, complôs, conspirações que são marcas indeléveis da corrupção. O ataque a legitimidade dessa sociedade baseada na confiança adquirida através de seus contratos é que traz a insegurança a nossa propriedade privada motivando muitos de nós a buscar refúgio em outras nações.
Não nos enganemos, nenhuma lei de “função social da propriedade” resolve o que o efeito do medo traz a quem dedica toda sua vida a trabalhar e gerar riqueza, conforto e bem-estar quando se tem a mais breve visão de perda total. Insegurança jurídica, inchaço da máquina pública, falta de transparência, expansão do poder burocrático, perda de autonomia dos contratos entre grupos, leis que regulamentam o que era livre, perda de incentivos em investir no país, desconfiança trazida com “direitos sociais” que são base da expropriação, demonização do empreendedorismo, aparelhamento político das funções de estado, sucateamento autoimposto pelas administrações municipais, populismo assistencialista na esfera federal, relação de dependência e submissão entre os entes federativos da união, estados e municípios, tudo isto leva aos caminhos ilícitos da corrupção. Só que antes disso tudo vem o ataque e censura à liberdade de expressão. Esta é que nos garante que todas as chagas associadas à opressão contra a liberdade se espraiem.
Hoje em dia temos com a descentralização da informação que não passa mais pelo monopólio de meios de comunicação ligados aos grupos de pressão hegemônicos, o principal ingrediente na luta contra a corrupção. Se podemos ver luzes distantes que nos apontem alternativas, tudo começou com a crítica e exposição de agentes que abusam de sua condição de homens públicos. Mesmo que libertados por um tribunal corrupto, suas vidas com os demais podem se tornar intoleráveis perante a censura individual de cada cidadão. A renovação cultural nasce da vergonha alheia, da indignação e da comunicação que adubam o solo da mudança e resistência contra a praga da corrupção.
Referências:
FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro.8a ed. São Paulo: Globo, 1989.
MELO, Clóvis Alberto Vieira de; SOUZA, Saulo Santos de; BONFIM, Washington Luís de Sousa. Federalismo e bons governos: uma análise política da gestão fiscal dos municípios. Opin. Publica,  Campinas ,  v. 21, n. 3, p. 673-692,  Dec.  2015 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762015000300673&lng=en&nrm=iso . Acessado em: 15  Feb. 2018.
SCHWARTZMAN, Simon. Bases do Autoritarismo Brasileiro. 3a ed. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
The Guardian. “Free speech becomes a talking point in Sierra Leone as WhatsApp storm ages.” Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2016/nov/24/free-speech-talking-point-sierra-leone-whatsapp-storm-rages?CMP=share_btn_tw . Acessado em: 18 Dez. 2017.
Veja. “Mais do mesmo: PT quer controle da imprensa.” Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/mais-do-mesmo-pt-quer-controle-da-imprensa/# . Acessado em: 18 Dez. 2017.
[1] Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, publicado pela Organização Mundial da Saúde e referência básica da medicina.
[i] Professor de Geografia, licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em Geografia Humana pela USP em 2008.

quinta-feira, março 15, 2018

Marielli Franco e os Oportunistas

Em primeiro lugar, ainda não se sabe quem matou a vereadora do PSOL, Marielle Franco, se foi um criminoso comum ou um miliciano ligado ou não à PM, qualquer aposta no atual momento é irresponsável; em segundo, quem mata por divergência ideológica é um criminoso, não importa qual sua convicção ou motivação. Agora, quem quer que faça uso político deste fato, sem saber de onde vieram e porque vieram os tiros não passa de um hipócrita, independente de compartilhar ideais comuns comigo, como o livre-mercado, estado mínimo etc., pois seus métodos se submetem aos fins a qualquer custo e com este tipo de gente vai chegar uma hora em que você mesmo será um obstáculo a ser ultrapassado e/ou eliminado. Tudo pela causa.
Anselmo Heidrich

terça-feira, março 13, 2018

What if Everyone Lived in Just One City?

O Problema Óbvio de nossas Periferias

Ruas desertas, população acuada dentro de casa, por conta de um toque de recolher silencioso e o medo de novos tiroteios em Barra do Ceará, o mais antigo bairro de Fortaleza, mas poderia ser em qualquer metrópole brasileira. Por quê? Fonte: cearanews7.com/

“Toda luta é válida, quando é em favor da Educação.” Sônia Guajajara.
“Sabia que preto pobre não pode ser só sambista, já que vivia cercado pelas torpes estruturas do Estigma, da Exclusão e da Marginalidade, que terminam em uma luta fratricida pelo poder e pelos privilégios. E sua luta continuou pela volta daquela Portela de outrora, quando a Alegria vencia o Consumo, e pela valorização da raça… Quilombo é seu legado de emancipação na trilha educativa, que forma a Pessoa Digna e resgata o valor cultural da Escola de Samba!” Naves Ferraz.

Diga-me o que tem de “educação” quando se resume um processo e longa tarefa individual à obra de uma raça? Só se fala em “valorização da raça”, o que é uma mistificação, pois o que se relaciona à ideia de Educação é a Cultura e não um agregado de genes a guisa de capital cultural que possa servir de esteio para educação. Sabe… De tanto falar em raça vocês esquecem o mais importante, que a educação não é um dado adquirido por uma categoria coletiva, mas um processo eminentemente individual, fruto do esforço da pessoa e não de um grupo. Coitado do grupo que é levado pelo canto da sereia de que seu apego a uma ideia de raça ou classe ou categoria coletiva que seja que possa lhe ser útil de alguma forma. Vocês estão… Sim!Vocês mesmos estão amaldiçoando sua própria raça com esta conversa inócua para o resultado e benefício das próprias pessoas. Triste.
Eu trabalhei com crianças de periferia na escola com piores índices da região metropolitana de Florianópolis, o município de Biguaçu. Vi o que tu mencionas, é real. Mas vi também que há fatores que são extraclasse, muitos, como a violência local. Certa vez propus uma atividade, que participassem de uma gincana proposta pela National Geographic e creia-me, havia muitos com capacidade. Após os testes dois foram qualificados para a fase seguinte, um garoto e uma garota de origens e etnias diversas, o rapaz negro, imigrante baiano de culto afrodescendente e a menina branca, nativa e evangélica. Histórias e percursos distintos. Mas uma barreira comum os impediu de seguir. Ingenuamente eu combinei horário e data para seguirem para a próxima fase, mas eles não foram e não me falaram por que não iam: tinham receio de sair das cercanias de onde moravam. Suas vidas fora do bairro eram tolhidas porque tinham restrições por onde andar sem acompanhamento e dependendo do horário, toque de recolher. Agora pense em como crianças assim poderão buscar oportunidades fora de seu círculo de vida limitado? Triste.
Enquanto as esquerdas e militantes sensibilizados com a parcela empobrecida de nossa sociedade continuar buscando soluções meramente paliativas em esquemas de “valorização da raça” ou outras bobagens, princípios básicos que moldaram nossa civilização como o direito de ir e vir são sabotados. E aí não vai ter cota nem abraço nem choro nem reza que resolva nada. Acordem! Os problemas são muito mais óbvios e as soluções mais simples, não há mágica nem mistério, apenas a coragem de admitir que via a realidade de modo distorcido.

Anselmo Heidrich

segunda-feira, março 05, 2018

Alunos Boicotam Prof. Conservador

Professor de Filosofia da UFPE, Rodrigo Jungmann sofreu boicote de alunos do curso de Geografia (só podia...) que simplesmente se recusaram a frequentar suas aulas na disciplina de Introdução a Filosofia porque este é declaradamente conservador. Bem... Pelo menos os alunos evoluíram em relação ao cenário de passado recente, no qual impediam os docentes de exercer seu ofício fosse por motivo de greve ou fosse por discordância político-ideológica. O boicote é, na verdade um processo legítimo e democrático de oposição, mesmo que com isto esteja abrindo mão da possibilidade de aprender e crescer intelectualmente com a tão alegada e advogada 'diversidade' (só da boca pra fora). Na verdade, os liberais e conservadores lançam mão a toda e qualquer oportunidade de também boicotar o que lhes desagrada e do que divergem. O grande X da Questão não está posto... É que é um absurdo que a sociedade que não tem nada a ver com os ímpetos revolucionários e pueris da cambada de moleques-toddynho com barbicha caprina ou as predileções teóricas do professor em questão. O absurdo é que tretas como essa sejam arcadas com nossos impostos. Que boicotem o que quiserem, que se ensine o que quiser, mas às próprias custas e não via impostos. Dê um basta nisso! Educação Sem Estado Já! Privatização do Ensino Superior Estatal e Elitista Já!

#EducaçãoSemEstado

#PrivatizeAUniversideEstatal