sábado, julho 21, 2018

Por que estamos nos tornando analfabetos geográficos?

Fonte: Thomas E. Sherer, Jr. The Complete Idiot’s Guide to Geography. Alpha Books, 1997.
O comentário acima foi extraído de um guia para estudo de geografia americano. E diferentemente do que se diz por aqui, o “analfabetismo geográfico” do americano médio não deriva de um preconceito infundado por este cidadão em relação ao resto do mundo, mas por uma proposta educacional equivocada.
A Geografia, assim como outras disciplinas análogas, História, Economia, Sociologia e Antropologia são incluídas em um conjunto genérico chamado Estudos Sociais e, consequentemente, o nível de especialização cai. Ainda mais se levarmos em conta de que a própria Geografia já é, de per se um estudo generalista (contemplando desde a climatologia aos estudos urbanos, p.ex.), a generalização suplanta qualquer tentativa de aprofundamento e especialização. E o tipo de profissional requisitado será menos expertise e mais conhecedor de assuntos gerais.
Não desprezo esta perspectiva, mas temos que reconhecer suas vantagens e limites. Para um mundo em crescente Globalização, a ignorância sobre outras regiões globais fecha um tipo de ciclo. Líderes populistas como Donald Trump que advogam uma espécie de isolacionismo e egoísmo diplomático — A América em primeiro lugar — reforçando a ignorância sobre seus vizinhos e outros problemas mundiais que estão relacionados à própria atuação de seu país. Não precisamos ir longe para percebermos que a última grande leva migratória de refugiados à Europa tem a ver com a Guerra da Síria promovida, em parte, por EUA e Rússia.
Em que pese a importância que dou ao tema discordo da obrigatoriedade do ensino de geografia. Acho que os currículos modernos em um mundo de crescente especialização e demanda por mão de obra especializada deveria ser modular. Mesmo porque o básico sobre conhecimentos gerais pode ser obtido pelas diversas mídias e canais disponíveis, dentre os quais o YouTube é um dos melhores, ou sites como Quora para pesquisas etc.
Mas este alerta deve ser estendido aos brasileiros, cujas tentativas de reformulações do ensino pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), cujas tentativas remontam ao Governo de FHC, com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que enfatizavam o estudo por eixos temáticos, como meio ambiente, sexo, ética etc. Temas transversais são úteis e conectam diferentes disciplinas, mas o risco de um mau uso é quando se diminui a riqueza e profundidade em torno de um discurso simplista e homogêneo, coisa distante da realidade e da verdade.
Muitas narrativas acadêmicas, que não passam de elaborações ideológicas mais rebuscadas acabam sendo empurradas por pedagogos em tais reformas. Dos ditos PCNs se passou para a atual Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nos governos petistas, especialmente com a direção de Renato Janine no MEC e agora permanecem no governo Temer.
Muitos grupos de oposição, sejam liberais ou conservadores têm posição claramente contrária a imposições e conteúdos como a Ideologia de Gênero inscritas na BNCC, mas não atentam para o conjunto que deteriora a visão tradicional e mais ampla. O governo sinaliza de modo ambíguo introduzindo disciplinas como filosofia, sociologia que em uma grade curricular saturada de disciplinas sobra pouco tempo para o aprofundamento das que já existiam. Então, ao invés de enriquecer as disciplinas de Geografia e História temos menos tempo para elas e mais para outras que são costumeiramente utilizadas por doutrinadores marxistas. E isto que nem cheguei a mencionar a redução das disciplinas de biológicas e exatas durante a semana.
Meu alerta vai para vocês que dizem se preocupar com a educação em geral: parem de ver só a questão da sexualidade, que tem sua importância inegável, mas vejam o conjunto pernicioso das reformas.
Anselmo Heidrich
21 ago. 2018
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quinta-feira, julho 19, 2018

Canal de Esquerda manipula debate sobre pena de morte



A malandragem deste vídeo é puxar com um gancho - pena de morte - outro assunto, o principal, de maneira sutil de que há duas justiças no país, justamente para manipular a conclusão de que o PSDB não é julgado e o PT, injustamente(!!!!), sim. E claro, com uma apresentadora charmosa e sedutora com trejeitos que nada remetem à política, mas sim a um canal de programa de variedades matinal. O que mais me incomoda não é sua defesa de uma posição adversa ou contrária a minha, mas o modo ardiloso, sofista com que conduz seu argumento.

A Dualidade Interna


Eu não descarto essa possibilidade de um futuro muito mais “amigo do meio ambiente” e um tempo de sobra proporcionado pelo avanço tecnológico (robótica etc.) que nós sequer teríamos imaginado algumas décadas atrás. O que me torna cético é a visão de panaceia que alguns nutrem com isso e isso não quer dizer que eu não seja otimista com relação à tecnologia nem seja uma espécie de “tecnófobo” ou algo do gênero.
Não sou exatamente a pessoa que acorda como se estivesse em um comercial de margarina, muito pelo contrário… De manhã pareço mais um robozinho com pouca corda que fica batendo a cabeça na parede até que eu me sirva com um chima ou xícara de café. Sim, cafeína é vida! E isto vai determinar minha maneira de ver o mundo. Acho que felicidade se produz, enquanto que a ideia corrente é que somos tragados por ela como se estivéssemos flutuando sobre as turbulentas águas do rio da vida. Não, o posto de capitão é meu mesmo.
Não há como achar que outros fatores externos ao próprio indivíduo nos trarão felicidade. Mesmo quando se trata de uma droga necessária a nossa estabilidade, ela depende da interação com NOSSO organismo e não com o ambiente em geral. Sempre me impressionou como nas condições mais adversas, as crianças encontram alegria, o que na verdade significa PRODUZEM alegria.
Daí surge a questão de se o futuro com mais desenvolvimento tecnológico produzirá um mundo mais feliz, não, óbvio que não. Assim como também não produzirá um mundo mais infeliz. Será a mesma coisa a depender, claro, da percepção hegemônica sobre a época, em uma palavra, a IDEOLOGIA.
Isto sim é fundamental… Imagine o mundo como uma imensa floresta. Aliás, não só imensa, como DENSA. Tão densa que não conseguimos visualizar seus detalhes, os animais pequenos, esguios, peçonhentos por dentre as folhas largas das árvores e arbustos mais baixos e quando levantamos a cabeças temos apenas alguns fachos de luz penetrando por dentre as copas. Tentando compreender melhor o montante de informações que temos, abrimos a mochila e colocamos um óculos… Vermelho. Piorou. Colocamos outro azul e não distinguimos claramente o céu do dossel da floresta. Pomos um verde, outro amarelo, um roxo, um rosa e nada resolve. Tais óculos são ideologias, disponíveis e que se reproduzem como a nova linha de lentes e armações a cada estação. Por conta disso, muitos reproduzem o dito de um demente de que “não há fatos só interpretações”, o que é um erro grosseiro, pois basta caminhar um pouco para dar de cara com um tronco quebrando o nariz ou tropeçar nas raízes e beijar o chão. A realidade, assim como nossa selva está lá. Use o óculos que quiser e deforme sua visão, mas ela está lá.
É assim que eu vejo o passado, ou melhor, como veem o passado. No Pós-Guerra havia a ameaça de um holocausto nuclear; nos anos 70, a superpopulação e fantasma malthusiano da escassez de recursos; nos anos 80 e 90, o intermezzo da “Nova Ordem Mundial”, o fim do Comunismo no Leste e uma indelével onda de otimismo, mas com o temor ambientalista do Aquecimento Global; na virada do milênio, o envelhecimento das sociedades, a onda imigratória (que já existia) e o Choque de Civilizações. Não precisamos mesmo de nenhum Nibiru ou asteroide gigantesco em rota de colisão para alimentar nossas paranoias, mas se você perguntar a qualquer um de nossos profetas do apocalipse como foi o SEU passado, ele provavelmente lhe cantará odes a um “tempinho bom que não volta mais”, um idílico paraíso perdido. A verdade é que quanto mais clean fica nossa tecnologia, mais punk fica nossa alma.
É assim que vejo o futuro, as esperanças e imaginação se sobrepõem à experiência de que dias ruins intercalam-se aos bons, que dias ruins são bons dependendo da própria perspectiva. Nos dados brutos, nós vivemos mais, matamos mais, mas proporcionalmente menos, temos mais segurança, mas sentimo-nos menos seguros e reclamamos quando perdemos alguém para o câncer esquecendo que em menos tempo este que já foi perdeu alguém para uma infecção qualquer que nossas vacinas extirparam de nosso convívio. O conforto é tanto que até sobra tempo para criar um estúpido movimento antivax…
Mas existem riscos reais de que uma utopia se torne a distopia. Lembro-me sempre do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Quando novas formas experimentais e criadas no laboratório da engenharia social são introduzidas sem levar em conta a vontade e associação entre as pessoas, o pior pesadelo pode sobrevir. Em um mundo onde o trabalho não seja mais um fardo porque ele deixe de existir ou seja irrelevante em tempo e custo, nossa orientação básica para viver também se extingue. Se não fui claro, sem um pouco de sofrimento, não se dará valor à vida e nem a família terá seu sentido de proteção e fidelidade valorizados. Um mundo em busca de êxtase perpétuo é um mundo sem troca e sem respeito. É o fim do que sobra de Humano.
Se o futuro e o passado têm seu aspecto positivo, mas também seus demônios encontramos a mesma dualidade no presente. O risco está em negar isto, ao buscarmos o super-herói como figura capaz de nos levar ao paraíso e prazer constante sem dilemas, dúvidas e dissensos. A necessidade de se conseguir alguém que seja nosso guardião é tanta que não suportamos alguém que fale o contrário. Nessa hora, o futuro facilitado pela mão de obra robótica forma um círculo que encontra o passado das tribos.
Anselmo Heidrich
19–07–2018
Para um ponto de vista plenamente otimista confira o link abaixo:

quarta-feira, julho 18, 2018

A França é Multicultural


No filme de ficção, O Quinto Elemento, que para mim foi uma grande decepção começa com uma excelente piada: um arqueólogo francês busca uma pedra com poderes fantásticos que remontam a criação do universo quando atrás dele pousa uma nave gigantesca e sai dela um alien que mais parece um besouro gigante lhe falando em idioma incompreensível. Nisto, o francês baixinho com suas bermudas e chapéu cáqui fita o monstro e pergunta “você é alemão?” VALEU O FILME!
Pois é, para entendermos o sentimento nacionalista tem que se compreender este conceito um tanto em desuso, o ETNOCENTRISMO. Em desuso porque fica cada vez mais difícil no mundo globalizado falarmos em etnias quando se trata de choque de culturas nos países ricos, multiculturais que são. Mas eis que ele ressurge aqui e ali porque por mais que nos definamos e situemos em termos societários, “eu, fulano de tal, RG…, CPF…, morador da rua…., nacionalidade….” algo nos puxa vez ou outro para um lugar primal, algo de onde imaginamos ter saído, nossa tribo ou clã. Aí pode se dizer que a França mesmo não é essa dos jogadores que ganharam a Copa da Rússia, dos imigrantes africanos, árabes etc. Que a França tem sua história secular, suas conquistas, sua revolução etc. e tal. Caros, isto já foi, já morreu e reside ainda nos campos graças às tarifas impostas pela União Europeia que ainda dão sentido de sobrevivência àqueles camponeses teimosos que já deveriam ter migrado para as cidades. Morreu.
Façamos um exercício futurológico: suponhamos que Marie Le Pen, a ultra-nacionalista francesa que quase ganhou a eleição que disputou com Macron tivesse vencido e todas as fronteiras francesas fossem fechadas e mais nenhum imigrante entrasse no país, certo? Em algumas décadas, a França será cada vez menos gaulesa e cada vez mais afro-árabe, cada vez menos branca e cada vez mais morena por uma razão bastante simples: a taxa de fecundidade feminina dos antigos franceses é declinante e a dos árabes e africanos é alta, das mais altas do mundo. Enquanto que as primeiras mantém na melhor das hipóteses dois filhos por mulher, o que não repõe a população perdida (morrem dois primeiro que são o casal e ficam dois que são os filhos), os imigrantes e seus descendentes têm quatro, seis filhos. O mesmo raciocínio senhores vale para a Alemanha ou Hungria, países que ocasionalmente têm taxas negativas de crescimento, ou seja, perdem população.
Então meus caros, O MULTICULTURALISMO VEIO PARA FICAR. Acostumem-se, os minaretes das mesquitas despontarão cada vez mais no horizonte juntamente às torres das igrejas e contentem-se se estas não forem derrubadas. Mas há algo que se possa fazer? Sim, há algo…
Se tu for um podre racista, que se foda, teu tempo já era, te suicide diabo! Agora, se tu pensa no legado da cultura europeia antiga, então, que se aplique normas de integração, como alguns países têm feito (ex.: Dinamarca) e negue outras, lenientes e inconsequentes (ex.: Suécia), mas isto é outro capítulo, outra nota, outro pequeno artigo…
Agora comemorem e torçam para que a coordenação da seleção francesa seja a mesma inspiração para aplicação da lei e da ordem nos subúrbios franceses. Quem sabe o futuro distópico que os puristas tanto temem seja um mero delírio de pouca fé e esperança.
Anselmo Heidrich
18–07–2018

Fernando Holiday VS. Ciro Gomes


Que a ameaça de Ciro, caso eleito é um absurdo, um acinte ao estado de direito não resta dúvida, mas o caso em si é uma falácia. Por acaso a direita também se rendeu ao politicamente correto? O que há de racismo em chamar alguém de “capitão do mato”? Há sim um argumento tosco aí, típico de quem não tem argumento. Isso deveria ser explorado para atacar Ciro Gomes e não ficar tolhendo sua liberdade de expressão que convenhamos, o candidato tem todo o direito de bancar o idiota. Caso não tenham percebido, este processo contra Ciro Gomes é análogo ao feito contra Bolsonaro por este ter se referido aos negros em arrobas. Ora, todos nós pesamos e podemos ser mensurados em quilos, arrobas etc. Não há racismo aí também. O que temos hoje em dia é uma verdadeira síndrome de mimimi, até parece que vivemos em um novo período geológico, o Mimioceno… Se criticamos um negro, tudo vira racismo; se criticamos uma mulher, tudo vira machismo; se criticamos um gay, tudo vira homofobia e assim por diante. Disto tudo só posso concluir que o autor da ação, “Fernando Holiday” é ignorante ou um oportunista porque sabe muito bem o que está fazendo e tenta capitalizar politicamente em cima da estupidez de Ciro? Fica a dúvida, a insegurança e a certeza de que candidatos que falam demais e que temem demais não merecem meu voto.
Cf. Ciro Gomes ataca promotora que abriu inquérito por injúria racial contra ele https://www.boletimdaliberdade.com.br/2018/07/18/ciro-gomes-ataca-promotora-que-abriu-inquerito-por-injuria-racial-contra-ele/
Anselmo Heidrich
18–07–2018

terça-feira, julho 17, 2018

Stossel: Plastic Straw Myths

Bem, o número não é tão grande (500 milhões de canudos de plástico por dia e sim, 175 milhões) e o custo para produzi-los é oito vezes maior, o que terá um custo ambiental maior, seja feito de bambu ou papel. Os críticos do vídeo abaixo estão certos em apontar a falibilidade desta solução, mas não quando dizem que os canudinhos são uma pequena parte do lixo plástico produzido pelos EUA que por sua vez, são apenas 1% do total produzido no mundo. Que seja! Isto não merece nenhum tipo de tratamento ou solução? Óbvio que esta 'solução' não pode ser algo pior, com um maior impacto ambiental, como o desmatamento provocado ou emissões produzidas para a produção de canudos de papel ou bambu, mas algo tem que ser criado.



Eu gostaria muito que os liberais fossem tão bons em apontar soluções técnicas e racionais para EXTERNALIDADES NEGATIVAS quanto o são para apontar a falha em argumentos emotivos. Não dá para cobrir um santo descobrindo outro e dormir tranquilo com isso.

Hernando de Soto e a Propriedade


5/6 da humanidade compreendidos pelos países ex-comunistas e países subdesenvolvidos não alcançaram o sucesso dos países capitalistas na geração de capital, mas:
“Por que no mundo em desenvolvimento as pessoas respeitam contratos e honram compromissos relacionados com a propriedade, acordados por elas e seus vizinhos, e ao mesmo tempo não respeitam aqueles que tentam lhes impor seus governos? Por que as pessoas aceitam assumir responsabilidades individuais dentro desses contratos sociais extralegais ao mesmo tempo em que se afastam – ou resistem a aceitar – as leis que seus governos desejam impor?” (p.13).
Hernando de Soto nos ajuda a compreender porque as leis que apoiam o capital não são tão diferentes da moeda. A chave do sucesso se estabelece, fundamentalmente, numa relação de confiança. Em suas palavras:
“Não é sua própria mente que lhe confere direitos exclusivos sobre um determinado ativo, mas outras mentes pensando em seus ativos no mesmo sentido em que você o faz. Por isso, a propriedade em qualquer de suas formas é um conceito construído a partir do consenso de muitas mentes pensando em seus ativos no mesmo sentido em que você o faz. Por isso, a propriedade em qualquer de suas formas é um conceito construído a partir do consenso de muitas mentes sobre como e por quem as coisas são possuídas; por isso a propriedade é uma trama de relações que propicia a criação de capital” (p. 14).

SOTO, Hernando de. O Mistério do Capital. Rio de Janeiro: Record, 2001.

quarta-feira, julho 04, 2018

Apelos Ambientalistas


VC RECEBE UM APELO + OU — mais ou menos assim “meu nome é Fulano de Tal dos Santos. Sou da comunidade camponesa da Puta Que Pariu, estado da Pôrra do Caralho. Lutamos para salvar o Cerrado…” Êi! Mas vc por acaso sabe qual é a origem do Cerrado e como ele pode ser ANTI-NATURAL?!
Alguém tem ideia de que o Bioma do Cerrado pode ter sido resultado de manejo ambiental feito pelos próprios indígenas e, portanto, nada natural do ponto de vista biogeográfico, mas sim obra de manejo ambiental, ainda que tecnologicamente primitivo? Pois é, esta é uma das teorias sobre a origem e formação do Cerrado. Assim, não sendo natural por que deveríamos achar que ele deve ser protegido na sua forma atual? Claro que não estou aqui advogando sua completa extinção ou alteração irreversível, mas sim lançando um justo questionamento, por que deveríamos nos posicionar in limine contra qualquer alteração do ambiente natural quando se sabe que muito deste é, exatamente, fruto desta alteração de séculos ou milênios? Em geral, as pessoas não procuram se questionar sobre o que isto significa, nem sobre o que é ou não ‘natural’.
Dias atrás recebi uma saraivada de mensagens no grupo de WhatsApp da rua. Criado com o intuito de resolver problemas locais ou como instrumento de segurança, sua maior atividade é, como não poderia deixar de ser, falar da vida alheia. E o morador do fim da rua, que se notabilizava por plantar árvores e arbustos até no meio do passeio para impedir tráfico, presença de estranhos e consumo de drogas em área de preservação ambiental reclamou que um novo vizinho as cortara. O relato dele não foi perfeito, pois sou como “o novo devastador que está se mudando para cá está destruindo tudo que plantei ao longo de dez anos”, mas conheço o sujeito e sei que ele cultivou isto tudo muito além de sua propriedade e o fez, inclusive, em via pública prejudicando a passagem.
Agora, já faz quase uma semana que caminhões vão até o fim e voltam carregados de terra. Daí começou o pavor “vão construir uma pousada, acabou nosso sossego, é proibido, precisa de licença etc.” Ao nos inteirarmos, soubemos era um casal de estrangeiros, supostamente franceses, mas na verdade holandeses e daí tudo pareceu fazer sentido, holandeses são um dos povos que mais mexem e alteram seu habitat. Totalmente sintomático que o sujeito venha e em sua propriedade a altere, adaptando a suas condições de vida. Como vivemos em um município onde 45% são área de preservação, em que não se permitem construções, na área restante ainda há quem ache um pecado que se adapte a terra a suas condições de permanência. Como aqui há muitos insetos, principalmente formigas, os holandeses reviraram-na para tocar inseticida. E daí, mais drama “e nosso lençol freático? ainda bem que não tenho poço?” Mal sabem que os produtos que utilizam uma ou duas vezes por mês em seus jardins afrescalhados para evitar ervas-daninhas também podem ser descritos como ‘agrotóxicos’ e que há medidas para sua utilização. Enfim, a obra está a toque de caixa e estou muito curioso para ver como ficará.
De onde vem isso? Essa mentalidade de que tudo que é natural é necessariamente melhor? Ou melhor, o que vem a ser esse natural? A primeira conferência mundial sobre meio ambiente — a Eco ’72 — se realizou em Estocolmo e o foco era claro, a superpopulação, seja lá o que isso signifique… Não, não dá para dizer simplesmente que é uma grande população que não consegue ser devidamente suprida pelos seus recursos naturais, pois se isto vale para Bangladesh, não é o mesmo com o Japão, só para citar dois casos conhecidos. Mas creio que isto é ainda anterior, pois quando se institui uma conferência mundial é porque já houve uma evolução da comunicação e da cultura para se chegar a um consenso, seja ele cientificamente errado ou não. Veja que isto quase aconteceu com a ideia de Aquecimento Global Antropogênico, mas já está sedimentada no imaginário popular dos países mais urbanizados que a humanidade é destruidora. E agora há pouco acabei de mencionar uma palavrinha que diz muito sobre isso, urbanizado.
Em O Homem e o Mundo Natural, Keith Thomas mostra como, justamente, em uma época de primórdios da urbanização na Inglaterra Vitoriana, os poetas e contistas traçavam perfis de sociedades lúdicas e ainda não corrompidas, algo que já era senso comum sobre o mal que adquirimos ao viver e conviver com nossos semelhantes. Esta visão era um tanto arrojada, pois contradizia a determinação natural e a racialização na explicação do desenvolvimento dos povos. Então, o que temos é um preconceito alardeado que surgiu para combater outro. É como se à determinação e visão de destino irredutível surgisse outra pautada no voluntarismo dos indivíduos e comunidades, mas ao invés deste produzir um otimismo em anos mais recentes serviu para asseverar nossos erros como se a superação deles não fosse prova de nosso sucesso enquanto espécie e sim uma linha regular de desgraças.
Bem… Talvez ter que ler vários comentários de ignorantes em redes sociais seja mesmo um castigo dos deuses.
Anselmo Heidrich
01/07/2018

quarta-feira, junho 27, 2018

Chutes e Lágrimas

Por que o choro do zagueiro iraniano Morteza foi visto como símbolo de desabafo após um esforço descomunal no jogo contra Portugal (25/jun), enquanto que o craque brasileiro Neymar fez a mesmíssima coisa no jogo contra a Costa Rica (22/jun) não tendo a mesma aceitação (fontes das imagens: sabedenada.com; blogs.oglobo).

Em um jogo decisivo para as oitavas de final da Copa da Rússia, Portugal e Irã se enfrentaram dois dias atrás. Ao final da partida, com placar empatado em 1 a 1, o zagueiro Morteza Pouraliganji,[1]da seleção iraniana desabou em um choro compulsivo, no que foi consolado pelo também zagueiro Pepe, brasileiro naturalizado português. Pouco se sabe da vida pessoal de Morteza, além de que nasceu na cidade de Babol há 26 anos atrás e, apesar de solteiro mantém foto de um bebê em seu Instagrama quem chama de filho. Como não se solidarizar? Mas o futebol, assim como a vida não é feito de “justiça” e, sim de trabalho, determinação, talento e, claro, pelo acaso que, no caso costuma se chamar de sorte. O certo é que há mais elementos em campo que possam determinar um resultado do que toda retórica disponível no melhor livro de autoajuda._
Três dias atrás outro jogador, bem mais famoso também caiu no choro, mas não por nenhuma derrota e sim pela vitória suada. Neymar da Silva Santos Jr.,[2] natural de Mogi das Cruzes, SP, com vida social devastada pela mídia e redes sociais foi alvo de críticas severas, inclusive de cunho pessoal, com direito até as análises de especialistas sobre a veracidade de seu choro. Alguém tem uma explicação de qual a diferença entre um caso e outro? Qual a legitimidade das lágrimas do iraniano e não do brasileiro?
Isto me lembra aquelas manchetes quando algum rico bêbado atropela e mata um inocente:

PORCHE ATROPELA E MATA TRÊS TURISTAS EM CIDADE DO LITORAL:

Testemunhas disseram que carro subiu a calçada em alta velocidade na noite de Ano Novo

Há um problema com a autoria aí, não foi o bêbado, mas o carro e um carro caríssimo. Isto serve como aditivo à raiva e o sentimento de justiça agrega componentes de ressentimento e inveja. Afinal, qual a importância da marca do carro? Imagine uma manchete assim, então:

UNO MILLE ATROPELA E MATA TRÊS TURISTAS EM CIDADE …

Alguém liga se é um carro 1.0?
Então, a analogia… Por que as lágrimas de um jogador despertaram simpatia e as de outro exatamente o contrário?
No fundo, não toleramos que alguém tratado como semideus possa se comportar como uma criança mimada. Ele tem que ser um herói… É como se a nação buscasse ansiosamente por isso, um líder. E anote aí: esta merda irá se refletir nas eleições.
Não ligo para suas frivolidades, não me importo se foi um garoto pobre que hoje nada no dinheiro, assim como não ligo se ele simboliza meu país, pois tenho certeza que não simboliza. Nem mesmo heróis simbolizam nosso país. Mas heróis existem? Sim, mas quem são esses heróis? Se nos importarmos realmente com eles, sombras atravessam nossos corações toda vez que um se vai. Seja ele um bombeiro em serviço, um professor que ao final do dia sente um vazio, um comerciante que não consegue equilibrar suas contas ou uma bailarina que torceu seu pé. Então, por que apenas um deles deveria me chamar mais atenção?
Agora, a questão que talvez seja mais importante é por que precisamos de heróis? Para restabelecer valores, talvez… Entendo a necessidade de valores que vão além do egoísmo, mas se personificamos estes valores em alguém, a tendência natural é defender a celebridade que os encarna mesmo que cometa erros. Pois não estamos mais no campo da racionalidade – todos nós erramos –, mas sim submissos a um domínio carismático. Essa alta demanda por salvadores, heróis e mitos pode levar o país a algo mais no futuro e não necessariamente algo bom. Estou indo longe demais? Então pense: a carga emocional em torno do detento de Curitiba não morreu, apenas se deslocou para outro, noutro papel, mas se os opositores deste símbolo adotarem a mesma estratégia? Então não teremos uma luta entre Razão Vs. Emoção e sim Fanatismo (de coloração X) Vs. Fanatismo (de coloração Y). Em suma, um armagedão nacional. Se um povo abandona os princípios econômicos e de interesse próprio para substituí-los por slogans símbolos estamos mais próximos de sermos massa de manobra do que jamais estivemos.
Cuidado. Se empolgar com estas cenas pode nos fazer esquecer os chutes que fazem parte do jogo. E depois de levar uma bica, no jogo da vida real não vai ter árbitro de vídeo nenhum para nos compensar. Bem, veremos se hoje o garoto controlará sua raiva ou se deixará levar por ela desabafando ao final da partida. Partida… Pois até a chegada muitas águas rolarão e só espero que não sejam de lágrimas.
Anselmo Heidrich
2018-06-26

[1] Seu ganho anual estimado é de US$ 150.000. Morteza Pouraliganji Bio-salary, net worth, child, relationship, career, bio, affair, girlfriend https://playerswiki.com/morteza-pouraliganji.
[2] Seu ganho anual estimado é de US$ 34.964.816,68. Salário anual de Neymar no PSG será quarto maior da história  |Esportes O POVO https://www.opovo.com.br/esportes/futebol/2017/07/salario-anual-de-neymar-no-psg-e-quarto-maior-da-historia.html.

sexta-feira, junho 22, 2018

A Moralidade deve ser um critério de convivência

Acusar a censura aos atos de assédio e punição com demissões como sendo características da “Idade Média”, “corporações de ofício” etc., toda sorte de equiparações descabidas apenas eximem a imoralidade de sanções. Não faz sentido, sobretudo porque uma ordem moral baseada em castas, estamentos ou profissões formando um círculo fechado se define pela origem dos trabalhadores e não no comportamento comum e necessário à convivência que não é dado pela origem. Leiam este excerto:
diniz diz merda-2018.06.22-23-52-10n
Discordaaannndoooo…. Em primeiro lugar, esse papo de Idade Média. Na I.M., um senhor feudal podia desposar a esposa de um de seus vassalos, na data das núpcias. Ele tinha o privilégio. No referido caso, da moça em meio aos brasileiros que a enganaram ou das russas sendo assediadas pelo funcionário, a propriedade primeva delas que é seu corpo não pode ser objeto de uso, sem seu consentimento. Já aí acho descabida tal comparação. Se tu estiver pensando em uma espécie de censura, sinto te dizer, esta sempre existiu, porém às vezes era tão consensual que não havia todo esse questionamento que estamos tendo, cuja maior transparência caracteriza nossa época. Se não gosta do comportamento de alguém, do procedimento de uma empresa, as coisas ficaram só mais explícitas, enquanto que em passado recente (décadas) nem se discutia, se obedecia. E o problema que enxergo não é sobre qual padrão de comportamento deve ser acatado, mas sobre a liberdade de se aceitar ou não a convivência com determinado comportamento. Refiro-me ao dono da empresa ou quem for designado para decidir sobre isto. A empresa, até onde sei não sofreu pressão externa, ainda mais judicial (isso sim é que caracterizaria algum tipo de “ditadura do comportamento”, “politicamente correta”), mas foi sua opção. Recentemente, um padeiro americano ganhou, na Suprema Corte(!) uma causa que o desobrigava a fazer bolos para casamentos gay porque a Constituição Americana preserva, na sua 1ª Emenda a Liberdade de Expressão. Veja, o casamento gay não é atacado, mas a liberdade de não aceitá-lo, não sendo obrigado a trabalhar para ele também é garantida. Este é o ponto. Tu, obviamente, não pode (e também não deve) expulsar teus alunos por terem algum comportamento inadequado, mas em um país realmente livre, um empresário do setor deveria ter o direito de fazê-lo, caso quisesse. Claro que quem pagou pelo serviço teria direito à indenização pela interrupção, mas não se pode impedir a interrupção em nome de uma idealização de sociedade anti-medieval. A questão aqui não é, pois, o que a(s) menina(s) sentiu(ram) em relação ao assédio, mas sim o que o empregador sentiu e quis. O direito dele empregar quem ele quiser DEVE ser preservado e dane-se se é pelo comportamento impróprio, se for pelo gosto musical recém descoberto ou o diabo do perfume. Não importa. Analogamente, SE tu tivesse uma faculdade particular poderia expulsar um aluno por algo que atentasse contra o que tu enxerga adequado para tua empresa que, obviamente, não seria a nota na prova, pois esta faz parte do processo de ensino sendo boa ou ruim. Quanto ao piloto do avião que mostrou o dedo médio para a Polícia Federal – PF vamos supor que tu esteja certo, que havia uma legislação para puni-lo em função disto (estamos supondo, não sabemos ao certo), o que torna a questão mais clara em que uma empresa pode punir um cidadão por mau comportamento, mas desnecessário. Se não há lei especificando o que NÃO SE PODE FAZER, no caso, como não pode demitir, todo o resto deveria ser possível. No entanto, eu aposto que não havia nada específico e a empresa realocou o sujeito para que não ficasse exposto trazendo mais prejuízo financeiro para ela. Ah! Mas e a Civilização… Pois é, ledo engano achar que esta se estabelece sem a censura espontânea entre as pessoas. Na Inglaterra Vitoriana, nobres imitavam o comportamento da realeza e eram imitados por seus subordinados e assim por diante num efeito cascata. Isto, ao ar livre, em parques, nos passeios de rotina. Este co-adestramento é um dos tantos exemplos de como se formou uma ética de convivência nos espaços públicos. Isto é civilização. Por outro lado, de certa feita pude presenciar alunos de uma escola de elite em Florianópolis apresentando um número de dança, ao som de violino e música renascentista durante o intervalo de almoço junto à praça de alimentação de um famoso shopping. Quando parecia que ia melhorar, as crianças começaram a dançar “na boquinha da garrafa” simulando penetração vaginal no gargalo da garrafa com suas ancas abaixando e subindo. A música de décadas atrás já não toca mais, mas a retardada da sociopata da professora continua lá, ensinando isto. Crianças sim, de cerca de 8-10 anos. Pode? Pior, elas form aplaudidas… Pior, elas foram aplaudidas por seus pais. Então, em meu país ideal, eu teria liberdade de pôr esta professora no olho da rua no dia seguinte, sem precisar que exista uma lei ou interferência jurídica para puni-la. Este é o ponto.
Anselmo Heidrich