quinta-feira, maio 21, 2020

A Luta contra a Pandemia na Ucrânia


A epidemia de um novo vírus na China no final do ano passado (2019) e que logo se disseminou pelo mundo se tornando uma afetou duramente a economia da Ucrânia, além de causar um grande número de mortos. Como se trata de um vírus — o coronavírus SARS– CoV– — com alto poder de contágio, os sistemas de saúde de vários países ficaram sob ameaça de saturação. Isto fez com que diversos governos decretassem regimes de quarentena, ou até mesmo delockdown, mas, mesmo assim, cidades foram duramente afetadas, assim como regiões inteiras, seja na China, Itália, EUA, Brasil, dentre outros casos.
Evolução e reação à crise
primeiro caso registrado na Ucrânia data de 3 de março, em Chernivtsi. A vítima de infecção teria voltado com a esposa da Itália, país onde houve um grande número de contágios, especialmente na região da Lombardia. Nove dias depois, que coaduna com o ciclo de manifestação dos sintomas, normalmente de 1 a 14 dias,ocorre o relato de mais dois casos em 12 de março, um dia após a quarentena ter sido decretada, e um dia antes do primeiro óbito. Quase três meses depois, o número de casos tem aumentado exponencialmente e as mortes já chegam a mais de 300.
A Ucrânia fechou suas fronteiras no dia 13 de março, também interrompeu o transporte público e em Kiev foi restrito a categorias consideradas essenciais, profissionais do setor de saúde, financeiro e supermercados. Atividades recreativas foram proibidas, assim como aglomerações com mais de dez pessoas, incluindo cultos religiosos. Estradas e metrôs também foram mantidas com funcionamento restrito e escolas foram fechadas e até mesmo a entrada em cidades.
O epicentro da doença é o oblast de Chernivetska, o que levou o Gabinete de Ministros da Ucrânia a introduzir o regime de quarentena, inicialmente por apenas três semanas. Até o dia 21 de março, o país elevou seus esforços designando 17.000 policiais no combate à pandemia e cerca de uma semana depois ainda se acreditava na hipótese de impedir a entrada do vírus em território nacional. Mesmo que isto fosse verdadeiro, não seria possível em um país conflagrado pela guerra na sua fronteira leste, em que tropas insurgentes apoiadas pela Rússia têm livre trânsito entre um e outro país. A Ucrânia adotou medidas de contenção fitossanitárias de seu lado, mas a situação é desconhecida onde grupos insurgentes em Donetsk e Lugansk controlam passagens para o lado russo.
Passados vinte dias após o primeiro relato de infecção trazida do exterior e o país já tinha sua primeira infecção doméstica, apesar de todas medidas de segurança adotadas. Por consequência, o Ministro da Saúde, Ilya Yemets, solicitou ao Verkhovna Rada que introduzisse o Estado de Emergência.
A discussão sobre o que viria a ser este estado de emergência se estendeu levando em conta as garantias constitucionais dos cidadãos. A adoção de regras para cumprimento de medidas de segurança durante a crise pandêmica é emergencial, mas tem que se basear na lei que fornece poderes adicionais às autoridades com certas restrições aos direitos constitucionais.
A partir do dia 23 de março, a Verkhovna Rada alterou a legislação específica para a vida dos cidadãos, das empresas e do Estado nas condições atuais, com:
· Introdução de restrições à exportação de suprimentos médicos;
· Adoção de benefícios fiscais;
· Moratória para verificações documentais e factuais;
· Estabelecimento do direito de funcionários ao trabalho remoto;
· Responsabilidade administrativa estabelecida pela violação das regras de quarentena com multa;
· Aumento da responsabilidade criminal por violação das regras e normas sanitárias de prevenção de doenças infecciosas e envenenamento em massa, com multa ou prisão. Se tais ações tiverem consequências mais graves ou mortes, a pena será de prisão por um período de 5 a 8 anos.
Nesta situação, três regiões ucranianas já foram declaradas em estado de emergência, Donetsk, Ternopil e Cherkasy, informou o primeiro-ministro Denis Shmygal. Recursos adicionais foram utilizados, como helicópteros sanitários para transporte de pacientes infectados. A capital, Kiev, adotou a limpeza do transporte público, mas também das próprias ruas, pontes e estradas. E, apesar de problemas iniciais com o fornecimento de testes para detecção do vírus por uma empresa ucraniana, um carregamento proveniente da China trouxe um grande lote dos testes, dispositivos de ventilação pulmonar artificial, máscaras médicas e outros recursos. Também, na esteira dessa cooperação internacional, o Canadá ofereceu ajuda ao governo ucraniano fornecendo equipamentos e suprimentos médicos, este foi o foco da conversa entre o primeiro-ministro Justin Trudeau e o presidente Volodymyr Zelensky, bem como ajuda à remoção dos cidadãos ucranianos que desejassem retornar ao seu país.


A contrainformação
Como a Ucrânia tem sido palco de disputas políticas internas e pressões externas, mais intensamente desde 2014, a pandemia foi aproveitada para ampliar a crise. Vídeos e informações falsas, as chamadas foram propagadas com intuito de gerar pânico na população, como já aconteceu em uma pequena cidade, Novi Sanzhary, com manifestantes tentando bloquear o transporte de ucranianos evacuados da China.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, mais de 70.000 ucranianos foram trazidos do exterior dentro das medidas de combate a CoVid-19. Já os cidadãos evacuados da China ficaram em uma quarentena no centro médico na região de Poltava. No final de fevereiro, o Vice-Ministro de Assuntos Internos, Anton Gerashchenkon,afirmou que a situação já havia se normalizado na cidade: “Agora a situação em Novi Sanzhary é calma. A ordem pública é mantida por 320 membros da Guarda Nacional, 70 oficiais da Polícia Nacional e 16 trabalhadores do Serviço de Emergência do Estado. A situação está completamente sob controle (…). Não vamos deixar alguém ameaçar a segurança no centro de saúde Novi Sanzhary”.
Embora uma pesquisa realizada no final do mês de fevereiro mostrasse que 74% dos entrevistados fossem contra os protestos dos repatriados, apenas 11% estavam indecisos e ainda havia 15% que apoiavam este tipo de atitude.
As táticas de contrainformação, segundo fontes ucranianas anti-russas, atribuíam o vírus como sendo uma arma biológica criada pelos Estados Unidos, para desestabilização de instituições democráticas de outros países. O que é certo são os efeitos disso acirrando divisões e conflitos já existentes no país.
Disputas políticas e corrupção
Além da tensão gerada pela a pandemia em vários países, as disputas políticas internas crescem em meio às incertezas de como proceder. O partido do ex-presidente Petro Poroshenko, Solidariedade Europeia, se opôs à adoção do Estado de Emergência: “‘A Solidariedade Europeia se opõe fortemente, porque vemos isso como um tremendo risco para o país e a democracia. Acreditamos que, hoje, Zelensky e o governo tenham todos os poderes para tomar as decisões necessárias: através de um mecanismo para a adoção de leis separadas e do NSDC[5]”- disse, em 23 de março, a deputada popular Irina Gerashchenko.
Suspeitas de corrupção envolvendo os testes necessários para detecção do vírus também afetaram a credibilidade do enfrentamento da crise pelo governo. Antes dos aviões com novos testes chegarem da China, se buscou utilizar os de fabricação nacional para, mais tarde, descobrir que se tratava de produtos de uma empresa sem qualquer experiência ou tradição no mercado.


Os efeitos na economia também são bastante disruptivos. Os preços dos medicamentos e utensílios médicos sofreram forte especulação, o que levou o presidente Zelensky a ameaçar com sanções quem resolvesse tirar proveito da situação.
Conclusões
Com mais de 13.600 casos confirmados até o momento, 340 mortes e com o agravante de o país ainda manter uma guerra no Donbass, o que só sobrecarrega mais ainda o sistema de saúde regional, a Ucrânia expõe suas fragilidades, seja pela contrainformação gerando pânico e revoltas, pelo oportunismo político da oposição, pelas suspeitas de corrupção, ou pela especulação nos preços de materiais básicos. Isso mostra que a batalha deste governo não tem sido apenas contra a pandemia.
Em recente nota, o Fundo Monetário InternacionalFMI) afirmou ter disponibilizado recursos para recuperação econômica da crise que sucederá à pandemia. São 50 bilhões de dólares para os países emergentes e 10 bilhões a juros zero para os países mais pobres (respectivamente, aproximadamente 286,23 bilhões de reais e 57,35 bilhões de reais conforme a cotação de 8 de maio de 2020). É o caso da Ucrânia no contexto europeu, a qual, aliás, já recorreu ao FMI para evitar uma recessão.
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Notas:

[1] Pandemia difere da epidemia em escala. Enquanto esta se trata de surtos de uma doença que se manifesta em diferentes regiões, a pandemia se instaura quando uma epidemia se estende a vários países e regiões. Embora já tenha existido outros casos, como a chamada “gripe espanhola” no início do século XX, a Organização Mundial da Saúde (OMS), fundada em 1948, considerou como pandemias, a gripe A (“gripe suína”), em 2009, e agora, a partir de março de 2020, a CoVid-19 (“causada pelo coronavírus”).
[2] Identificado o novo coronavírus como SARSCoV2, a doença por ele gerada passou a ser chamada, oficialmente, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de CoVid-19, que significa Corona Virus disease (doença do Coronavírus), enquanto que “19” se refere ao ano em que foi descoberto, 2019, a partir dos primeiros relatos em Wuhan, na China.
[3] Quarentena é uma das medidas não farmacológicas de combate ao vírus, uma vez que não há procedimentos farmacológicos – medicamentos e ou vacinas baseadas em evidências com literatura científica robusta até o presente momento – para conter a CoVid-19 e sua transmissibilidade. Também chamada de distanciamento social, a quarentena tem como objetivo garantir que os sistemas de saúde tenham capacidade de absorver as demandas, com atendimento adequado em local apropriado. Portanto, para evitar sua rápida saturação é que se busca impedir a circulação de pessoas, o que aumenta os casos de contágio. O lockdown, por sua vez,é bem mais restritivo ao impor, por meio de decisão judicial, o bloqueio temporário de todas as atividades consideradas não essenciais para a manutenção da vida e da saúde, evitando, assim, a maior transmissão do vírus.
[4] Verkhovna Rada diz respeito ao Conselho Supremo da Ucrânia, sede do Poder Legislativo unicameral e o único do país.
[5] Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia,ou NSDC,é um órgão consultivo de Estado para o Presidente da Ucrânia. Trata-se de uma agência responsável pelo desenvolvimento de políticas de segurança nacional em questões internas e externas.
[6] Até o dia 5 de março de 2020.

Fontes das Imagens:
Imagem 1 “No Aeroporto Internacional de Kharkov, guardas de fronteira fornecem autorização para 94 pessoas que chegavam da Chinaem 20 de fevereiro de 2020”( Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ukraine_evacuates_Ukrainian_and_foreign_citizens_from_Wuhan_16.jpg
Imagem 2 “A situação atual da crise pandêmica na Ucrânia — Mapa do surto de CoVid19 na Ucrânia– By ZomBear — Міністерство охорони здоров’ я УкраїниCC BY– SA 40” ( Fonte):
Imagem 3 “Evolução do número de casosque aumentam, em relação aos novos testes aplicados — Testes e casos positivos na Ucrânia até o dia 5 de abril” ( Fonte):



Originally published at https://ceiri.news on May 13, 2020.

sexta-feira, maio 08, 2020

A Direita no poder - Qual a postura conservadora?

Pessoal, live hoje às 20 horas com esses 3
comentando os desvios da direita brasileira e qual a postura conservado em relação a isso
Tudo isso apenas no Portal 387

Esse será o link para assistir: https://youtube.com/watch?v=L8R0U4NV5Yw https://pic.twitter.com/CDHtFVbDIS

terça-feira, maio 05, 2020

Eu não me calo

Tenho uma dúvida, Maurício. Tu diz que se Haddad fosse eleito seria muito difícil porque teria que governar com a oposição dos apoiadores de Bolsonaro. Olha... Desconfio que não, basicamente, porque o bolsonarismo cresceu APÓS a eleição e não antes. Muita gente votou no Jair por repulsa ao PT, mas muitos também, mal o conheciam, como aliás, mal conhecem vários políticos. Participei de manifestações pró-impeachment e muitas pessoas eram contra sua eleição e outras nem sabiam de quem se tratava. Os seus apoiadores existiam sim, mas eram minoria, a mesma que levantava cartazes pela intervenção militar e que hoje, é a maioria. Quanto ao Moro, não vou me alongar, mas ele não vai dividir o bolsolavismo, ele já dividiu o espectro da chamada 'direita', mas os bolsolavistas são uma coisa só, decrépita.



sábado, maio 02, 2020


Tenho uma inveja desses guerrilheiros de sofá, acho que têm bem mais bebida que eu quando dizem que vai ter uma guerra civil por conta do depoimento do Moro.

sexta-feira, maio 01, 2020

Atacar a OMS é desvio de foco

Uma atitude sintomática é a fuga da responsabilidade/causalidade da crise gerada pelo CoVid-19 em vários países pelas suas autoridades diretas. Isto fica claro quando se atribui à Organização Mundial da Saúde (OMS) em vários comentários colhidos em redes sociais:
Aos poucos a OMS vai assumindo a palhaçada que fez ao forçar os países a pararem. Não impediu o espalhamento do vírus, vide Brasil, EUA, Itália, Espanha, UK, França (a doença seguiu seu curso natural)… e, de brinde, ainda quebrou a economia do mundo.
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“A Suécia se recusou, no período entre março e abril, a implementar leis específicas para quarentena e isolamento social. Ao invés da regulamentação pesada de outros países da Escandinávia (região do norte europeu que agrupa Dinamarca, Noruega e Suécia), o governo sueco propôs uma política pública baseada em compreensão, cuidado e segurança com o próximo – uma forma de isolamento social baseado em cidadania, não em multas ou regulamentações severas.”
Em primeiro lugar, os países mais duramente afetados foram os que demoraram para aceitar o fato de que existia uma pandemia capaz de sobrecarregar seus sistemas de saúde levando a uma maior mortalidade;
Em segundo, a OMS não força nada, muito menos obriga. Notem que o uso do verbo “forçar”, aqui no caso é um subterfúgio para não comprometer o argumento em torno de uma prova (o que não existe). Uma vez que não há legislação mundial, nem força mundial, capaz de forçar países que são super-potências, como Estados Unidos, China ou Rússia a acatarem suas determinações, nem mesmo pelas potências médias (Reino Unido, Alemanha, França, Japão etc.) se torna algo vago e apenas sugerido que uma agência da ONU, dilapidada por falta de recursos, além de ser reflexo das decisões tomadas por mais de 180 membros na sua Assembleia Geral, tenha algum poder efetivo;
Em terceiro, se a Suécia não adotou o lockdown e paga um preço por isso, é contrassensual dizer que a OMS trabalhou para forçar a economia mundial a parar quando o exemplo dado é de quem não seguiu isso e pagou um preço maior em mortes, que afetarão sua economia. Parece que o autor do post não leu e se leu, estava tão imbuído de dizer o que já pensava que não atentou para o fato de que a informação não corrobora sua conclusão;
Em quarto, que mereceria um comentário mais longo, se afirma que as quarentenas de nada adiantaram, pois a doença seguiu seu “curso natural”, ignorando, por conveniência, que onde seus resultados foram piores, para não dizer trágicos, foi justamente, como dito mais acima, onde se negou o crescimento exponencial das infecções e seu contágio.
Anselmo Heidrich
2 mai 2020

quinta-feira, abril 30, 2020

O que é o Conservador Brasileiro? (I)

O que é o “conservador brasileiro”? Você, certamente, já se deparou com essa figura, que tem algo de grotesco, algo de revolucionário (embora ele negue isso de pés juntos), mas que em alguns casos, dependendo da plateia, faz sucesso do mesmo jeito que não muito tempo atrás seu sobrinho no curso de sociologia da universidade pública fazia, de modo muitas vezes desagradável em encontros familiares.



Texto: http://inter-ceptor.blogspot.com/2020/04/o-que-e-o-conservador-brasileiro-i.html



terça-feira, abril 28, 2020

O que é o conservador brasileiro (I)

O que é o “conservador brasileiro”? Você, certamente, já se deparou com essa figura, que tem algo de grotesco, algo de revolucionário (embora ele negue isso de pés juntos), mas que em alguns casos, dependendo da plateia, faz sucesso do mesmo jeito que não muito tempo atrás seu sobrinho no curso de sociologia da universidade pública fazia, de modo muitas vezes desagradável em encontros familiares.
Pois é, tenho ouvido dizer que o bolsonarismo criou esse tipo de gente. Ledo engano, meus caros, ledo engano. Aliás, esta avaliação incorre no mesmíssimo erro daqueles que diziam (ou dizem) que o PT criou o esquerdismo nas universidades, a ideologia de gênero nas escolas etc. Na verdade, foi exatamente, o contrário, o pensameno de esquerda que, se fortaleceu na ditadura, ironicamente, mas foi verdade, pois antes era só o marxismo, hoje são várias as correntes, se tornou um movimento crescente e legitimado pela repressão como se fosse algo sumamente necessário.
E, honestamente, era difícil fugir de seu apelo e sedução quando o outro lado só entendia a linguagem da força e brutalidade. Então, analogamente, o bolsonarismo é o resultado de anos de hegemonia e truculência na argumentação, falta de diálogo, uso de clichês como principal tipo de argumentação, ameaças, sim ameaças, por parte da militância nas universidades a quem fosse um simples dissidente, isso para nem falar dos opositores diretos. E, como se não bastasse, a violência legitimada intelecutalmente nas universidades pelo conceito de “luta de classes” e pela dialética invertida (deturpada, na verdade) de que “as contradições internas da sociedade engendram sua própria destruição” levou a sua reação, inicialmente, moral, depois, racional e agora, política. Só que na mesma moeda, ou seja, com os mesmos vícios teóricos que se refletem na política, cujo primeiro sintoma é o aborto da verdade.
Repare nos símbolos, ícones usados por eles, bolsonaristas, que agora parecem predominar nas redes sociais (em parte porque o que vemos é uma bolha de internet, em parte porque eles usam robôs de disparos de mensagens). E símbolos, imagens falam mais rápido do que mensagens escritas, nas quais, com esforço e método, se pode detectar falhas e contradições. As imagens não, elas fazem o seguinte: te remetem diretamente ao que tu já queres expressar de modo sentimental, sensorial, sem ter que falar muito, mas com a clara intenção de chocar teu opositor. E é exatamente isso que se faz quando se simboliza um “conservador” com a imagem de um guerreiro, pronto para lutar, treinado para lutar, pronto para defender seus valores. Veja, ele não está lutando contra vícios políticos, ou o modo de funcionamento de um sistema disfuncional. Ele o diz, mas na verdade, sua imaginação vai longe, no tempo e no espaço e se vê como um cavaleiro empunhando uma espada, com elmo e escudo ostentando a insígnia do que chama de “cultura ocidental”. Embora, o que chamemos de “ocidente” seja um misto, uma pluralidade de influências e mesclas culturais em partes do globo terrestre de modo mais intenso e frequente num dado período da história. As partes dessa história e cultura que não lhe convém, nosso conservador que se julga defensor da cristandade, simplesmente, descarta como se fossem inexistentes. E não raro mistura as coisas, como a imagem de gladiadores, legionários, guerreiros pagãos em oposição ao islã, aos africanos, aos asiáticos (estes, reiterados pela atual conjuntura sinófoba).
Quando posto contra a parede, como estar defendendo um presidente que para sua sobrevivência e remota reeleição em 2022 faz acordos com a banda podre do Congresso, ele se sai com a esfarrapada desculpa de que “lutar contra o Comunismo é muito mais importante do que contra a Corrupção”, que esta é como vírus da gripe e aquele, como um leão. Sem perceber, é claro, que a gripe mata muito mais do que ataques de leões, também não se pode exigir coerência nas figuras de linguagem de quem, na raiz, já é incoerente por si só. 
(Continua…)

quinta-feira, abril 23, 2020

150 anos de Lenin, uma eternidade de mentiras

Hoje faz 150 anos do nascimento do líder da Revolução Russa, #Lenin. Agora, vejam este pequeno vídeo, com um original de 1937 e outro dos anos 60. Sabem quem “desaparece” dali? #Stalin. Pois é, já naquele tempo tinha fake news. Entendam que essa tática de “eliminar o passado”, o chamado Revisionismo Histórico, é coisa usual, sempre existiu na política e sempre vai existir, como prova o atual governo tentando ocultar o passado de #JairBolsonaro. Então, mostre isso para o GADO quando uma rês vier te falar em “nova política”…
On Lenin’s 150th birthday, check out the crudely ingenious ways the 1960s retouched version of the 1937 film “Lenin in October” removed all sign of Stalin from the action. Compare the two versions below and watch out for disappearing Iosif…
@shaunwalker7



terça-feira, abril 21, 2020

A Mídia é de Esquerda?

Há anos que ouço isso, faz parte da narrativa da Nova Direita que, aliás, coaduna com a Esquerda que também dizia que "os grandes grupos de imprensa são lacaios do Capital". Na verdade, buscar e responsabilizar culpados não passa de uma estratégia evasiva para esconder a própria incompetência governamental e política.



sábado, abril 18, 2020

Métodos similares: Chauí e Bolsonaro

Relendo entrevista de 2003 com Marilena Chauí pela Folha de S. Paulo é possível perceber a forte semelhança na defesa feita ao governo Lula com a que grupos bolsonaristas e olavistas fazem atualmente do governo Bolsonaro. Se alterarmos alguns termos e expressões como "democracia liberal" por "velha política", "classe dominante" por "deep state" ou os ataques e responsabilização ao PSDB por tudo que se fazia com a que se faz ao PT, é a mesmíssima coisa.

Em suma, petistas e bolsonaristas são muito mais próximos e semelhantes do que imaginamos.


China e EUA não pararam os voos? React do Whatsapp EP. 600

EUA apuram se vírus teria saído de laboratório na China

Para aqueles que compraram a ideia de "vírus de laboratório":



Live - Distanciamento social: até quando?

Vou ser chato:

Crise, teremos, como aliás, já temos. Mas esta volta a normalidade intermitente é uma hipótese deles. Acho que teremos mais e-commerce, bom, mais ead, bom, mais delivery, bom, mais rigor fitossanitário, bom etc. Longo prazo promissor, além de descentralização produtiva (menor dependência da China) e incentivo à prata da casa.
Eles dizem que não dá para criar uma contradição entre economia e saúde, ok, mas eles estão fazendo entre setor público e privado.
Como se "nós poderíamos converter (...) ind. têxtil em produção de respiradores", p.ex. Como se faz isso? Com baixos juros de financiamento? Vá lá, mas vê que é meio que tirar um coelho da cartola achando que é fácil? O Guedes veio à público dizer que implantariam duas fábricas de respiradores, fácil dizer. Quanto tempo leva?
(...) Pois é, esforço de guerra, mas veja o que aconteceu após 29 e a II GM, veio uma época de bonança. Agora, o problema, é que não teremos um EUA pródigo. O que teremos no lugar e já estou pensando em estudar mandarim é a China no seu lugar. Ela vai financiar o mundo. Agora, o exemplo que ela dá da recuperação alemã pelo nazismo (ela observa isso, não faz apologia), mas não citou o Plano Marshall?!?!
(...) Discordo totalmente do final, eles traçam um cenário fúnebre para a China, mas basta ver a expansão que eles já estão fazendo em várias regiões do mundo para ver que estão agindo e não é de hoje. Eles estão em vários países em desenvolvimento e têm um mega-projeto de integrar a Eurásia através da Nova Rota da Seda. Agora, os EUA, se não mudarem a política trumpista irão definhar. Sei que eles estão discutindo contra os teóricos da conspiração que dizem que a China agiu com alguma intencionalidade neste processo e, claro, que eu descarto isto, mas o que vejo é que eles[chineses] estão agindo para se precaver e adotam uma expansão há tempo.

terça-feira, abril 14, 2020

GCM Cumpre mandado de Dória e prende mulher que fazia caminhada sozinha ...

Vi isso, mas aí eu acho que a Guarda errou. O ministro Mandetta disse que não vivíamos em quarentena e sim em distanciamento social, para evitar aglomerações. Ali, ela estava sozinha. Agora, esse é que é o problema, o presidente fala uma coisa, o ministro outra, os governadores outras ainda e aí ferrou.



sábado, abril 11, 2020

O segredo da MERITOCRACIA

Você quer desejar Feliz Páscoa? Então deixe-me te retribuir e veja isto até o fim: https://youtu.be/YINTTVjBrY4. Agora, beba algo, deite e olhe para o escuro. Lembre-se de toda aquela paisagem inóspita e horrenda de nossas periferias, de toda aquela gente que pega um ônibus e se encolhe como uma lata de sardinha, daquele cheiro fétido das bocas de lobo depois de um dia de chuva, do asfalto quente sem arborização. Isso é uma das pontas do tabuleiro e se ao menos você for capaz de se sensibilizar, então, daí sim, você merece uma boa Páscoa. Sem isso, o resto é só se entupir de chocolate.



domingo, abril 05, 2020

O Significado do Brexit para a Ucrânia


Muito se especulou sobre as consequências para a União Europeia após a saída do Reino Unido, o chamado Brexit[1], mas seus reflexos vão além desse Bloco econômico, em especial para países vizinhos como a Ucrânia. Além disso, o distanciamento do Reino Unido tem uma dimensão que não é meramente econômica, afetando a Segurança e a Defesa do continente.
A combinação de crise com o crescente euroceticismo[2], e a necessidade de maior rigor na proteção às fronteiras devido aos fluxos de pessoas e mercadorias, reacende e fortalece movimentos nacionalistas com uma base xenofóbica na Europa. Nesse contexto, países da chamada “periferia europeia”, o que inclui economias menos prósperas do Mediterrâneo, além da Europa Oriental, e fatores de stress geopolítico – como a guerra na Síria – obrigam Bruxelas a identificar prioridades para manter a integridade da União Europeia.
Em termos globais, as disputas comerciais entre Estados Unidos e China, as crises de pandemias por conta de novas doenças que surgem, como o atual Covid-19, e conflitos nas bordas do continente europeu, tornam a situação muito complexa para sugerir quaisquer previsões futuras. Para a Ucrânia, a necessidade de tecer acordos com novos parceiros globais, como o Reino Unido, agora separado do bloco europeu, é urgente. Com a considerada ameaça russa no leste do país, aliada às instabilidades da União Europeia, dividida entre se expandir criando um ambiente de integração e harmonia vs. sua necessidade de segurança e protecionismo, não é criada uma visão segura para a política externa ucraniana. Embora o Brexit seja um afastamento radical de uma organização de longa data e história, a União Europeia, os políticos ucranianos podem usá-lo a seu favor para desenvolver ainda mais as relações britânico-ucranianas, sobretudo para atração de mais investimentos ao país.

COMÉRCIO

comprometimento como aliado do Reino Unido com a Ucrânia existe desde sua independência em 1991 e, provavelmente, será preservado. As regras comerciais, por sua vez, serão mantidas durante o ano de 2020, sofrendo alterações somente em 2021. Juntamente com Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Egito, Rússia e China, o Reino Unido é um dos mais importantes consumidores de alimentos mundiais, comprando mais da metade do que consome. Com sua saída da União Europeia, o Reino Unido poderá obter mais alimentos, particularmente, aves, milho, trigo, malte, sucos e mel da Ucrânia, sem os custos que eram impostos aos exportadores.
Como a União Europeia é um Bloco exportador de alimentos, com restrições à importação de produtos de fora, sua prioridade é proteger agricultores alemães e franceses. Dessa forma, o Brexit é uma grande oportunidade para que um país como a Ucrânia, exportador de itens agropecuários, possa ganhar mercado dentre os consumidores britânicos.
O Reino Unido absorve 42% das exportações metalúrgicas da Ucrânia, 18% dos derivados animais, 13% dos produtos agrícolas e 7,5% dos alimentos. A importação desses itens vai além do consumo humano, pois a criação de bois, cordeiros, porcos e a produção de laticínios, cerca de 2/3 do setor primário[3], dependem dos grãos ucranianos para fabricação de ração. Para manter os benefícios e ampliar o volume de trocas, ambos os países têm que agilizar seus acordos. Os ganhos de produtividade para os britânicos na produção de ração e laticínios apresentam grande potencial a ser explorado, sobretudo agora que as taxas aos produtos importados para proteção dos equivalentes alemães e franceses não irão mais existir.
As exportações da Ucrânia para o Reino Unido totalizaram US $ 580,4 milhões[4] até novembro de 2019 e as importações US $ 638,5 milhões[5]. Dentre os produtos importados pelo Reino Unido destacam-se minérios, como o ferro e derivados, caso do aço, além de milho, óleo e gorduras. Estima-se que o potencial total para negociar chegou a US $ 918 milhões[6], segundo dados de 2017, sendo que, no mesmo período, US $ 500 milhões[7] foram exportados, ou seja, há muito espaço para crescer. Segundo um estudo feito em 2017, o impacto econômico no comércio entre Ucrânia e Reino Unido com a assinatura de um Acordo para a construção de uma Área de Livre Comércio, com base em dados de 2013-2016, levaria a um aumento de cerca de US $ 0,5 milhão[8] em reduções e US $ 335 milhões[9] em cotas tarifárias.
Por outro lado, como a Ucrânia já está negociando com o Bloco europeu, a forma como se estabelecerá o comércio entre ela e o Reino Unido pode ser um obstáculo. As oportunidades criadas vão depender do formato final do acordo entre as partes. Se ainda não houver nenhum consenso entre Reino Unido e União Europeia, as relações comerciais entre ambos serão reguladas pela Organização Mundial do Comércio, com mais regulamentações e tarifas. E por mais estratégico que seja o mercado britânico, é importante que a Ucrânia não perca de vista o potencial de importação e consumo da União Europeia, que abarca mais de 440 milhões de habitantes.

MIGRAÇÃO

Um dos pontos chaves é a questão da migração. As novas regras para migrar ao Reino Unido devem ser efetivadas em 1º de janeiro de 2021. Dentre as mudanças mais drásticas está a atribuição de pontos para selecionar imigrantes que desejam trabalhar no seu território, o que pretende beneficiar a mão de obra especializada em áreas de maior demanda.
O antigo programa de isenção de vistos entre a Ucrânia e o Reino Unido se dava através das regulamentações da União Europeia e, necessariamente, sofrerá revisão. Como Kiev já tomou a iniciativa de liberar vistos para os cidadãos britânicos até 2021, agora espera por reciprocidade do Reino Unido.

UNIÃO EUROPEIA

Os britânicos foram aliados particularmente importantes no apoio à entrada da Ucrânia na União Europeia, que, agora, terá de procurar novos parceiros para atingir o objetivo de ingressar no Bloco. Independentemente da presença ou não do Reino Unido, o que dificulta o ingresso da Ucrânia se deve mais às crises geradas pelos casos recorrentes de corrupção e a guerra no leste.
Putin, Macron, Merkel e Zelensky, 2019
O combate à corrupção é um dos pontos nevrálgicos para participação na União. Em 2018, os parlamentares europeus adotaram uma emenda ao Projeto de Lei sobre Sanções e Lavagem de Dinheiro da Lei Magnitsky, que prevê o congelamento de bens e sanções para violadores dos direitos humanos. A formulação de políticas para os negócios e esforços no combate à corrupção são, praticamente, pré-condições para atração de investimentos britânicos ao país.

SEGURANÇA E DEFESA

Zelensky em visita à Bruxelas, 2019
Existe, no entanto, a percepção de que, com o Brexit, um aliado na defesa contra a Rússia se foi. Emmanuel Macron já fala em incorporar a Rússia através de um espaço comercial integrado à União Europeia e Angela Merkel é contra as sanções aplicadas às empresas responsáveis pela construção do gasoduto Nord Stream II[11]. Com tantos interesses econômicos favoráveis à Federação Russa na União Europeia, e seu território fragmentado devido à guerrilha fomentada por Moscou, as políticas para a defesa da Ucrânia perderam força. Se uma maior fragmentação da Europa seria um presente para Vladimir Putin, o euroceticismo mostra-se uma força interna que fomenta esta divisão e isto representa um risco para a Ucrânia com a perda de apoio para enfrentar agressões externas: “O Brexit é, sem dúvida, a vitória dos eurocéticos e o golpe para os euro-otimistas, o que causará dificuldades políticas significativas em primeiro lugar para os países da Europa Oriental. Sabe-se que Londres sempre atuou como advogada e parceira da Europa Oriental – Polônia, países bálticos, Escandinávia. (…). Além disso, o Brexit provavelmente desencadeará uma reação em cadeia quando os eurocéticos começarem a agitar as coisas e levantar questões políticas sobre referendos. Nesse caso, Dinamarca, Países Baixos e possivelmente Suécia serão os próximos a deixar a UE”.
Embora o Reino Unido nunca tenha participado ativamente do grupo de discussões para a paz na Ucrânia, o chamado Formato da Normandia[12], sempre foi um aliado próximo, sobretudo após a anexação da Crimeia pela Rússia. No passado, Londres apoiou reformas promovidas por Kiev na modernização do Estado, agora Kiev vai precisar desenvolver a cooperação com outros países, demonstrando a capacidade de seu Ministério das Relações Exteriores.
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Notas:
[1] Brexit é um acrônimo para “British exit”, que significa, em uma tradução literal para o português, “saída Britânica”. A expressão se refere ao processo de saída do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte da União Europeia, após 47 anos como membro.
[2] Euroceticismo, diz-se do sentimento de ceticismo em relação aos propósitos, premissas e desempenho da União Europeia. Há neste movimento desde visões econômicas mais liberais contra as ordens e regulamentações do establishment burocrático europeu, até movimentos díspares, antiliberais, e nacionalistas saudosos de uma ordem política anterior e de matizes protecionistas e isolacionistas na política externa.
[3] Setor Primário da Economia corresponde ao setor mais antigo, extrativismo (mineral, animal, vegetal), agricultura e pecuária.
[4] 3,021 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[5] 3,323 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[6] 4,778 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[7] 2,602 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[8] 2,6 milhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[9] 1,743 bilhões de reais, no câmbio de 31 de março de 2020.
[10]A Ucrânia se situa entre dois principais atores do cenário geopolítico e geoestratégico, a União Europeia/Otan e a Federação Russa, está muito mais próxima, não só geograficamente falando. Como um de seus principais aliados não se encontra mais na União Europeia, resta a Kiev costurar uma nova política externa que busque sustentação e crescimento econômicos. Uma parte disto se encaminha com os acordos feitos fora do continente europeu, seja com a Turquia, seja com Omã e, agora, com o Reino Unido. Se Kiev conseguir fazer o mesmo com Bruxelas, poderá ser um dos sócios preferenciais do bloco econômico, mas, nesse jogo, o difícil será não sofrer nenhuma influência contrária e indireta de Moscou, já que a Alemanha de Merkel e a França de Macron parecem cansar do cabo de guerra com o gigante do leste. Não se trata de uma opção fácil, pois a Europa também necessita muito do gás russo. Kiev tem pressa e a diplomacia ucraniana vai ter que ser ágil o suficiente para compensar qualquer possível perda com os europeus. A Ucrânia é um país com muito potencial econômico, dado por sua demografia, localização estratégica, recursos, solos etc. O que ela necessita é um poder de articulação para criar interdependências entre outros Estados dentro e fora da Europa. Sua autonomia, segurança e paz estão cada vez mais ligadas ao conceito de globalização.
[11] Nord Stream 2 é uma nova linha de transporte de gás da Rússia, através do Mar Báltico, diretamente para seus consumidores europeus. O projeto, implementado pela estatal russa, Gazprom, deverá ser concluído ainda este ano, 2020.
[12] Formato Normandiafoi um encontro diplomático entre os quatro representantes da Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, para apaziguar a crescente guerra no Donbass. Levou esse nome por ocorrer em 6 de junho de 2014, paralelamente às comemorações do desembarque na Normandia.
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Fontes das Imagens:
Imagem 2 “Putin, Macron, Merkel e Zelensky, 2019” (Fonte): https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Putin,Macron,_Merkel,_Zelensky(2019-12-10)_01.jpg
Imagem 3 “Zelensky em visita à Bruxelas2019” (Fonte): https://ar.m.wikipedia.org/wiki/%D9%85%D9%84%D9%81:Volodymyr_Zelensky_visits_Brussels_2019.j