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quarta-feira, março 11, 2020

Florianópolis 0 X 10 Jurerê Internacional (II)


Outro dia, um amigo me cobrou um detalhe, que realmente fez falta no meu texto sobre Florianópolis e seu bairro, Jurerê Internacional, o acesso ao mesmo, que vive entupido por filas de carros durante a temporada de verão (e mais até). Parece-me um efeito normal de um bairro que funciona como uma ilha de bem-estar em meio a uma cidade crescentemente caótica, mas aceitar o caos como normalidade é que é a verdadeira causa de nossas mazelas sociais: o costume.

Então, para procurar um caminho para as soluções temos que nos desacostumar e como tal, temos que ver a cidade como algo diferente do que sempre vemos, uma paisagem urbana imutável. Não, a cidade é tudo menos isso, ela é feita para mudar, ou melhor, a cidade é feita de mudanças. Que me perdoem os saudosistas da velha Florianópolis, dos poetas nativos, dos manés, mas isso tudo atrasa a cidade, assim como em Porto Alegre, cidade onde me criei, a cultura do “patrimônio público” é outra chaga que apodrece as instituições e leva a cidade a sua estagnação econômica e, consequentemente, decadência social.
Vejamos, a cidade é produto de demandas, ofertas, produções e imaginação. Imaginemos então, a cidade como um mercado de bens e serviços. Em determinado bairro, no caso, o Jurerê Internacional, melhores serviços no seu todo são oferecidos à população, no que se formam filas, exatamente como ocorreria em um supermercado com produtos de melhor qualidade e preço mais em conta. Logo, os outros supermercados e mercadinhos da região e bairros vizinhos acabam limitando sua clientela àqueles consumidores que não querem se deslocar e se conformam em pagar mais caro por produtos piores só para não ter um transtorno de perder tempo, o que, diga-se de passagem, também é outra commodity cada vez mais importante nos dias de hoje. Você e eu até cogitamos em comprar aquela carne mais dura, um arroz de pior qualidade (aquela desgraça de arroz parboilizado) ou um erva-mate seca e sem cor para não ter que ficar mais de uma hora no carro. O bom se tornou dispendioso e nos agregou um custo maior.
Este custo maior se transforma em um preço, quanto mais gente, menor (proporcionalmente) a oferta e, portanto, maior o valor dispendido para obter aqueles bens. Os supermercados se tornam caros, os alugueis se tornam caros, os passeios, as baladas, as roupas, as compras e consumo de ocasião, um simples cachorro-quente ou churros viram “produtos gourmet” e o bairro fica “gentrificado”,[1] ou seja, o bairro se tornou um bairro chique, caro pra dedéu. Isto vai levar a busca de alternativas (outros bairros, geralmente vizinhos) e a necessária descentralização. A alta dos preços empurrou parte das pessoas para fora dos limites daquele bairro.
Mas um bairro e sua terra não são exatamente produtos da mesma espécie que os encontrados nas prateleiras dos supermercados, eles têm maior ingerência de leis municipais e urbanas. Em parte, são propriedade pública, então, comparemos com serviços públicos como, p.ex., a saúde. Em Florianópolis, capital tida como referência em atendimento público de saúde, há postos de saúde que são muito melhor preparados do que outros. Aqui, é público e notório que certos postos de saúde e policlínicas (centros de atendimento maiores e mais diversificados) são mais requeridos, mas como os usuários (clientes divididos pelo Sistema Único de Saúde, SUS) são “regionalizados”, i.e., divididos por regiões administrativas e obrigados a frequentar os postos e policlínicas de sua região, não se tem o livre-arbítrio de escolher o melhor atendimento. Eu, morador do Rio Vermelho, sou obrigado a buscar atendimento no posto do meu bairro, reconhecido pelos meus vizinhos como de péssima qualidade. E eu entendo o porquê da separação/regionalização: se liberassem todos para ir para os melhores postos, estes viveriam saturados, sempre.
O que faltaria para que descentralizassem, naturalmente? O que existe nos bairros que levam as pessoas a vazarem fora: um sistema de preços. Sei, sei, um serviço público não pode ter isto porque daí não seria público e sim, privado. Certo? Mais ou menos, isto pode ser adaptado de outra forma, com os pacientes sendo postos em listas de espera para serem atendidos nas melhores unidades. E, com cotas de tempo previamente estipuladas de acordo com metas, para se evitar assim superlotação nos postos com saturação de usuários pela lentidão nos atendimentos. Em duas palavras: monitoramento e fiscalização.
Bom, o que isto tem a ver com o engarrafamento na entrada do Jurerê Internacional? Preste atenção: este bairro NÃO TEM SOLUÇÃO SE PENSADO ISOLADAMENTE. Ele só irá melhorar se houver maior descentralização e isto ocorrerá com monitoramento e fiscalização de porque outros bairros não executam suas tarefas, através das superintendências e poder público municipal. Mas quais seriam essas tarefas? Pense que a cobrança (e pressão) sobre as piores unidades de saúde (postos e policlínicas) levará à melhoria do sistema com uma espécie de competição interna entre elas, cuja consequência deverá ser a maior descentralização interna ao serviço municipal e, ANALOGAMENTE, o mesmo deve ocorrer entre os bairros, na medida em que a melhoria dos serviços urbanos vizinhos leva a descentralização territorial da demanda pelo espaço urbano.
Isto parece ficção científica quando não imaginamos ser possível adaptar o princípio do sistema de preços do mercado privado para outra forma de avaliação do sistema público. E os preços são, antes de tudo, indicadores de preferência: preços maiores significam que são preferidos em detrimento de outros, que irão indicar isto através de preços menores. É possível a equivalência entre público e privado sim, só o executor é que é outro, ao invés da Dona Fulana indo com sua sacolinha na feira, é um técnico de formação na área averiguando, objetivamente, porque um posto X e tão mais lerdo e menos procurado do que Y. Algo como: “O que acontece lá? Por que não funciona? Vamos investigar.” Esses fiscais também trabalhariam em regime de produtividade, assim como policiais que ganham pontos por crimes resolvidos. Se isso não existe aqui, o problema é outro, porque temos que adaptar este princípio de operação e criar um modelo.
E agora eu me pergunto, se podemos fazer com um sistema de saúde municipal, por que também não com a segurança pública dos bairros? Com os arruamentos e calçamentos? Com a iluminação pública? Com o esgotamento sanitário? Com as escolas? Bom… Levaria anos, mas se eu tivesse que começar, faria duas coisas: reforma administrativa com perda de privilégios frente aos trabalhadores da iniciativa privada e o estabelecimento de critérios objetivos ao conhecimento de todos (servidores e usuários) de como o sistema deve funcionar.
Isso, pra começo de conversa. Mas, se não for por aí taca-lhe outro viaduto pro Jurerê Internacional e empurremos o problema com a barriga pra piorar tudo de novo daqui 5 ou 6 anos. Afinal, não é assim que se faz? Não é assim que sempre se fez?
Anselmo Heidrich
11 mar. 20

[1] Gentrificação “é o fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local” (Wikipédia). A origem do termo deriva da palavra gentry, pessoas de boa posição social, especificamente (no Reino Unido), a classe de pessoas logo abaixo da nobreza em posição e herança de berço, membro de uma espécie de pequena nobreza.


sexta-feira, janeiro 24, 2020

Vida nas Cidades: antes era melhor?


Eu cresci numa periferia da zona norte de P. Alegre que, diferente do que a palavra significa hoje, era só uma área periférica e não deteriorada ou perigosa como pensamos. Muitas das coisas mostradas no vídeo abaixo não eram populares, motos para todo o lado, mas outras sim, como brincar e jogar bola na rua, festinhas na garagem etc. Note que o vídeo mostra um fragmento da população e daí pensamos que “antes era tudo melhor”. Enquanto esta parcela vivia feliz e sonhava com um futuro, mulheres com casamentos desfeitos davam a luz filhos de pais diferentes que, sem nenhuma estrutura familiar e emprego volátil tiveram seus filhos que tiveram os seus que tiveram outros, tudo no mesmo padrão sequencial. O resultado é isto que temos aí, uma bomba criminal demográfica. Não dava para imaginar? Claro que dava. Mas onde estavam nossos pesquisadores sociais? Fazendo política. Imagine uma equipe de sociólogos, geógrafos e demógrafos analisando uma série de mapas urbanos das grandes metrópoles e dados de fecundidade disponíveis associados à estrutura educacional, emprego, saúde e habitação por um período de 10 anos, não dava para imaginar a merda que viríamos a ter nos anos 90 e 2000? Dava e dava para prever tudo isso, minimizar ou, pelo menos, mitigar. É isso que os governos militares falharam, é nisso que a Nova República de FHC falhou, os que vieram antes também, foi nisto que os governos petistas falharam e é nisto que o atual governo da “nova era da caneta bic” também irá falhar. Nós vivemos só de retórica e falsas narrativas… Veja você, o que nos disseram os professores de esquerda “não dá para só crescer o PIB, tem que redistribuir”… Pois bem, fizeram isto e o que deu? Alguma satisfação sem crescimento profissional e autonomia individual frente as benesses estatais. Agora veja você o que dizem os direitistas sobre Cuba: “antes do Fidel era melhor” ou sobre a Venezuela: “antes de Chávez era melhor”. Sim, era! Mas não era bom também. A Venezuela vivia a hiperinflação com o crescimento absurdo de favelas, Cuba era só um prostíbulo para turistas com produção de rum e açúcar, nada mais, com a maioria da população vivendo alijada do conforto do século XX como se fossem servos da gleba. Claro que daí vêm os populistas, de esquerda, como Fidel, ou de direita que depois bandearam para a esquerda, como Chávez, e com suas “soluções” imediatistas e redistributivistas sem projetar o crescimento e a educação e pioram tudo. Lembre-se: veneno é quantidade. Enquanto as donas de casa americanas compravam livremente suas drogas nas farmácias décadas atrás não era problema, mas quando o vício se expandiu se tornando um surto de grandes proporções se passou a proibir a droga. O que eu penso com esses exemplos do passado é que, provavelmente, temos hoje fenômenos embrionários que não conseguimos enxergar e que em um futuro não tão distante serão vistos como epidemias, pragas, “doença social” e por aí vai. Foi o que aconteceu com a favelização que na minha época ficava depois da Av. Sertório na Zona Norte, mas sempre me chamou atenção como se fosse um outro mundo proibido e que: AS PESSOAS EVITAVAM COMENTAR. Não passaram 10-15 anos as submoradias já tinha penetrado como metástase nos “bairros bons” e hoje se expandem, metamorfoseando a cidade e levando o mercado imobiliário a se adaptar, com as pessoas mandando às favas os códigos de posturas e transformando suas habitações em mini-bunkers. É isso que temos pro jantar… Claro que no meio disso tudo, coisas boas nascem e podem melhorar nossa vida no futuro (o uso de capacetes, p.ex., cuja ausência no vídeo é mostrada com saudosismo, desenhos animados muito bacanas que existem hoje em dia que criam novas sensibilidades etc.).
Só sei que no futuro, ainda teremos pessoas como eu e tu olhando para trás, nesta época atual que vivemos e conversamos em redes sociais, dizendo “como em 2020 era melhor”.
Anselmo Heidrich
24 jan. 20

Imagem “Planta do núcleo urbano inicial da cidade, 1840, ainda com a linha de muralhas assinalada” (fonte): Por Desconhecido – [1], Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7561089

domingo, junho 08, 2014

Mais sobre zoneamento, impactos de vizinhança e cidade

Seguindo o debate iniciado no post anterior:

Anselmo, obrigado pelo comentário!Discordo da sua observação. O produto que você compra é o seu imóvel, no seu terreno. É possível comprar lotes em bairros privados e condomínios que garantem as decisões de um ambiente maior pelos proprietários. Não acredito que isso deva ser aplicado na cidade como um todo por uma série de motivos.
Primeiro, o que está no entorno do seu imóvel não é seu, não é o produto que você comprou, mas sim produtos que outras pessoas compraram e tem liberdade de alterá-los. A sua prerrogativa congelaria o mundo ao redor da sua propriedade considerando que você comprou o bairro inteiro, o que não é verdade. Caso você queira controlar o bairro inteiro, você deve comprar o bairro inteiro.Em seguida, é impossível dizer o que é uma mudança "aceitável" e o que não é no ambiente do seu entorno. Se você se mudou porque existe um restaurante que você gosta na frente do seu prédio, você vai proibir que ele deixe de existir para manter as "qualidades do lugar"? Claro que não. Assim como você usa o exemplo de abrir novos empreendimentos que você não deseja no seu bairro a situação também deve ser imaginada no sentido contrário, empreendimentos fechando ou indo embora.
Em seguida, se você está falando em externalidades, elas são muito mais impactantes por causa do zoneamento do que apesar dele. Trânsito é gerado pela necessidade de deslocamento gerado por bairros monofuncionais, o que também gera poluição. Bairros atraentes ficam cada vez mais caros e outros deixam de se transformar e morrem, porque estão congelados pelo zoneamento. Zonas industriais abandonadas existem exatamente por este motivo, assim como bolsões elitistas como os Jardins em São Paulo.Enfim, como você mesmo falou, a questão não é tão simples assim. Recomendo a leitura dos livros e deste blog, que talvez faça você entender melhor meus argumentos.
Abraços,

Anthony, eu não vejo desta forma. Tua analogia sobre o impedimento de uma atividade sair de um bairro ser tão danosa quanto à proibição de entrar não procede. Em primeiro lugar, concretamente falando porque não é disto que se trata de um zoneamento: de impedir a liberdade de extinguir um negócio ou decretar falência, mas sim de impedir e/ou limitar a presença de fatores indesejáveis ao que os moradores locais aceitaram como parte da constituição da localização de seu imóvel. Este, o imóvel não existe solto no espaço, quando se compra algum, se compra o mesmo com certas características. A questão não é que “certas características o valorizaram”, mas que elas impediam a deterioração do próprio imóvel. Não me refiro ao valor de troca deste, mas sim ao seu uso. Não é justo que tais características sejam prejudicadas por elementos que as transgridam sem ao menos alguém ter que pagar por isto. Exemplos? Determinados tipos de poluição. Por isto o zoneamento é sensato, uma vez que certas atividades, no atual estágio de desenvolvimento tecnológico em que nos encontramos, poluem mesmo, seja atmosférica, sonora, visualmente, por cheiro etc. se admite sua ocorrência em áreas apropriadas para tal fim. O que não pode é se adquirir um imóvel e, de repente, a externalidade negativa nos atingir dentro do lar e se alegar com isto que “está fora de teu imóvel, então tudo bem”. Claro que não “está fora”, pois o fator impactante trouxe sua consequência até mim, até o interior do mesmo imóvel. O zoneamento se configura como consequência ‘natural’ (entre aspas) de uma cidade que é, dentre outras coisas, um campo de conflitos de interesses e não um todo harmônico onde todos concordamos com tudo. Sobre as aspas: não existe naturalidade em sistemas sociais, por isto coloquei a expressão entre aspas, mas o zoneamento é tão necessário que até mesmo cidades que não o têm (como Houston) apresentam acordos com os vizinhos (veja a importância da base local, descentralizada) que, em termos práticos, dá no mesmo, na restrição. Agora se eu fosse religioso e comprasse um imóvel porque está próximo de uma igreja, para digressar mais no teu contra-exemplo... E esta igreja abandonasse o bairro, eu não teria o direito de protestar, ao menos legitimamente, porque o beneficio que o culto me trazia não era algo que “entrava no meu imóvel”. Já, se eu fosse avesso a ideia, eu poderia reclamar se o ruído (os cânticos) adentrassem no meu imóvel acima do permitido. “Acima do permitido...” Qual o nível tolerável? Depende da zona em que teu imóvel está inserido. Quanto ao outro exemplo de que o tráfego intenso existe porque há bairros monofuncionais... Também discordo porque a cidade não é, mesmo onde não há ou não houve zoneamento, cidades com bairros auto-suficientes. Ela reflete o mercado e o centro (ou centros) tendem a concentrar atividades variadas que levam ao tráfego devido à demanda por seus produtos. Mesmo porque, a auto-suficiência de bairros não impede deslocamentos porque pessoas vêm e vão trabalhar em diferentes bairros mesmo que houvesse vários tipos de atividades em seu próprio bairro. Não há como ter uma VW em cada bairro de São Bernardo do Campo, p.ex. É diferente de ter padarias ou super mercados em cada bairro... Mesmo tendo bairros completos, no sentido de oferta de serviços teremos, obviamente, trânsito intenso conforme a oferta de trabalho aumentar na metrópole. Que é metrópole, justamente, por isto, por atrair gente em busca de trabalho em diferentes pontos da cidade gerando tráfego e mais tráfego. E, além de tudo há zonas de uso misto justamente para suprir esta lacuna para quem assim prefere. Jane Jacobs & Cia estão na moda, muito bem, mas para além da downtown existe outro tipo de mundo com necessidade de outro projeto. Afinal, mesmo ela tinha um conservadorismo adequado para uma Manhattan que devido ao liberalismo econômico que defendia pode não ser a Manhattan de amanhã. Sua visão de bairros diversificados e com comércio intenso pode dar lugar à grandes shoppings que porão abaixo a convivência dos pequenos empreendedores devido à ausência de zoneamento. Nem defendo isto, mas pode ocorrer, por que não? A esta altura tu deve estar pensando “o sujeito quer engessar toda a cidade...” Não. O zoneamento pode ser flexível e mutável como, na verdade, já é. E, mais do que isto, o zoneamento pode ser substituído por um tipo de legislação mais inteligente... Vejamos o caso dos condomínios: no caso de Jacobs, os passeios públicos, o espaço de convívio não é “socialismo”, mas uma necessidade do liberalismo (econômico), uma vez que só os espaços privados limitam o fluxo, o comercio e, por fim, a liberdade. Por isto, a ideia de que condomínios preencheriam a necessidade que um zoneamento se propõe me traz desconfiança. Não vejo a defesa dos condomínios como solução para acabar com o zoneamento, mas vejo sim, o zoneamento como podendo ser alterado e adequado às novas necessidades. Admito, no entanto, que o zoneamento possa ser substituído por uma legislação eficiente que impeça que externalidades negativas atinjam o interior do imóvel, mas isto vai depender de adaptações tecnológicas não totalmente disponíveis que não provoquem a poluição indesejada que atinge moradores estejam onde estiverem.

Grato pela atenção.


sexta-feira, junho 06, 2014

Falar sobre liberdade alheia é fácil



Difícil é se comprometer a respeitar a liberdade alheia.



Boas dicas, embora nada seja tão simples assim. Veja esta análise sobre The Gated City, de Ryan Avent:



"Cidadãos urbanos normalmente gostam não só de imóveis mais baratos mas dos atrativos e atributos de que uma cidade é feita: possibilidades de emprego, lazer, educação e serviços de todo tipo. No entanto, sempre que surge a oportunidade de trazer essas características para a cidade – construindo novas unidades para acomodar mais gente – aqueles que moram próximo dessas construções normalmente fazem o possível para impedir sua execução.
"A grande contribuição de Ryan Avent para a literatura de urbanismo com este pequeno livro (disponível apenas para Kindle) é mostrar como funciona o mercado imobiliário e quais os efeitos não intencionais de restrições de oferta à moradia. A ideia central é de que impedir a construção de mais unidades (ou “NIMBYism”, “Not in My BackYard”) torna as cidades cada vez mais parecidas com condomínios fechados, exclusiva à população de fora já que é impossível acomodar mais gente, uma “Cidade Cercada”, na tradução literal do título."

É lícito comprar um produto que passa a ser adulterado com o tempo sem que haja aviso prévio disto acontecer? Quando se compra um imóvel também se compra um lugar, com certas características garantidas por um zoneamento urbano. Se você está disposto a abrir mão disto em nome do desenvolvimento urbano, não reclame quando o som de uma casa notura ou cheiro de fritura do restaurante chinês que foram abertos ao lado de tua residência te invadirem os sentidos, pois é isto mesmo que se configura no limite da liberdade irrestrita ao ponto de suprimir a liberdade de não ser importunado pelas externalidades da vizinhança. Você está pronto para isto?
Cf.: rendering freedom: 5 livros para entender e amar cidades: O estudo de cidades – urbanismo - é uma área de crescente interesse pelo fato de sermos uma espécie cada vez mais urbana. A medida que se di...

domingo, maio 04, 2014

As 100 melhores cidades para investir no Brasil


As melhores cidades para negócios,
 de 30 de abril de 2014 é uma típica boa matéria da Revista Exame. Gostei particularmente da seção destinada a duas das cidades elencadas no ranking dos melhores destinos ao investimento, Rio das Ostras no Rio de Janeiro e Parauapebas no Pará. Antes de tudo, é bom que se frise de tratar de uma análise geral, isto é, não há um estudo detido por setor, que me levou a comprar a revista com a esperança de que encontrasse indicações de melhores centros para se investir em ensino, com cursos preparatórios (para concursos, vestibulares etc.). Os casos destas duas cidades, a do estado do RJ e do PA são sintomáticos de como decisões políticas e não, tendências econômicas já preestabelecidas podem traçar o futuro de uma cidade, a região que polariza e, por vezes, um estado inteiro. A cidade paraense vive com a renda gerada pela extração do minério de ferro pela Companhia Vale do Rio Doce (sim, aquela que, uma vez privatizada elevou sua participação, produtividade e competitividade globais) e que, se prevê estar apenas com mais duas décadas de matéria-prima abundante. Duas décadas... Pode parecer muito, quase uma geração inteira, mas é pouco se pensarmos nos investimentos necessários, a começar pela formação de mão de obra para diversificar a formação da riqueza local e regional. E o que está sendo feito? Absolutamente nada, além do que estou fazendo aqui: divagando. Quanto à cidade fluminense ocorre exatamente o oposto, a começar pelo investimento na faixa educacional mais importante, a do ensino básico. Consequentemente, enquanto a renda geral dos dois municípios aumentou (chegando a superar a da capital, no caso paraense), em uma delas, a renda dos mais pobres também cresceu acima da média nacional, que foi o caso de Rio das Ostras. Claro que nesta localidade, o impulso dependeu da captação dos royalties do petróleo que, por ser mais raro é também mais estratégico do que nossas abundantes reservas de minério de ferro. No entanto, nada mudaria substancialmente se este recurso não fosse bem aplicado. Administrativamente falando, Rio das Ostras é um caso raro, no qual apenas 30% do PIB da cidade é gasto com manutenção de servidores, enquanto que o limite dado por lei é de 60% e outros 20% são investidos no município. A cidade também foi uma das primeiras a criar seu Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano em 1999, com a particularidade de estabelecer uma zona especial para indústrias distante da orla turística. Bom senso básico ao procurar equilibrar uma atividade poluidora com o setor turístico, que nutre ojeriza a isto. Não precisou fomentar um conflito entre setores econômicos e, com a distância haverá tempo (este é outro desafio) para estabelecer planos de mitigação de externalidades negativas ambientais. Enquanto cresce (a população decuplicou em duas décadas), outro plano diretor é traçado para 2030. Quer dizer, bem ao contrário do que fazem outras municipalidades brasileiras, cujos planos de desenvolvimento urbanos servem para “tapar buracos” tentando, infrutiferamente, resolver problemas, o da cidade fluminense traça contornos para seu futuro.
E a cidade de Parauapebas? Nada disso nem daquilo, apenas ostenta uma posição entre as 100 mais violentas cidades do país. São 60,5 homicídios por 100.000 habitantes. Além do descaso que são sintomas comuns com a qualidade de vida da população: na já vergonhosa taxa de esgotamento sanitário brasileira, que é de 48%, Parauapebas não vai além de míseros 13%. Mas é a 2ª melhor cidade do Brasil com mais de 100.000 habitantes com potencial para receber novos investimentos. E aí eu te pergunto, isto vale à pena?! Tendo outras alternativas, alguém em sã consciência se mudaria para lá com seus filhos? Eu não.
Agora a cidade onde resido, Florianópolis. De cara, algo me chama atenção e não fecha o raciocínio... Se há 39% dos empregados com ensino superior, contra a média nacional de apenas 18%; 111 matrículas no ensino superior contra 37, respectivamente; mas, o crescimento do número de empresas é pouco mais da metade da média nacional de 20% e de empregos formais apenas 11%, também pouco mais da metade do país, como é que é “tão bom viver aqui”? Para onde estão indo estes trabalhadores que formam o “maior capital humano de uma cidade com mais 100.000 habitantes” no país? Por outro lado, os exemplos citados na seção, de profissionais que largaram seus locais de origem, em outras cidades do estado e, sobretudo, em outros estados são daqueles que pertencem ao topo da pirâmide de empregados qualificados, cujos salários, embora perfaçam metade do que poderiam obter fora, ainda assim são muito maiores do que os encontrados localmente. Ora, o que faz a capital catarinense parecer “tão boa” é mais um artifício temporário da demografia do que uma tendência de longo prazo. Assim como cidade teve um boom de desenvolvimento com a instalação de sedes de empresas estatais e universidades a partir dos anos 70, com o turismo nos anos 80 e permeando tudo isto com a venda de imóveis e terrenos (que ainda continua), a taxa de crescimento vegetativo é baixa (sendo complementada pela imigração), o que compõe, seletivamente, o quadro populacional sem miseráveis. Mas, eu duvido que isto se mantenha no longo prazo se não houver investimentos mais pesados, como faz Palhoça, cidade da área metropolitana. Vejam: o equilíbrio é a chave de tudo. Se investimentos exclusivos, sem preocupação com o desenvolvimento social, como o caso de Parauapebas criam uma bomba relógio, o caso florianopolitano apenas ruma à estagnação e, talvez, decadência. Afinal, melhor capital humano sem emprego dará em quê? 
Rio das Ostras leva a melhor, embora esteja em 16ª posição em um ranking de 100 cidades pesquisadas porque não vive do passado e elabora o 2º plano diretor; investe em setores industriais, embora valorize o turismo; depende da riqueza de um setor energético, mas elabora sua independência relativa do setor e harmoniza o desenvolvimento equilibrando educação com renda (embora ainda falhe na oferta de serviços de saúde). Se os dados colhidos pela Exame forem fiéis à realidade, esta é minha opção de cidade exemplar. Não apenas pela sua posição absoluta atual, que é apenas um flash da realidade, mas pelo filme todo, pois saiu de uma situação de penúria e avança econômica e socialmente. Não tem essa de que investir no setor econômico se dá em prejuízo do social, ou vice-versa. Isto é balela de esquerda, os dois setores são necessários, obviamente porque se complementam. Não há como ter uma boa mão de obra sem ensino e não há como ter saúde e educação sem geração de renda pelas empresas. Lições tão óbvias que não são ensinadas na maioria dos cursos de humanas do país devido à doutrinação ideológica rasteira e sofista.
Em tempo, não podemos nos esquecer ainda da boa gestão pública de Rio das Ostras, fundamental, como conter gastos com pessoal sem transformar o setor público em “cabides de empregos”, para tristeza dos sindicatos.

Rio das Ostras... Quero conhecer.

(...)

terça-feira, fevereiro 25, 2014

O que falta ao Brasil - 1


Imagem: e-farsas.com
A imagem acima foi tirada em Manila, Filipinas em 2012 quando da passagem do tufão Saola. O que parece ter sido uma brincadeira tem algo de revelador, a infra-estrutura para evitar inundações é deficitária em grandes cidades ou em áreas sujeitas à fortes chuvas, como estamos acostumados nas regiões litorâneas brasileiras. Embora sua solução seja difícil, não é algo impossível, sobretudo se pensarmos na melhor localização urbana e coibição da ocupação em áreas de risco. Na imagem, ainda temos uma lan house, que talvez nem estivesse funcionando, mas seus equipamentos estão lá. Como esta parafernália eletrônica pode ser montada em comunidades pobres (eu estou intuindo que seja uma área pobre, como tantas assim no Brasil) e ter seus equipamentos, conexões e consumo do serviço em ordem, enquanto que uma infra-estrutura urbana se mostra tão difícil de ser sequer planejada, quando mais implantada? Para entender a lógica deste processo, eu sugiro que assistam à concisa apresentação de Paul Romer. É um vídeo inspirador. Realmente, muito, muito bom.

A idéia radical de Paul Romer: Cidades-Manual http://on.ted.com/f044y #TED



Agora vejamos como uma conhecida teórica do urbanismo lida com a questão:

A situação da mobilidade nas cidades brasileiras assemelha-se muito à de Los Angeles, descrita por Mike Davis. Nas nossas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana, como o tema dos megaeventos e suas lógicas de gentrificação e limpeza social. As palavras de Ermínia Maricato – “os capitais se assanham na pilhagem dos fundos públicos deixando inúmeros elefantes brancos para trás” – me lembraram um cartaz que vi em uma das passeatas: “Quando meu filho ficar doente vou levá-lo ao estádio”. A questão urbana e, particularmente, a agenda da reforma urbana, constitutiva da pauta das lutas sociais e fragilmente experimentada em esferas municipais nos anos 1980 e início dos anos 1990, foram abandonadas pelo poder político dominante no país, em todas as esferas. Isso se deu em prol de uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/Olimpíadas é a expressão mais recente… e radical.[1]

O que chamam de “modelo de desenvolvimento urbano neoliberal” se assemelha mais a espasmos de liberalização, que na verdade é mais periclitante que cíclico. Uma das razões é a necessidade econômica de gerar valor, o que o intervencionismo estatal acaba abolindo ou secando a fonte com o passar do tempo. A excessiva atuação estatal é a norma, nossa constante em diversas nações do mundo e na América Latina em particular. Enxergar uma “guinada neoliberal” a partir dos anos 90 é criar um espantalho para iludir cidadãos acerca de nossos problemas, que residem exatamente no mau uso da máquina pública. Apesar das reformas propostas no período da gestão FHC terem sido tímidas e pontuais, sucessivas análises feitas por socialistas e assemelhados têm afirmado que os problemas de nossa economia (assim como as crises mundiais) foram conseqüência da globalização mundial e opção neoliberal de vários governos.[2]
E quais seriam estas “estratégias keynesianas de geração de emprego”? Por acaso estamos assistindo a uma intervenção cada vez maior do estado na economia na produção de setores básicos? Na execução de infraestrutura? Na criação de mecanismos de promoção social via geração de emprego?[3] Nem sequer temos uma orientação de investimentos setorial. Estas são algumas características mínimas para definirmos a atuação estatal nacional, sobretudo em âmbito urbano como keynesianas e, sinceramente, não é o que se observa. Intervencionismo? Sim, ocorre. Estatismo, burocratização? Sim, mas nada que se configure como um planejamento centralizado dotado de um mínimo de racionalidade visando o desenvolvimento a longo prazo, mesmo com possibilidades de déficits públicos e alta inflação que o próprio Keynes subestimara.[4]





[1] “Cidades Rebeldes.” Blog da Raquel Rolnik. Disponível em: <http://raquelrolnik.wordpress.com/2013/08/06/cidades-rebeldes/>. Acesso em: 12 fev. 14.
[2] “A maré estatista na América Latina e a Teoria do Intervencionismo.” Instituto Ludwig Von Mises Brasil. Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1715>. Acesso em: 22 fev. 14.
[3] A única exceção é a redistribuição de renda via programas federais, mas que não tem o emprego como objetivo explícito.
[4] BRASSEUL, Jacques. História Econômica do Mundo: das origens aos subprimes. Lisboa, Edições Texto & Grafia, Ltda., 2012, p. 388-389.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Geofactualidades: Agricultura vertical em Singapura


Perfeito: Geofactualidades: Agricultura vertical em Singapura. Vejam a economia de espaço, aproveitamento de energia e qualidade dos produtos. Realmente, cada vez mais, creio que o futuro está reservado às "cidades-estado", como é o país chamado Singapura. Claro que há aí uma boa dose de wishful thinking e utopia de minha parte, pois o futuro também é de caos no horizonte, mas o futuro que perdurará e trará esperança à humanidade é, como sempre foi, aquele calcado na ciência, tecnologia, transparência e agora, uma administração mais próxima ao cidadão, dando um caráter de cidade ao lugar em que se vive. Divagações a parte vejam o vídeo e imaginem uma rede de cidades onde os futuros mapas não representaram espaços terrestres divididos por linhas grossas ou marcas d'água coloridas e sim pontos ou manchas de maior extensão ligados entre si por linhas de fluxos cada vez mais intensos. Como processos intermediários, federações se formarão para se unir mais tarde deixando os estados-nações na memória e nos museus das realizações humanas.

segunda-feira, março 04, 2013

A destruição de Detroit


Detroit parece uma cidade brasileira: com serviços públicos deficitários, orçamento público na mesma situação, deterioração urbana generalizada, desemprego em alta (18%), índice de criminalidade 10 vezes maior do que N. York etc., ainda assim(!) mantém o valor inflado de suas propriedades. Vai entender... Como funciona esta inércia?

Cf.: 
How the Democrats Destroyed Detroit

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Só a natureza, esqueça a cidade

Eh eh, excelente. O caso é o mesmíssimo acerca de Florianópolis, cujos bairros mais afastados são simplesmente ignorados do turismo e marketing. Agora, o que eu me surpreendo é o seguinte, com tudo isto que temos, geograficamente falando, por que é tão difícil civilizar-se, compreendendo este verbo como relacionado à cidade mesmo? Não é culpa ou responsabilidade exclusiva de governos, não. Nosso mercado, e isto inclui cidadãos, consumidores etc. simplesmente não liga. Tome a Lagoa da Conceição em Florianópolis como exemplo: linda, mas cada vez mais não passa de um esgoto a céu aberto. Ou seja, deliberadamente optamos por um sentido, a visão, em detrimento explícito de outro, o olfato. Neste sentido, somos felizes enquanto brasileiros porque limitados sensorialmente. 

Belo blog!

Pedra do Leme: Elizabeth Bishop - Rio de Janeiro, bonito só por natureza

sexta-feira, outubro 26, 2012

Meu querido ofendículo

http://forum.darkside.com.br/vb/showthread.php?t=49945
Voltando à questão da diminuição da segurança e vida urbana por causa dos muros, estatísticas recentes me levam a concordar com meus colegas arquitetos e urbanistas, porém especificamente quando quando se trata de centros urbanos que permitem circulação de pedestres e uma certa "vida urbana". Tanto as observações de Jane Jacobs no seu célebre "Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas" como estudos da Polícia Militar do Paraná conduzidos pelo comandante Roberson Bondaruk chegam à mesma conclusão: “A visibilidade é a melhor arma contra o crime. Tem um princípio que se chama vigilância natural”. Claro que câmeras de segurança, boa iluminação e uma portaria 24h também são outras medidas importantes, mas Roberson aponta: "Entre ter uma casa cercada por grades ou muros, a casa sem grades e nem muros acaba sendo mais segura. Uma casa que não tem muros, não tem grades cria essa barreira psicológica que é mais efetiva do que a barreira física. O que cria na cabeça do criminoso uma dúvida: será que tem um alarme, será que tem um sensor de movimento? Na dúvida, ele prefere assaltar outra casa”.  
Cf.: rendering freedom: Por que existem condomínios, quando que eles são p...: Legislações que estabelecem bairros estritamente residenciais de baixa densidade com recuos de ajardinamento, com terrenos grandes sem possi...
Gostei do texto, mas discordo em um ponto: cercas são sim mais eficazes que muros, justamente porque permitem a visualização e vigilância sem a mesma exposição da ausência completa de barreiras. Um ladrão pode achar que há uma armadilha em uma casa totalmente desprotegida, mas é só porque é algo novo, inédito na região, ao passo que quando todos ou a maioria adotar este padrão, logo deixará de causar dúvida e os assaltos ressurgirão. Sou totalmente favorável à visualização/vigilância maior, mas isto também implica no passeio público ser frequentado e isto, por sua vez, de segurança, como rondas policiais frequentes. Qualquer sociedade precisa de métodos preventivos de segurança, isto é bem sabido e consensual, mas aparentemente só lembramos disto e nos esquecemos da necessária e igualmente importante repressão, pré-condição para eliminação e educação de elementos desviantes. Quanto mais recursos para dissuadir o crime tivermos em mãos, melhor.

Quanto ao texto, vai muito além do excerto que me chamou atenção e ensejou este comentário.

sexta-feira, setembro 21, 2012

O papel do bairro na civilidade / The role of the district for civility

Adultos atentos enquanto crianças brincamFoto: Cynthia Vanzella, Diário Gaúcho.

         Estamos prestes a mais uma eleição municipal nas cidades brasileiras e me pergunto como as pessoas podem esperar que um prefeito resolva integralmente seus “problemas urbanos”. Se os gestores urbanos eleitos fizessem o mínimo, i.e., administrar com idoneidade e não deixar rombos no orçamento já seria um bom começo. Mas daí surge aquele sentimento de impotência que nos diz, para que serve então um partido e suas plataformas de governo se não podemos eleger quem execute reformas e mudanças significativas nas cidades? Bem, acontece que simplesmente atribuir tudo isto a um executivo e um corpo de legisladores que se notabiliza por criar nomes de ruas é querer “tirar leite de pedra.”

quinta-feira, abril 05, 2012

No longo prazo, a vida melhora / In the long run, life improves

http://www.theatlantic.com/business/archive/2012/04/food-is-cheap/255516/
No artigo Food Is Cheap - The Atlantic são avaliados alguns itens básicos de consumo nos EUA e fica patente que no vestuário e, sobretudo, alimento, a busca por produtividade só facilitou a vida do cidadão ao diminuir seus custos e, portanto, seus preços. Por sua vez, as moradias e transporte se tornaram mais caras, o que coaduna com a ideia do crescimento urbano e encarecimento do espaço construído, maior procura, preços em ascensão. 

sexta-feira, março 23, 2012

O porque da insegurança nos bairros

Isto que a Jane Jacobs fala, eu vivi claramente desde meus tempos de criança em Porto Alegre, RS. Antigamente, as pessoas ficavam até às 20h na rua, em suas calçadas, com cadeirinhas conversando. E, aos poucos, o espaço público passou a ser esvaziado, com cada vez mais gente se refugiando em suas salas em frente aos televisores. Com isto a vigilância doméstica diminuiu e o crime, como senso de oportunidade -- a ocasião faz o ladrão -- passou a aumentar. 
Conferir: Trayvon Martin killing: George Zimmerman was part of a neighborhood watch. Do those actually decrease crime? - Slate Magazine

Qual o problema com os carros?

Eles não são o problema, são a solução perante um problema que as pessoas não definem, a cidade que querem. Sobre:
SP: 1/4 da área construída é só para carros - Cidade - Jornal da Tarde
Florianópolis também tem uma grande área destinada a estacionamentos, a vegetação ruderal. Se São Paulo tem tanto assim deve ser porque precisa. Agora, se há alternativa a isto é que é a questão, mas minha intuição diz que a cidade não seria tão grande daí. Não seria São Paulo como conhecemos. 
Acho que a alta do preço do petróleo contribuirá mais para uma transformação paisagística do que todo argumento de planejamento.

domingo, janeiro 01, 2012

Ghost Cities - China


Super intrigante, mas algo não fecha na pizza, falta um pedaço. Olha, se para manter o PIB artificialmente alto, o governo chinês está construindo imóveis que não têm comprador, de onde vem o dinheiro, então? De algum lugar tem que vir! Se isto for verdadeiro, um dia os imóveis vão ter que atingir seu valor real, de mercado, com a queda de seus preços. Do contrário, não se sustenta. 


Aqui, uma versão legendada:

quarta-feira, outubro 05, 2011

O alto custo da ausência moral




Nós, enquanto brasileiros, de diferentes estratos sociais, endossamos o roubo, a dilapidação bárbara da cidade, o jeitinho, a malandragem e o “dane-se tudo por que não é meu”.
Recentemente, Janer Cristaldo nos brindou com um texto mostrando o maniqueísmo de filmagens acerca da vida dos pingüins. Se existe, por um lado, a tentativa de antropomorfização de animais em ‘documentários’, a animalização de seres humanos ao serem tratados como gado, já é um projeto bem sucedido. E, ainda diria que de forma muito primitiva, pois há um bom tempo existem disciplinas nos cursos de zootecnia prevendo bom tratamento aos animais, uma vez que “rendem mais” engordando e aumentando a produtividade. Portanto, diferentemente do ideal de pingüins nas lentes do cineasta francês, pessoas são animalizadas nos meios de transporte e passeios públicos de São Paulo.