sábado, março 14, 2020

O avanço do coronavírus

Uma AULA:



A viagem de Zelensky à Omã

Hotel RitzCarlton Al Bustan Palace, onde o presidente Zelensky hospedouse com a família.

No início de janeiro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e sua família chegaram a Omã de férias, onde se hospedaram no Hotel Ritz-Carlton Al Bustan Palace, na costa do Golfo de Omã, perto da capital, Mascate. O mandatário também aproveitou a ocasião para algumas reuniões de cúpula, onde encontrou o Ministro das Relações Exteriores do Sultanato de Omã, Yusuf bin Alawi bin Abdullah. As pautas se concentraram, oficialmente, em:
– comércio bilateral;
– cooperação econômica;
– relações diplomáticas;
– investimentos na Ucrânia.
Negóciossegundo o governo
Em 2018, a Ucrânia exportou 59,12 milhões de dólares* para o Omã e importou pouco mais de 7 milhões de dólares**, mas o crescimento do comércio entre os dois países, que aumentou mais de 10% no ano passado, chegando aos 80 milhões de dólares***, levou Zelensky a propor investimentos diretos de Omã, sobretudo em setores como energia e indústria pesada, construção, agricultura, tecnologia da informação, infraestrutura, medicina e turismo.
O atual nível de cooperação bilateral ainda não corresponde ao potencial disponível em comparação com o crescimento dinâmico das relações comerciais. Zelensky também sugeriu aos parceiros de Omã que participassem de uma campanha de privatização em larga escala na Ucrânia. Na reunião concordaram em continuar a prática dos fóruns de negócios ucraniano-omani, com a participação de dezenas de empresários de Omã, relatou o Gabinete da Presidência da Ucrânia.
Yusuf bin Alawi bin AbdullahMinistro das Relações Exteriores do Sultanato de Omãabril de 2004.
Falta de transparência
Destaca-se sobre esta viagem que nenhum anúncio oficial fora feito sobre a visita de Zelensky a Omã. Após suas férias de Ano Novo na residência presidencial de Synyohora, nos Montes Cárpatos, Zelensky retornou a Kiev e depois viajou, confidencialmente, em um voo regular, com recursos próprios, para Omã.
Suspeitas foram levantadas sobre o verdadeiro objetivo desta viagem, de que tenha sido para encontrar um alto representante do governo russo, envolvendo questões de segurança entre os dois países. Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, o segundo nome em importância depois do próprio Vladimir Putin, também teria chegado em Omã, no dia 8 de janeiro, a 1 hora da manhã, enquanto Zelensky, 24 horas depois.
Embora não haja muitas referências sobre isso, a sugestão foi feita por jornalistas investigativos da Skhemy, ligados a Radio Free Europe e a Radio Liberty ( RFE/RL), financiadas pelos EUA. Se a hipótese desta reunião extraoficial se configurar verdadeira, há motivo para impeachment do Presidente ucraniano, mas, por enquanto, tudo o que se tem são suspeitas: “Um jato particular pertencente ao amigo ucraniano de Putin, Viktor Medvedchuk, teve voos entre Mascate, Omã e Moscou, Rússia, de 8 a 9 de janeiro, antes do final da visita de Zelensky. Um avião particular que trouxe Zelensky de volta à Ucrânia também chegou a Omã, com uma escala em Moscou. No entanto, não havia evidências diretas para provar esta versão e nenhuma informação estava disponível sobre os passageiros dos voos. Além disso, não havia e ainda não há provas sólidas de que Zelensky tenha tido outras reuniões em Omã, exceto as mencionadas oficialmente”.
O governo ucraniano negou veemente tal encontro do Presidente com o Secretário russo. E, diante dos fatos, ameaçou acionar judicialmente quem insistir em fazer tais ilações. No caso da denúncia já feita pelo site Skhemy, o governo ucraniano aguarda um pedido de desculpas antes de tomar as medidas cabíveis, ao que os jornalistas respondem que estão “aguardando este documento”.
Nikolai PatrushevSecretário do Conselho de Segurança da Rússia, e John R. Bolton, exConselheiro de Segurança Nacional dos EUAem Genebra2018.
Desgaste
Caso verdadeiras tais suspeitas sobre a sua viagem, Zelensky teria poucas chances de ser impichado devido à coalizão pró-governo e a maioria das cadeiras de seu Partido, o Servo do Povo, que domina a Câmara. De qualquer modo, a falta de transparência das atividades presidenciais no país árabe ensejou que grupos influentes, como o Movimento de Resistência à Capitulação, solicitassem um relatório detalhado da estada do Presidente em Omã.
Também, uma petição apresentada pelo Deputado de oposição, do partido Solidariedade EuropeiaOleksiy Honcharenko, levou a Agência Nacional de Prevenção da Corrupção a uma investigação sobre declarações financeiras públicas do Presidente, atualizando-a com gastos na visita a Omã. O Deputado também iniciou a criação de uma Comissão de Investigação na Verkhovna Rada****, que poderá levar à confirmação ou refutação das alegações feitas pelos jornalistas da Skhemy.
Se o encontro com o Secretário do Conselho de Segurança Russo for confirmado, Zelensky provavelmente será acusado de traição, afirmou o Deputado, e, muito embora o impeachment não seja uma realidade palpável, o desgaste político pode ser enorme. O fato é que tudo isso poderia ter sido evitado, caso houvesse maior transparência por parte da organização da agenda presidencial, pois, nesses tempos de rápida circulação de informações, verídicas ou falsas, todo cuidado necessário para evitar crises desnecessárias é visto como bem-vindo.
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Notas:
*** Em torno de 32,76 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020. *** Próximos de 374,47 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020. Aproximadamente 276,73 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020.
**** O Verkhovna(Верхо́вна Ра́да Украї́ни, em ucraniano) é o poder legislativo unicameral da Ucrânia, composto por 450 cadeiras parlamentares preenchidas através do sufrágio universal. Trata-se do único órgão legislativo nacional, situado na capital, Kiev.
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Fontes das Imagens:
Imagem 1” Carlton Al Bustan Palace, onde o presidente Zelensky hospedouse com a família” ( Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Al_Bustan_Palace_Hotel_Aerial.jpg
Imagem 2 Yusuf bin Alawi bin AbdullahMinistro das Relações Exteriores do Sultanato de Omãabril de 2004” ( Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Yusuf_bin_Alawi_bin_Abdullah,_2004.jpg
Imagem 3 Nikolai PatrushevSecretário do Conselho de Segurança da Rússia, e John R. Bolton, exConselheiro de Segurança Nacional dos EUAem Genebra2018” ( Fonte): https://www.flickr.com/photos/us-mission/42406161650

Originally published at https://ceiri.news on March 12, 2020.

Vamos falar do Corona (#Pirula 328)

sexta-feira, março 13, 2020

Fabio Ostermann é censurado em programa e ofendido por radialista

Fábio Ostermann, deputado estadual, RS, pelo partido Novo foi convidado a parcipar de um programa na Radio Bandeirantes, em Porto Alegre, quando um jornalista, Milton Cardoso, o interrompeu, aos berros por contrariar sua posição a favor da liberação das drogas.
Esta questão é complexa, mas a princípio, eu concordo com o deputado, embora haja vários adendos que eu gostaria de adicionar, como a regulamentação pós-liberação/legalização que devem ser tomadas, quais tipos de drogas, idade mínima, locais de compra e consumo etc. Mas, que seja, o fato é que qualquer evolução do debate se torna impossível com o ungulado de microfone que dirigia o programa de entrevista.
Eu nunca ouvi falar naquele imbecil, mas é mais uma prova de que essa geração pré-Baby Boom já não tem mais nada a ensinar aos jovens. Admiro a compostura do deputado, que eu dificilmente conseguiria manter, no que desceria fácil ao nível do QI de psitacídeo que fazia as vezes de entrevistador.
Descnecessário que eu reproduza as ofensas proferidas ao deputado, o vídeo já o faz, mas este sujeito, Milton, um monstro imbecil de cabelhos brancos, não honra a profissão, não honra seu status senil, geralmente associado ao sábio e dseonra a democracia, enquanto método de expsição de diferenças e condução de soluções. Para resumir, uma besta que se cair no chão é capaz de mascar oas ervas daninhas que crecem entre os antigos paralelepípedos das ruas porto-alegrenses.
Sugiro um boicote ao seu programa para quem sabe, a direção da radio coloque o infeliz em órbita, com um belo impulso naquilo que tomou o lugar do cérebro do jornalista e por onde exala algo tão fétido quanto suas palavras.
13 ma. 2020



quarta-feira, março 11, 2020

Florianópolis 0 X 10 Jurerê Internacional (II)


Outro dia, um amigo me cobrou um detalhe, que realmente fez falta no meu texto sobre Florianópolis e seu bairro, Jurerê Internacional, o acesso ao mesmo, que vive entupido por filas de carros durante a temporada de verão (e mais até). Parece-me um efeito normal de um bairro que funciona como uma ilha de bem-estar em meio a uma cidade crescentemente caótica, mas aceitar o caos como normalidade é que é a verdadeira causa de nossas mazelas sociais: o costume.

Então, para procurar um caminho para as soluções temos que nos desacostumar e como tal, temos que ver a cidade como algo diferente do que sempre vemos, uma paisagem urbana imutável. Não, a cidade é tudo menos isso, ela é feita para mudar, ou melhor, a cidade é feita de mudanças. Que me perdoem os saudosistas da velha Florianópolis, dos poetas nativos, dos manés, mas isso tudo atrasa a cidade, assim como em Porto Alegre, cidade onde me criei, a cultura do “patrimônio público” é outra chaga que apodrece as instituições e leva a cidade a sua estagnação econômica e, consequentemente, decadência social.
Vejamos, a cidade é produto de demandas, ofertas, produções e imaginação. Imaginemos então, a cidade como um mercado de bens e serviços. Em determinado bairro, no caso, o Jurerê Internacional, melhores serviços no seu todo são oferecidos à população, no que se formam filas, exatamente como ocorreria em um supermercado com produtos de melhor qualidade e preço mais em conta. Logo, os outros supermercados e mercadinhos da região e bairros vizinhos acabam limitando sua clientela àqueles consumidores que não querem se deslocar e se conformam em pagar mais caro por produtos piores só para não ter um transtorno de perder tempo, o que, diga-se de passagem, também é outra commodity cada vez mais importante nos dias de hoje. Você e eu até cogitamos em comprar aquela carne mais dura, um arroz de pior qualidade (aquela desgraça de arroz parboilizado) ou um erva-mate seca e sem cor para não ter que ficar mais de uma hora no carro. O bom se tornou dispendioso e nos agregou um custo maior.
Este custo maior se transforma em um preço, quanto mais gente, menor (proporcionalmente) a oferta e, portanto, maior o valor dispendido para obter aqueles bens. Os supermercados se tornam caros, os alugueis se tornam caros, os passeios, as baladas, as roupas, as compras e consumo de ocasião, um simples cachorro-quente ou churros viram “produtos gourmet” e o bairro fica “gentrificado”,[1] ou seja, o bairro se tornou um bairro chique, caro pra dedéu. Isto vai levar a busca de alternativas (outros bairros, geralmente vizinhos) e a necessária descentralização. A alta dos preços empurrou parte das pessoas para fora dos limites daquele bairro.
Mas um bairro e sua terra não são exatamente produtos da mesma espécie que os encontrados nas prateleiras dos supermercados, eles têm maior ingerência de leis municipais e urbanas. Em parte, são propriedade pública, então, comparemos com serviços públicos como, p.ex., a saúde. Em Florianópolis, capital tida como referência em atendimento público de saúde, há postos de saúde que são muito melhor preparados do que outros. Aqui, é público e notório que certos postos de saúde e policlínicas (centros de atendimento maiores e mais diversificados) são mais requeridos, mas como os usuários (clientes divididos pelo Sistema Único de Saúde, SUS) são “regionalizados”, i.e., divididos por regiões administrativas e obrigados a frequentar os postos e policlínicas de sua região, não se tem o livre-arbítrio de escolher o melhor atendimento. Eu, morador do Rio Vermelho, sou obrigado a buscar atendimento no posto do meu bairro, reconhecido pelos meus vizinhos como de péssima qualidade. E eu entendo o porquê da separação/regionalização: se liberassem todos para ir para os melhores postos, estes viveriam saturados, sempre.
O que faltaria para que descentralizassem, naturalmente? O que existe nos bairros que levam as pessoas a vazarem fora: um sistema de preços. Sei, sei, um serviço público não pode ter isto porque daí não seria público e sim, privado. Certo? Mais ou menos, isto pode ser adaptado de outra forma, com os pacientes sendo postos em listas de espera para serem atendidos nas melhores unidades. E, com cotas de tempo previamente estipuladas de acordo com metas, para se evitar assim superlotação nos postos com saturação de usuários pela lentidão nos atendimentos. Em duas palavras: monitoramento e fiscalização.
Bom, o que isto tem a ver com o engarrafamento na entrada do Jurerê Internacional? Preste atenção: este bairro NÃO TEM SOLUÇÃO SE PENSADO ISOLADAMENTE. Ele só irá melhorar se houver maior descentralização e isto ocorrerá com monitoramento e fiscalização de porque outros bairros não executam suas tarefas, através das superintendências e poder público municipal. Mas quais seriam essas tarefas? Pense que a cobrança (e pressão) sobre as piores unidades de saúde (postos e policlínicas) levará à melhoria do sistema com uma espécie de competição interna entre elas, cuja consequência deverá ser a maior descentralização interna ao serviço municipal e, ANALOGAMENTE, o mesmo deve ocorrer entre os bairros, na medida em que a melhoria dos serviços urbanos vizinhos leva a descentralização territorial da demanda pelo espaço urbano.
Isto parece ficção científica quando não imaginamos ser possível adaptar o princípio do sistema de preços do mercado privado para outra forma de avaliação do sistema público. E os preços são, antes de tudo, indicadores de preferência: preços maiores significam que são preferidos em detrimento de outros, que irão indicar isto através de preços menores. É possível a equivalência entre público e privado sim, só o executor é que é outro, ao invés da Dona Fulana indo com sua sacolinha na feira, é um técnico de formação na área averiguando, objetivamente, porque um posto X e tão mais lerdo e menos procurado do que Y. Algo como: “O que acontece lá? Por que não funciona? Vamos investigar.” Esses fiscais também trabalhariam em regime de produtividade, assim como policiais que ganham pontos por crimes resolvidos. Se isso não existe aqui, o problema é outro, porque temos que adaptar este princípio de operação e criar um modelo.
E agora eu me pergunto, se podemos fazer com um sistema de saúde municipal, por que também não com a segurança pública dos bairros? Com os arruamentos e calçamentos? Com a iluminação pública? Com o esgotamento sanitário? Com as escolas? Bom… Levaria anos, mas se eu tivesse que começar, faria duas coisas: reforma administrativa com perda de privilégios frente aos trabalhadores da iniciativa privada e o estabelecimento de critérios objetivos ao conhecimento de todos (servidores e usuários) de como o sistema deve funcionar.
Isso, pra começo de conversa. Mas, se não for por aí taca-lhe outro viaduto pro Jurerê Internacional e empurremos o problema com a barriga pra piorar tudo de novo daqui 5 ou 6 anos. Afinal, não é assim que se faz? Não é assim que sempre se fez?
Anselmo Heidrich
11 mar. 20

[1] Gentrificação “é o fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local” (Wikipédia). A origem do termo deriva da palavra gentry, pessoas de boa posição social, especificamente (no Reino Unido), a classe de pessoas logo abaixo da nobreza em posição e herança de berço, membro de uma espécie de pequena nobreza.


domingo, março 01, 2020

Como nossas cidades crescem sem o direito à propriedade privada


Anselmo HeidrichProfessor de Geografia formado pela UFRGS e Mestre em Geografia Humana pela USP. Coautor do livro Não Culpe o Capitalismo.

O freio de mão puxado da burocracia nas metrópoles

Quem são os teóricos de nossas cidades?