segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Bolsonaro no Japão


Jair M. Bolsonaro deveria ir para a China também. Já que a estratégia declarada de sua recente visita ao Japão é uma tour para aprender sobre a importância da tecnologia a ser ensinada no Brasil através de convênios com a potência oriental, assim como com Taiwan e Coreia do Sul, por que diabos também não com a China? Por que lá há um partido comunista no poder? Sinceramente, a economia que importa no mundo tem e terá relações com a China. Mesmo um discurso de palanque eleitoral como o de Trump viu que a realidade não é como soam palavras irresponsáveis. A China é a 2ª maior economia do mundo e só um ignorante para desprezá-la. Agora, não acredito que seja ignorância no caso de Bolsonaro. Ele é um político e estrategista, assessorado por estrategistas, aconselhado por estrategistas que podem estar errados, como eu acredito que estão, mas definitivamente não é questão de ignorar os fatos e sim acreditar numa falha estratégia eleitoral com uma base teórica equivocada. Isto é o que os têm orientado. Vamos aos fatos:
  1. Não é combatendo comerciantes, importadores e exportadores na relação Brasil-China que vai se derrubar o Partido Comunista Chinês (PCCh) e sim, caso tal isolamento fosse compartilhado por vários países no mundo, o controle político centralizado é que se voltará para uma economia centralizada, i.e., socialista. Lembre-se que estas ideologias coletivistas se nutrem da pobreza;
  1. A compra de terras brasileiras pelos chineses que Bolsonaro alega ser “uma perda de nossa segurança alimentar” reside num equívoco: (a) chineses não ficarão gastando para não produzir, esperando valorização de terras em regiões ermas; (b) produzindo, o aumento dos itens disponíveis tenderá a reduzir seus preços; (c) caso a maior parte seja exportada, empregos gerados na cadeia produtiva aumentarão a renda local e novos itens serão importados; (d) gerando demanda e produção voltada para o mercado interno; (e) cujo aumento da produtividade necessitará do aumento de insumos que criará novos empregos e assim e assim e assim e assim por diante.
É simplesmente um contrassenso querer se opor ao socialismo e o comunismo e defender uma política protecionista chamada eufemisticamente de “nacionalista”. Não há nada de nacionalista em prejudicar o comércio e liberdade do cidadão brasileiro. Isso é o que faz uma CUT ao defender o monopólio (real) da Petrobras, o que faz um PT da vida e outros partidos dirigidos por insanos que são contra a diversidade e competição entre empresas. Lembre-se, “o capital não tem pátria”, então que venha o Capital! Desde que, é claro, ele se submeta a nossa legislação, muito embora este é o ponto: nossa legislação comercial e tributária tenha que ser, urgentemente, revista. Se não, ninguém vai querer investir aqui, nem Japão, nem Coreia, nem China. Aliás, empresários destes grupos são constantemente sondados por vários governos e candidatos e refugam devido a nossa insegurança jurídica, histórico, tributação e infraestrutura vergonhosas. Chega de discurso! Business is business! Alguém da equipe do Bolsonaro, pelamordedeus! Eu quero votar no cara, mas ajudem-no, pois desse jeito, votos pragmáticos como o meu serão perdidos e no fim dessa toada restarão os fanáticos de Esquerda acusando os “bolsominions” e estes vice-versa. É preciso uma pitada de racionalidade nisto tudo. Já fiz uma análise contemporizando os erros e acertos de Bolsonaro (leia aqui) avaliando bem sua visão de bom senso sobre segurança e educação e confesso que ele melhorou na visão econômica, com a possível indicação de Paulo Guedes para Ministro da Fazenda, mas este cacoete paranoico em relação à China não tem sentido.
E não pensem que adular os japoneses falando mal da China, país com quem tiveram vários conflitos ao longo da História vai render muitos votos da comunidade japonesa no Brasil, a maior do mundo fora do Japão. Um ambiente de estabilidade e segurança para todos os povos é o mais importante. Incentivos à migração de mão de obra qualificada e trabalhadora sem chance de conflitos culturais sérios e seus capitais só contribuirão ao nosso desenvolvimento. E acordem! Digam-me qual é a diferença de demonizar a China do que faz o déspota venezuelano, Nicolás Maduro em relação aos EUA? Percebem que se trata do mesmo equívoco?
Anselmo Heidrich

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Um erro sobre a Austrália e a demissão de um incompetente arrogante

No mapa acima, a Austrália dentro do continente chamado de Oceania.

Cara… Nem tudo está perdido. Um estudante de uma universidade americana corrigiu um professor sobre uma questão banal de Geografia. Em um trabalho de Sociologia, sobre mídias, o estudante comparou a Austrália com os EUA, ao que o ignorante com diploma tentou corrigi-lo dizendo que “a Austrália não é um país, mas um continente”. Irritado, o aluno lhe enviou a URL do site oficial do governo australiano provando que se tratava de um país, ao que o mais que ignorante, preguiçoso e injusto instrutor universitário, vulto ‘professor’ aumentou sua nota apenas um pouco mais. Mas não ficou por isso, a direção da universidade demitiu o sedizente professor e ainda pediu desculpas ao estudante.
professor chama austrália de continente
professor chama austrália de continente n
Que fique claro aqui, não se trata de que ninguém possa errar. Todos nós, sem exceção erramos. A questão é não ter admitido o erro e, além disso fazer uso de sua posição para cometer uma injustiça.
Como se não bastasse, o(a) professor(a) ainda mandou o aluno se certificar se o site era sobre o país Austrália ou sobre o continente.
professor chama austrália de continente n'
Sim, algumas pessoas se referem à Austrália como “continente”, não se trata de um erro grotesco. O próprio Brasil é chamado, informalmente, de “país-continente” e continentes são via de regra categorias com definições bastante flexíveis, alguns atlas consideram a América como um continente, outros mais raros como dois, separados pelo istmo do Panamá, assim como a Ásia é separada da África por outro, em Suez. Agora, como dissemos, o grotesco disso tudo foi ter punido o estudante por um detalhe onde o profissional contratado pela universidade que errou.
A arrogância do professor pode ter sido “continental”, mas a correção do aluno foi precisa como o uso de latitude e longitude na busca pela verdade.
*****
É isso pessoal… Assumamos nossos pequenos erros cotidianos e façamos uma auto-crítica constante. Quem sabe assim, menos pessoas cometam atrocidades intelectuais como continuar insistindo em votar em reconhecidos corruptos e apoiar legendas de agremiações políticas que não passam de máfias…
Anselmo Heidrich


segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Evolução do IDH e Responsabilidade Política

Foto: viananegociosimobiliarios

Eu observo estatísticas com frequência desde os anos 90. Quando escrevi um artigo que também tratava do desempenho da reforma agrária no país, obtive dados sobre o período FHC, mas no governo Lula, mais nada era postado no site do INCRA. O que quer que eu pense sobre os demais setores? O PT, na sua sanha anti-republicana aparelhou o estado brasileiro tentando a todo custo corromper suas instituições. Não digo nada de novo.
Aliás é fácil nesta selva de informações encontrarmos muita fake news ou matérias mal apuradas. Basta uma pequena busca para ver que o Brasil despencou no índice de desigualdade (Gini) em 2017, consequência óbvia do governo anterior, já que isto não acontece da noite pro dia.
Agora, o IDH do país não independe, obviamente, do que ocorre em seus municípios. Vejamos então como a coisa realmente funciona:
Nesta matéria há uma avaliação do desempenho positivo do IDH dos municípios (IDH-M) em 20 anos. Isto, VINTE ANOS! Que começou bem antes dos governos petistas. Agora, vamos apurar melhor esta análise… Veja o mapa que se segue:
idhm_brasil_620_v2
Duas conclusões se depreendem desta matéria, uma relativa ao tempo, outra relativa ao espaço. O mapa com baixíssimo índice de desenvolvimento humano é de 1991 e o primeiro mandato de FHC começa em 1995. Logo, não é preciso ser um Einstein para perceber que foi no governo do psdbista que houve uma alavancagem na qualidade de vida do país, coisa que os governos petistas subsequentes só fizeram herdar, mas mesmo assim puseram fim com a crise econômica gerada por eles; o outro dado interessantíssimo é que, de longe, a região que concentra os municípios com melhor desempenho é a Sul, por razões históricas, econômicas etc. mas se observarmos o estado da União e estado que sozinho tem mais habitantes que toda a região Sul e concentrador da melhor qualidade de vida do país foi São Paulo.
Agora, eu deixo para vocês me dizerem qual é o partido que governa SP há duas décadas?
(A) PCCUS
(B) PPCh
(C) GOP
(D) KLINGON
(E) NENHUMA DAS ALTERNATIVAS ANTERIORES
Não é difícil perceber que o PSDB fez alguma coisa pelo país, enquanto que o PT aprimorou o discurso e a propaganda.

Anselmo Heidrich

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

terça-feira, fevereiro 13, 2018

O Rio de Janeiro e o Brasil


Sempre enojei a ideia de que o Rio de Janeiro representasse bem o Brasil, não por ser o Rio, que tem lá suas belezas, assim como qualquer parte deste país gigante, mas pela ideia de caracterizar, resumir, dar uma ideia que seja de algo tão diversificado que é o Brasil. Mas confesso que depois dos últimos acontecimentos neste estado tenho que rever minha opinião.
O domínio crescente do tráfico na cidade, ao ponto de enclausurá-la numa concha partida e aberta, um anfiteatro que convida ao domínio que é o seu sítio morfológico quase me convence de que geografia é destino. Mas não é, é possibilidade… A maioria das cidades do mundo, notadamente as que apresentam significativa desigualdade socioeconômica, a elite sobe o morro e a plebe desce. No Rio é o contrário, exatamente o contrário. E não se deixem enganar, isto diz muito sobre o ecossistema carioca. Ao invés de divisão e cisão, nós temos lá uma simbiose.
Recentemente estenderam uma faixa ameaçando o STF, caso Lula fosse preso de que “o morro ia descer”. Essa eu pagaria para ver. Não só não desce, como fica mais escondidinho dando suas caras espasmodicamente, como todo bom estudante de guerrilha sabe que tem que ser feito. Um confronto direto obrigaria a uma luta que o tráfico não tem condições de peitar, caso as Forças Armadas sejam acionadas. E a polícia vai ter que mostrar suas diferentes bandas para depois rachar, se é que me entendem.
Quando uma escola de samba dança ao som de batuques e letras acusando um governo não é preciso ser nenhum psicólogo ou investigador amador para saber que aquele que não foi citado é o real problema. Perguntam nos bons policiais “onde estava o cavalo branco na cena do crime?” Qual cavalo? Aquela prova que tu não viu porque não imaginou que tivesse relação. A questão é qual “cavalo” a Tuiuti esconde? Ou melhor dito, qual “sapo barbudo” ela finge que não coaxa em seus ouvidos sujos pelo ruído de caixas registradoras. Ah! Esqueci! Como sou ingênuo de achar que isto é computado, ainda mais em tempos que o Caixa 2 não pode mais ser considerado crime, que consumir psicotrópicos também não, exceto se for uma determinada quantidade que exceda o que for, subjetivamente, considerado suficiente para sua satisfação garantida. A plateia sorridente nos camarotes que o diga, afinal pagou caro pelo espetáculo de ilusionismo e frenesi que os transformaram e figurantes com embalagem de bombom de algum episódio de Walking Dead.
Assim garantiria Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista se fizesse um enredo de escola de samba. Acusemos os sucessores cortando com um machado da retórica e lírica pobre envoltas por uma batucada dionisiacamente anestésica que houve um antes, uma causalidade, algo que começou tudo isso e que a responsabilidade individual pela recessão, desemprego e inflação mencionadas na passarela começaram com os mesmos dedos que elegeram Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer. Triste filme de terror em que lembram do Vampiro do Planalto, mas esquecem da Noiva Frankenstein com doutorado feito da mesma forma que o experimento que lhe deu origem. Amor demais… “Sou Milton, seu monstrinho querido…”
Gostaria de ver aquela porcaria que mantém a economia subterrânea da “cidade maravilhosa” legalizada para que trôpegos eleitores de Freixos seguissem livres na sua busca interior até que a luz os atingisse em uma overdose de auto-revelação, mas em um quarto fechado. O problema não é sua busca química por êxtase, mas sim algum externalidade ingrata, seja no volante de um veículo, seja com uma arma ilegal em mãos, já que as legalmente adquiridas têm o porte proibido para a maioria dos que sustentam a farra de políticos, estudantes e carnavalescos.
Como eu já disse, eu sempre fui contra a ideia simplista de resumir o Brasil, assim como eu também sempre fui contra a secessão de outros estados e regiões do Brasil, mas sinceramente, eu começo a me cansar.

Anselmo Heidrich


Desigualdade Econômica nos EUA

As Causas da Desigualdade Social Brasileira


Em As quatro causas da desigualdade brasileira – SpotniksLeandro Narloch faz uma boa e sucinta análise sobre as razões do Brasil ser uma país tão diversificado do ponto de vista socioeconômico.
Aqui estão elas:

O Brasil é desigual porque é livre
(…) Suponha que, de repente, todo o dinheiro do Brasil é dividido igualmente entre todos os brasileiros. De um dia para o outro, nos tornamos um país mais igualitário que a Noruega; o coeficiente de Gini cai a zero.[1] O banqueiro Joseph Safra e o cobrador de ônibus acordam com o mesmo patrimônio.
Agora imagine que, no dia seguinte a essa revolução igualitária, surge na internet um canal de humor chamado Porta dos Fundos. Os humoristas do Porta dos Fundos escrevem roteiros geniais; os vídeos que eles lançam logo geram comentários e milhões de visualizações. Ao clicar tantas vezes em links do Porta dos Fundos, os brasileiros dão mais dinheiro a esse grupo de humoristas que a outros, criando a desigualdade no mercado de humor pela internet. O Porta dos Fundos ficaria com a maior parte da verba destinada a canais de comédia do YouTube, sem falar nos anunciantes que, por vontade própria, decidirão usar sua parte da renda dividida igualmente entre os brasileiros para contratá-los como garotos-propaganda.
A situação inicial, em que todos os brasileiros tinham a mesma renda, terá desaparecido.
(…)

O Brasil é desigual porque é diverso
(…) a mistura de povos diversos num grande país – explica boa parte da desigualdade de renda do Brasil. Uma causa importante da desigualdade brasileira é uma das qualidades que nos dá orgulho: a mistura de povos e culturas. O fato de tribos indígenas e imigrantes suíços donos do Burger King conviverem dentro das mesmas linhas imaginárias empurra a estatística para cima.
Se eu estiver certo, preciso provar que há uma Dinamarca incrustada no território brasileiro. Pois ela existe, fica no Rio Grande do Sul. Das quinze cidades mais igualitárias do Brasil, doze são gaúchas de origem alemã (dê uma olhada na tabela a seguir). A cidade com a renda mais distribuída do país, São José do Hortêncio, tem um índice de Gini de 0,28, abaixo dos 0,29 da Dinamarca. Não houve nessas cidades nenhuma política pública de redução de desigualdade, nenhum imposto sobre fortunas ou coisa parecida. O que explica a igualdade por lá é simplesmente a semelhança entre os cidadãos. Assim como os dinamarqueses, quase todos ali têm a mesma origem cultural, o mesmo nível de educação. E muitos têm origem luterana, como os dinamarqueses, o que historicamente contribuiu para a igualdade. “Comunidades protestantes trabalharam para difundir educação que garantiria que todos pudessem ler a Bíblia, o que tanto aumentou o nível de educação quanto diminuiu sua variação”, diz o economista Edward Glaeser. (…)
Em contrapartida, para achar os locais com maior desigualdade de renda, é preciso mirar nas cidades em que grupos bem diferentes moram juntos. É o caso das capitais, que atraem tanto o João Paulo Diniz, herdeiro da rede de supermercados Pão de Açúcar, quanto o ex-boia-fria que sonha em ganhar mil reais por mês como jardineiro do João Paulo Diniz. Mesmo Florianópolis e Curitiba, as duas capitais mais igualitárias do Brasil, estão acima da média nacional de desigualdade.
No entanto, por causa da classe média expressiva, as capitais não são as campeãs nesse quesito. As cidades mais desiguais são aquelas que reúnem um pedaço da Dinamarca, outro do Quênia e só. É o caso de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a cidade brasileira mais desigual. Com um índice de Gini de 0,80, ela supera de longe Seychelles, o país com renda mais concentrada no mundo (0,65). O motivo? Em São Gabriel da Cachoeira há apenas dois tipos de moradores: mais de 400 tribos indígenas, que formam 74% da população e não têm renda formal, e militares, médicos e outros agentes federais muito bem pagos. De fronteira com a Venezuela e a Colômbia, São Gabriel da Cachoeira é sede de batalhões e órgãos federais de vigilância. A cidade prova, como nenhuma outra, a importância da diversidade cultural para a desigualdade econômica. “Em países particularmente igualitários, como os da Escandinávia, a população é geralmente bem-educada e a distribuição de qualificação bem compacta”, afirma o economista Edward Glaeser. “Já países particularmente desiguais e em desenvolvimento, como o Brasil, são enormemente heterogêneos nos níveis de qualificação entre elites urbanas bem-educadas e trabalhadores do campo pouco educados.”
Talvez a miscigenação atue ainda de outra maneira. Provavelmente por vantagens evolutivas da lealdade de grupo, as pessoas tendem a contribuir mais com quem se parece com elas ou pertence à mesma identidade coletiva. Palmeirenses ficam mais contrariados com o dinheiro público gasto no Itaquerão que os corintianos. O economista Erzo Luttmer mostrou em 2001 que, nos Estados Unidos, o valor dos programas de redistribuição de renda é menor nos estados onde a população é mais diversa. “Se indivíduos preferem contribuir para sua própria raça, etnia ou grupo religioso, eles optam por menos redistribuição quando membros de seu grupo constituem uma parte menor dos beneficiários”, diz Luttmer. “Com o aumento da diversidade, a porção de beneficiários que pertencem a um grupo diminui em média. Então o apoio médio para redistribuição cai se a diversidade aumenta.” Isso leva a uma conclusão impressionante. Não foi o estado de bem-estar social que possibilitou a igualdade da Dinamarca, mas o contrário: a semelhança entre os cidadãos escandinavos possibilitou o estado de bem-estar social.

O Brasil é desigual porque as famílias pobres tinham muito mais filhos que as ricas
(…) mais filhos significam mais gastos – e menos dinheiro para investir na educação de cada um. “O número de filhos que um casal decide ter possui forte relação com o nível de educação que os pais conseguirão fornecer aos filhos”, dizem Hausmann e Szekely. Cada criança começará a vida com uma parte menor da renda dos pais e com menor escolaridade. Um estudo de 2014 mostra que até 40% da queda da desigualdade de renda são explicados pela queda na desigualdade de escolaridade.
Fica ainda pior. Crianças com pouca escolaridade, quando crescerem, vão concorrer no mercado por vagas de pouca qualificação, aumentando a oferta de trabalhadores não qualificados. Uma vez que salários, assim como qualquer preço, são definidos pela oferta e procura, o salário de pessoas não qualificadas vai cair, aumentando a diferença de renda entre pouco e muito qualificadas. O maior número de filhos ainda resulta numa poupança menor – e um país com menos economias tem menos capacidade de investimento.
(…)
O poder dessa máquina de desigualdade já foi calculado. Em 2010, 45,2% dos brasileiros eram donos de apenas 10% da renda do país, enquanto 5,9% dos brasileiros ficavam com 40% da renda. Como seriam esses números se a fecundidade de 1980 tivesse permanecido estável até 2010? Teríamos mais pobres dividindo os mesmos 10% e menos ricos desfrutando os 40% da renda nacional. “Se a natalidade não tivesse caído, as proporções comparáveis seriam de 62% e 4,1%, respectivamente”, diz a pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Ipea.
O demógrafo Jerônimo Muniz, da UFMG, tem estudos similares. Ele calculou o que aconteceria com a desigualdade social no Brasil entre 1990 e 2000 se todas as variáveis, com exceção da demografia, ficassem constantes. Em 1990, a diferença de fecundidade entre mulheres pobres e ricas era bem menor que nas décadas anteriores, mas ainda existia. “Se a demografia fosse o único componente do cálculo, a proporção de pobres aumentaria 28% entre 1990 e 2000. Isso corresponderia a 42% da população. Já a desigualdade seria até 40% maior”, diz Muniz. Por causa da estabilidade da moeda e o crescimento (ainda que pequeno) da economia, houve um movimento modesto na direção contrária: a pobreza caiu 9% entre 1990 e 2000.
Estaria eu culpando a vítima ao dizer que as mulheres de classe baixa são responsáveis pela alta desigualdade do Brasil? Nunca me esqueço de uma vizinha da minha mãe que pagava menos de um salário mínimo para a empregada e não cansava de dizer que os pobres eram pobres porque nada faziam além de ter filhos. Não: culpa não é um conceito que funciona bem em economia. Os pobres provavelmente ficaram presos numa armadilha: sem dinheiro e informação, tiveram muitos filhos, o que os deixou com ainda menos dinheiro e informação. Não é correto culpar os pobres nem os ricos pela desigualdade. Basta entender que é a demografia, e não tanto a opressão das grandes empresas e do capitalismo, que explica boa parte da concentração de renda no Brasil.…

AGORA PRESTE ATENÇÃO: todos os fatores de desigualdade econômica aventados pelou autor, Leandro Narloch são sociais, isto é, dependem da sociedade se conscientizar e querer mudá-los, mas invariavelmente são confundidos com fatores políticos, como se bastasse pressionar representantes para proporem e executarem “reformas estruturais”. Ledo engano… Demografia, homogeneidade cultural, o ímpeto pelo estudo e a liberdade de mudar ou escolher o que fazer da vida, estudar, trabalhar etc. não são coisas que dependam de projetos de lei, votações, plebiscitos etc. NO ENTANTO, o próximo fator SIM. Quando nossa Esquerda e críticos do capitalismo atribuem toda e qualquer situação de desigualdade ao capitalismo estão enxergando um problema, mas atirando no alvo errado.

ENTÃO, qual é este ALVO?

ÊI-LO:

O BRASIL É DESIGUAL PORQUE O ESTADO ESCULHAMBA O PAÍS
Uma opinião comum nas discussões sobre economia é que, se o governo deixar, as grandes corporações vão avançar sobre os pequenos empresários e os ricos concentrarão toda a renda do país.
Não, é o contrário.
Grandes empresas recorrem a políticos para se tornarem monopólios. Empresários estabelecidos num negócio pressionam o governo para aumentar regras e exigências, dificultando a vida de possíveis concorrentes. Leis urbanísticas protegem o patrimônio dos ricos contra a desvalorização. E os brasileiros de classe A são quem mais recebe dinheiro público.
Quem diz isso é um cara de esquerda, o economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de 2001. No livro O Preço da Desigualdade, Stiglitz dedica todo um capítulo sobre ações do governo que deixam os pobres mais pobres e os ricos mais ricos. Seu principal alvo é o rent-seeking – a arte de conseguir benefícios e privilégios não pelo mercado, mas pela política. “O rent-seeking tem várias formas: transferências ocultas ou abertas de subsídios do governo, leis que tornam o mercado menos competitivo, leniência com as leis de proteção da competição, e regras que permitem às corporações tirar vantagem dos outros ou transferir custos para a sociedade”.
Stiglitz diz que a América Latina é rica em privilégio a grandes empresas – e ele está certíssimo. Dos casos recentes da política brasileira, o exemplo mais bem-acabado é o da Braskem, a maior petroquímica brasileira. A Braskem é a única fabricante nacional de diversas resinas plásticas usadas na fabricação de brinquedos, embalagens, cadeiras de plástico, carpetes, seringas, peças de carros e eletrodomésticos, tubos, canos – enfim, de quase tudo. Na média mundial, o imposto de importação de resinas é de 7%. No Brasil, era de 14%, mas em 2012 a presidente Dilma elevou a taxa para 20%. Na época, o aumento causou revolta, pois reverberaria em toda a cadeia de produtos plásticos made in Brazil. “A iniciativa beneficiará somente um monopólio instalado no país, o da Braskem, prejudicando toda uma cadeia produtiva e, o que é mais grave, os consumidores pagarão a conta”, escreveu José Ricardo Roriz Coelho, então presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico. Com os concorrentes estrangeiros fora do páreo, a Braskem pôde cobrar mais pelas resinas que vendia a 12 mil fábricas brasileiras. Entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2014, o aumento dos produtos da empresa foi de 27,6%. Agora, adivinha quem controla a Braskem? Nada menos que a Odebrecht, empresa envolvida até a alma em escândalos de corrupção e propinas para o partido no poder. Durante a operação Lava Jato, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Yousseff disseram que a Braskem pagava propina em troca maiores lucros em contratos com a Petrobras.
Outros motores estatais de desigualdade não são tão fáceis de perceber. As leis urbanísticas, por exemplo. Em muitas cidades brasileiras, a prefeitura impõe um limite de área construída em relação à área do terreno. É por isso que o Brasil não tem prédios com mais de cem andares, como em qualquer lugar civilizado. A regulação urbanística cria uma escassez artificial de espaço urbano, empurrando o preço para cima. Esse fenômeno não é exclusividade do Brasil. Leis que dificultam a construção de prédios aumentam o preço dos imóveis em 800% na cidade de Londres e em 300% nas metrópoles Paris e Milão.