Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

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quarta-feira, outubro 05, 2011

O alto custo da ausência moral




Nós, enquanto brasileiros, de diferentes estratos sociais, endossamos o roubo, a dilapidação bárbara da cidade, o jeitinho, a malandragem e o “dane-se tudo por que não é meu”.
Recentemente, Janer Cristaldo nos brindou com um texto mostrando o maniqueísmo de filmagens acerca da vida dos pingüins. Se existe, por um lado, a tentativa de antropomorfização de animais em ‘documentários’, a animalização de seres humanos ao serem tratados como gado, já é um projeto bem sucedido. E, ainda diria que de forma muito primitiva, pois há um bom tempo existem disciplinas nos cursos de zootecnia prevendo bom tratamento aos animais, uma vez que “rendem mais” engordando e aumentando a produtividade. Portanto, diferentemente do ideal de pingüins nas lentes do cineasta francês, pessoas são animalizadas nos meios de transporte e passeios públicos de São Paulo.


Esta manipulação é, especialmente visível para qualquer estrangeiro de países ricos, na metrópole paulistana. Metrópole esta que se arroga, não raro, de “enclave de primeiro mundo” no Brasil.

Lá pelos idos de 1990, quando eu estudava na USP, conheci um grupo de canadenses que viera fazer um curso de Política. Eles realmente ficaram surpresos quando pegaram um ônibus na Cidade Universitária ao Centro. Começaram a brincar como se estivessem ‘surfando’ no corredor daquele veículo que mais parecia o pesqueiro atacado pela “tempestade do século” de Mar em Fúria.

Como um bom latino-americano, fiquei irritado com a zombaria. Mas, alguns anos depois eu entenderia claramente... Embora eu tivesse visitado o Canadá, tive uma sensação estranha quando andei de ônibus na Austrália. Não me senti como um porco na caçamba de um caminhão que freia constantemente para ajeitar a carga. Esta seria uma boa descrição sobre “andar de coletivo” no Brasil. Em nosso paraíso tropical, somos tratados como suínos no ambiente público.

Não só a velocidade era constante e baixa, como chegávamos ao nosso destino dentro de um horário previsível. Não é difícil entender seu porquê. Quando andamos de modo ritmado, a uma velocidade constante, nem alta nem baixa, dependendo do trajeto todos circulam com certa fluidez. É uma lógica de ação grupal que também pode ser aplicada ao funcionamento de uma fábrica, sindicato, escola etc. Quando, bem ‘brasileiramente’, dando um ‘jeitinho’, querendo ‘levar vantagem’ passamos a frente de uma fila, cruzamos abruptamente a passagem dos outros ‘cortando’ o trânsito, que ação coletiva que decorre desta lógica individualista? Que tal a palavra CAOS?

-          Os socialistas anti-civilizatórios dirão que “trata-se de uma sociedade robotizada, sem coração e individualidade, com uma falsa noção de livre-arbítrio... por isto que todos obedecem às regras cegamente”;

-          Os liberais toscos dirão que “o egoísmo é benfazejo à sociedade, mesmo que possa ter algum efeito contraproducente em alguns casos”.

É... estou provocando sim, pois liberalismo de fato não é essa visão simplista. Liberalismo inclui responsabilidade e, o que é mais interessante, sem coação estatal. Não posso agir de modo eticamente egoísta se quero as mesmas condições concorrenciais para todos. Competitividade abarca uma ética específica, com moral peculiar aos sistemas culturais de que faz parte. Da mesma forma que louvamos o sujeito que estuda sacrificando horas de lazer para se capitalizar na vida e desprezamos o sujeito puxa-saco que casa com a filha do chefe só para escalar cargos na empresa, entendo que dirigir bem não significa ser mais ‘arrojado’ (e estúpido) na avenida. São coisas diferentes. Eu posso ser egoísta se desejo e luto pelo melhor para mim, dentro de regras de mercado. Mas, isto não significa que eu não possa abrir mão de algo se haver algum significado para o grupo como um todo se o bem-estar coletivo tambémme beneficiar individualmente. No limite, egoísmo total e altruísmo total são auto-destrutivos. Não preciso apoiar o Bolsa-Família do Lula, como prova de que o assistencialismo não resolve problemas estruturais de uma sociedade anti-competitiva e sem mercado tendencialmente livre, mas nem por isto preciso deixar de ajudar com minha experiência de vários anos em cursos pré-vestibular, algum colega ou uma turma de adolescentes pobres que queiram, p.ex., passar no vestibular.

Por outro lado, a crítica socialista assinalada não toca na questão ‘individualidade’ de modo correto, pois ela entende que os indivíduos agem assim por que são coagidos. Nada mais equivocado. Nas principais cidades australianas como Sydney ou remotas como Coober Pedy reparei que todos, literalmente todos, ficavam à esquerda na escada rolante (assim como nas ruas e avenidas devido à ‘mão inglesa’) para que os mais apressados passassem. Quando em um restaurante decidi não comer algo do buffet achei sensato furar a fila e ir ao que me interessava mais adiante. A reação do sujeito à minha frente foi como se eu estivesse “batendo sua carteira”. Desculpei-me e voltei a meu lugar... também na Escócia, passei de carro numa faixa de pedestres ao que vários pedestres me olharam mais que indignados, estupefatos. Quando me dei conta, a sensação de vergonha que se apossou de mim foi algo indescritível. A coação existe, mas não é imposta, por algum tipo de decreto. Ela existe como traço cultural, pela imitação e reconhecimento do outro.

Vocês já devem ter visto chiqueiros densamente habitados. Os porcos vivem estressados e com orelhas cortadas por mordidas. Bem... esta é minha visão de como nos tratamos em público nas grandes cidades brasileiras. Este é o tratamento dispensado pelos trabalhadores brasileiros dos transportes a outros trabalhadores brasileiros. De modo que a “consciência de classe para si” de Marx é bem aplicada, desde que se entendam os pingüins como um estágio evolutivo mais avançado da seleção natural e os porcos como empatados com humanos numa bizarra engenharia social.

Não é estranho que ao andarmos por cidades coloniais de nosso país, tenhamos um certo prazer, embora representem períodos de escravidão, ao passo em que ‘cidades modernas’ que representam a liberdade da modernidade, sejam opressivas? Parece um paradoxo. Durante o período industrial na Inglaterra, operários quebravam o relógio ponto que era seu símbolo de dominação, hoje qualquer greve no Brasil há piquetes em que os primeiros alvos são os ônibus. E é igualmente sintomático que diferentemente dos pingüins que marcham, nos acotovelemos, nos empurremos e descarreguemos nossa frustração uns nos outros. Esta seria uma forma um tanto sádica de “amar ao próximo”...

Esporte é morte


Quando eu morava no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) pude ver moradores dos bairros vizinhos sendo detidos pela segurança da USP por terem cortado pinheiros recém plantados. Era Natal em que pese o significado da data, o ‘cidadão’ brasileiro impinge a atitude marginal como norma. Conseqüentemente, a Cidade Universitária foi fechada como espaço de lazer nos fins de semana. E, que acharam os estudantes? ‘Repressão’... nós, realmente, temos uma classe estudantil que reflete o país: classe média e alta estudando com subsídio estatal e endossando a rapina literal do erário público em algo que simboliza a vida e a beleza paisagística no cenário urbano, uma árvore.

Recentemente, gangues de ciclistas – sim, inclusive aparelhados com toda indumentária para o esporte, portanto, endinheirados – chegaram a virar uma kombi após uma discussão numa das avenidas da USP. No melhor estilo de uma intifada de playboys com membros da ‘elite intelectual’ uspiana, subsidiada pelos cidadãos paulistas é bom lembrar, virava um carro de ponta-cabeça. Daria uma boa propaganda para ‘energéticos’ e academias... o acesso aos ‘esportistas’ só foi bloqueado depois que um destes meliantes se envolveu em discussão com a filha do reitor. Só assim para se adotar uma regra preventiva. Este é o espírito que move nossa civilidade hobbesiana, mas sem a ordem monárquica advogada pelo filósofo.

A praça não é nossa


O declínio dos costumes está na raiz do declínio do espaço público. Já observaram a quantidade de praças que há em uma cidade como São Paulo? É como se milhões realmente prescindissem deste ‘luxo’? Se já é difícil encontrar ruas e avenidas bem estruturadas em quantidade suficiente numa São Paulo, chega a ser desonesto de minha parte atentar para a insuficiência de praças ou parques onde uma simples rotatória de três ou quatro metros de diâmetro leva como nome de logradouro, ‘praça’. Mas, como eu não resisto a um comentário politicamente incorreto, no caso,antropologicamente incorreto também, em Nova York[1] ou Londres[2] foram criados parques e jardins com o intento claro de educar e civilizar as classes mais pobres com bons costumes pela imitação dos mais ricos num espaço comum, isto é, público.

Nós, enquanto brasileiros, de diferentes estratos sociais, endossamos o roubo, a dilapidação bárbara da cidade, o jeitinho, a malandragem e o “dane-se tudo por que não é meu”. Quantas vezes não pude observar nos horários de saída dos colégios, dignas senhoras parando em fila dupla para pegarem seus filhos? Assim como já vi no Morumbi em São Paulo, digladiarem-se entre si com palavras de baixo calão por uma reles vaga. E este comportamento se espalhando como reação em cadeia cria uma subcultura urbana que conhecemos bem.[3]

Interessante observar também o grau de preparo às intempéries. Londres sobreviveu aos bombardeiros alemães, São Paulo não resiste a uma chuva de 15 minutos. Enquanto que Nova York foi alvejada por estúpidos maometanos em 2001 para em alguns meses recolher todos os escombros do WTC, São Paulo não consegue coordenar semáforos inteligentes numa única avenida – quando um abre, o da esquina seguinte fecha.

E se podemos falar que há um caráter do cidadão brasileiro em geral e paulistano em particular, me parece ser os traços comuns entre ricos e pobres na Paulicéia: ambos cospem no espaço urbano como o lixo que regurgita após cada chuva de verão.






[1] In October 1848, only months after the revolution in the streets of Paris, landscape architect Andrew Jackson Downing proposed the creation in New York of a mammoth (five-hundred-acre) People’s Park. Until then Downing had concentrated on providing country gentlemen with picturesque retreats and editing the Horticulturist. But the European upheavals alarmed him. They seemed to herald similar convulsions in a New York that, to his dismay as an old-school republican, hat been dividing up into social classes that no longer commingled one with the other as they once had. New York desperately needed a place where classes could regain comity. Parks, he thought, would facilitate interactions no longer available on the street. Such social intercourse, Downing believed, would, as reformers wished, uplift the lower orders. “Every laborer is a possible gentleman,” Downing argued. It wanted only “the refining influence of intellectual and moral culture,” which a park might make available, to raise up “the man of the working men to the same level os enjoyment with the man of leisure and accomplishment.” In addition, Downing said, coupling his concerns to the demands of the growing public health movement, the park’s material as well as moral environment would be beneficial: the open space would serve as the “lungs of the city.” (Gotham: A history of New York City to 1898. Edwin G. Burrows & Mike Wallace. Oxford University Press, 1999, pp.790-791. Grifos meus).

[2] The most important gardens of all still survive. St Jame’s Park was transformed from a marshy field to a royal deer chase by Henry VIII, and into a formal garden for the Court by James I. Charles II had the Park extended and landscaped, and allowed the public into most of it. By the eighteenth century the right of public access was too well entrenched to the withdrawn, and on Sundays the Park was crowded. On summer evenings and winter afternoons the Mall, on the northern edge of the Park, was the favourite promenade of well-dressed Londoners, and at night, when the gates were locked, the grounds were patrolled by prostitutes and (as we learn from Boswell) their customers. Green Park was smaller and less fashionable, but Hyde Park, on the edge of the Hanoverian West End, was an important center of aristocratic courtship, display and social mixing, as well as popular recreation. It was seized as a royal hunting ground by Henry VIII, opened to the public by Charles I, sold for £17,000 by Parliament in 1652, and restored to royal ownership and free public use in 1660. Within the Park there was the Ring, a fenced area encircled by two concentric carriage tracks, around which families of ‘quality’, from Charles II downwards, paraded in their carriages in the early evening, half in one direction, half in the other. The Ring ceased to be London’s promenade in the 1730s, when the rich moved their carriages to Rotten Row (the King’s Road, or Route du Roi), the well-lit road connecting Hyde Park with Kensington Gardens. Although precise arrangements changed, Hyde Park remained a center of London’s fashionable promenade, the equivalent of the Champs-Elysées or Madrid’s Pasea del Prado, until fairly recent times. In 1898, Baedeker’s Guide described the ‘unbroken files of elegant equipages and high-bred horses in handsome trappings, moving continually to and fro, presided over by sleek coachmen and powdered lacqueys’, to be seen in South Carriage Drive between 5 and 7 o’clock each evening. (A History of London. Stephen Inwood. Carroll & Graf Publishers, 1998, 315-316. Grifos meus).

[3] Um pequeno adendo para os bairristas que possam achar que faço parecer que o horror se qualifica apenas para São Paulo: recentemente, em um shopping que inclui um famoso super-mercado de Florianópolis, parei para assistir uma apresentação de um violinista tocando clássicos. Depois do almoço não poderia haver degustação tão aprazível. Mas, logo depois vieram meninas de 8-10 anos fazendo uma coreografia bastante razoável para sua idade. As músicas reproduzidas eram de algo dos anos 80, bem ao estilo ‘flash-dance’ ou algo assim. Embora, eu não goste do estilo, creio que envaidecia os pais orgulhosos, assim como muitas pessoas regozijavam-se. Mas, após uns cinco minutos não acreditei quando comecei a ouvir algo como ‘tô toda atoladinha...’ e aquelas crianças dançando aquilo. Olhe... não sou o sujeito mais confiável para falar de música de modo imparcial ou algo que se aproxime de música, como foi o caso, nem acho que sexo ou erotismo tenha que ser banido. Mas, parece evidente que deve haver hora, lugar e IDADE para isto. A professora que coordenou a apresentação, em qualquer país sério do mundo, no mínimo teria que passar a noite na cadeia. Mas, e o que dizer dos pais que aplaudiram? Um país que faz apologia da sexualidade precoce e induzida é ou não é uma sociedade doentia?

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