Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

Compre o livro NÃO CULPE O CAPITALISMO nos links abaixo:




quarta-feira, janeiro 09, 2013

Os limites da justiça social internacional

SUNDAY, MARCH 20, 2005

Os Limites da Justiça Social Internacional

“'Justiça', hoje em dia, tornou-se um termo inflacionado na cultura política nacional e internacional ultrapassando o próprio âmbito jurídico e se estendendo para o econômico e o cultural. Na verdade, uma grande fonte de irracionalismo, a palavra “justiça” tem sido mal utilizada e soa como mero clichê para ressentidos que utilizam seus sentimentos como base para uma pretensa (e falaciosa) compreensão dos problemas mundiais.”
Vivemos tempos confusos neste "Bravo Novo Mundo" onde a Cultura Ocidental é posta em cheque, de dentro de sua própria sociedade, como se o germe da desconstrução partisse de sua própria sanha civilizatória. O fato do chamado "Primeiro Mundo" demonstrar preocupações com a chamada "questão social internacional", não significa se ver encurralado (e admitir esta posição intelectual) numa posição de culpa por fatos passados que, mal explicados, atribuem à Europa e, mais ostensivamente, aos Estados Unidos a carga de toda culpa pelos insucessos cometidos no chamado "Terceiro Mundo". Reivindicações até justas de países em desenvolvimento não devem ser confundidas com um "tribunal imaginário", substancialmente ilegítimo, que pretende julgar a História como se nela houvesse "réus" e "vítimas". Os casos são vários, mas no que toca especificamente aos fatos mais atuais, tomemos como exemplo a oposição Ocidente X Islã. Huston Smith em The World's Religions[1] se indaga por que a Cristandade teve tantos choques com o Islã, uma vez que tais crenças têm uma origem comum no Judaísmo e não se observa o mesmo com, por exemplo, Cristianismo X Hinduísmo. A razão é mais simples do que podemos imaginar: domínio territorial, um imperativo geopolítico. Mais do que templos, são civilizações em choque. Muito antes das Cruzadas, os árabes já chegavam às portas francesas nos Pirineus para estender a influência do Crescente. Julgarmos toda uma complexa teia de relações históricas a partir de um único vetor - a Igreja Católica -, como se esta fosse a única a ter uma culpa no “cartório das humanidades” é, no mínimo, desrespeito pelo intelecto, para não dizer pura má fé mesmo.
Apesar de, no entanto, o debate ideológico, culturalista e, em certa medida, religioso mesmo, conter mais mentiras, falsidades do que a saudável busca pela Verdade, o fato é que ruim com ele, pior sem ele. Analogamente, não podemos nos esquecer que até bem pouco tempo em termos históricos, nos países capitalistas, as muitas reivindicações trabalhistas (por vezes, claramente exageradas) tiveram efeitos benéficos através de um processo contínuo de negociações. Apesar de certas incongruências contábeis que mais tarde cobrariam seu preço através dos inexoráveis déficits públicos, pode-se dizer que foram menos perniciosas do que teriam sido uma guerra civil.
Há várias formas de procurar atingir um objetivo não tão evidente por si. A crítica que se faz hoje em dia, no seio do próprio capitalismo, não procura resolver antigas querelas sócio-civilizacionais, outrossim tem seu combustível ideológico na própria desconstrução do capitalismo. Basta pensarmos por que a maioria dos protestos tem seu epicentro no cenário europeu. Não é à toa que em muitos daqueles países, cerca de ¼ dos trabalhadores é constituído por funcionários públicos e segurados que vivem da transferência de renda indireta[2], assolados que estão pelas constantes revisões da máquina pública européia em transformação e que vivem sob o espectro de Margaret Thatcher e Helmut Kohl. E mesmo com o governo de oposições episódicas como a de Tony Blair que não ousam desfazer tudo que os liberais arrumaram. Nessa cizânia de interesses corporativos que a Social-Democracia semeou no continente, tudo vale para a crítica do Capitalismo, inclusive a ressurreição de antigos fantasmas históricos. Os mais extremados órfãos do socialismo tentam ressuscitá-lo em uma forma mais palatável, falsamente democrático, sob os auspícios de Antonio Gramsci que advogava a ocupação de instâncias estratégicas do estado e da sociedade para a formação de um corpo hegemônico que a guiaria para a construção do “novo homem”. Mais do que “justiça internacional”, erigindo um fácil e evidente bode-expiatório configurado no Tio Sam, o que essa gente quer é a desestruturação da locomotiva capitalista para daí sim, no day-after, prejudicar a sociedade como um todo, mesmo que isto não se evidencie para si próprio, a princípio. O “modelo” socialista é substituído, mesmo que intuitivamente, por uma abstração sem pé nenhum na realidade, chamada de “socialismo democrático”. Questões inescapáveis como a maior produtividade e criatividade inerente ao Capitalismo, as quais já tinham sido propostas por Schumpeter há mais de meio século permanecem soterradas por um manto de irracionalismo que põe a eficácia econômica como um verdadeiro palavrão. Quando jovens, muitos segurados pelo Welfare State, saem às ruas em Davos para protestar contra a Globalização estão, sem muitas novidades, repetindo ad nauseaum, um movimento sindicalista que mobilizou a classe operária européia até a II Guerra Mundial com resultados desastrosos: os salários sofreram congelamento, métodos de produção permaneceram arcaicos e os regimes políticos sucumbiram ao discurso demagógico do “operariado”, mais ansioso por provocar cataclismos políticos do que por obter vantagens materiais à própria classe que diziam defender. Do outro lado do Atlântico, no país mais conhecido (e incompreendido) do mundo, os Estados Unidos, o movimento sindical teve a chance de escapar, afortunadamente, do controle de socialistas e anarquistas dogmáticos se consagrando, antes de qualquer coisa, à direção patronal e sua orientação com o objetivo real de melhorar a situação material dos operários, através da redução da jornada de trabalho e aumento real da renda. A pressão sindical econômica e não ideológica consagrou a seleção natural do empresariado americano. A crise americana dos anos 80 por exemplo foi extremamente benéfica em proveito dos homens de visão. Cidades como Detroit pagaram com a desindustrialização. Inversamente, São Bernardo se desindustrializou graças à ação da CUT que nos vendeu seu candidato e mascarou o verdadeiro culpado ao atribuir responsabilidades a outrem, FMI etc. A inveja mundial de um país bem-sucedido se explica facilmente, no entanto o que não tem justificativa é a submissão intelectual de nossos homens públicos às contingências de um discurso de ocasião que procura opor “Norte” e “Sul”, sem que de fato, o “Sul” tenha efetivamente chegado a enxergar como o “Norte” funciona. Tudo ancorado num raciocínio simplista de “jogo de soma zero”de que nos fala Paul Krugman em seu Internacionalismo Pop, onde no cérebro do leitor incauto, uns ganham por que outros perdem. Nada mais conveniente, nada de “lavar a roupa suja em casa”, mas atribuir nossos insucessos e o ressentimento fundamentalista de regiões como o Oriente Médio à pujança capitalista. Assim, é chegada a hora de cobrar a conta pelo serviço não prestado: “Ressentidos do mundo: uni-vos!”
A produção de escala, a visão de homens como Henry Ford são escassas nas latitudes tropicais, temo em dizer, mas aventuras de Guevaras, demagogias Castristas, ódios de Husseins e Ladens, esses sim, são valorizados e tomados como palavra última e, em nome deles, multidões amedrontadas com a dinâmica produtiva se levantam e clamam pela manutenção da estagnação tecnológica. “Tecnofobia” de ecofascistas soma-se à devassa cultural em busca de notoriedade para seus apologistas, enquanto que problemas reais como a produção agrícola são discutidos em bases ideológicas. Tudo vale no discurso persecutório que procura culpar não um, alguém, mas uma entidade, o “Capital”. A estratégia consiste em demonizar uma bárbara realização da Civilização e esquecer-se de sua relação destruidora/criadora. Os críticos do Ocidente não desejam mais que destruir o “Capital” objetivamente, sem perceber que nunca chegariam sequer a ter os instrumentos materiais de comunicação que utilizam, de modo paranóico, não fosse por ele. Os numerosos críticos que vivem, muitas vezes, de transferências de rendas em suas cátedras universitárias, não desejam verdadeiramente soluções pacíficas para os problemas do mundo subdesenvolvido, mas que se enredem cada vez mais em hábitos que acumulem sentimentos de frustração e rancor para com o mundo capitalista desenvolvido. Odeiam o que desconhecem.
Mesmo que muitos digam que a saída não se daria mais por vias “socialistas tradicionais” e que esse sistema não mais se configura como uma alternativa, o fato é que as premissas irracionais que o fundaram na cabeça de um filósofo alemão continuam vivíssimas, assim como outras formas de patologia social. A verdade desagradável é que uma boa parte dos países atrasados (me perdoem a ausência de eufemismo), por motivos estritamente culturais pouco faz para a adoção de comportamentos individuais e de ação coletiva favorável ao desenvolvimento econômico e, sobretudo, a uma oportunidade de se autoconhecer na diferença. Apenas exploram essa diferença em prol de um discurso que torna os individuais iguais sim, mas na ignorância.

Notas
[1] SMITH, Huston. The World’s Religions. Harper San Francisco. 1991.
[2] DAHRENDORF, Ralf. O Conflito Social Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.; São Paulo: Edusp, 1992, p. 139.

Nenhum comentário:

Postar um comentário