terça-feira, dezembro 20, 2016

Como o discurso politicamente correto se torna contraproducente


Jordan Peterson, professor de psicologia na Universidade de Toronto (imagem: cbc.ca).

Li o primeiro parágrafo e adorei:

"Estamos ensinando mentiras a universitários" - Uma entrevista com Dr. Jordan Peterson
http://xibolete.uk/peterson/ via @xibolet

Esta perspectiva integradora - natureza e humanidade -, na qual ele procurou entender os problemas sociais a partir de uma análise próxima à biologia é assaz sedutora. Isso choca:

Uma das coisas de que estou tentando convencer meus alunos é que se eles tivessem vivido na Alemanha na década de 1930, eles teriam sido nazistas. Todo mundo pensa “eu não”, e isso não está correto. Foram em grande parte pessoas comuns que cometeram as atrocidades que caracterizaram a Alemanha nazista e a União Soviética.

Saber que pior do que encarar um psicopata, assassino serial o que seja é identificar o mau em nós mesmos. Uma das teses mais idiotas que já vi é dizer que o esquerdismo é uma doença mental, como já se tornou usual ouvir de conservadores por aí disseminando a tese de um livro que adquiriu certa fama. Este é um dos traços do fanatismo ideológico disfarçado: se apoiar em resultados de pesquisas científicas convenientes e, claro, solenemente descartar outros. 
E a percepção dele, acertadíssima, sobre onde leva a adoção compulsória de termos que buscam resignificação é perfeita, se trata de uma novilíngua que muda o raciocínio, o julgamento e o valor dificultando uma visão de oposição, de dissenso, enfim, de liberdade.
O que tem que ficar claro é que esses projetos não se bastam a uma escolha livre da própria identidade, mas sim em uma imposição da identidade escolhida a outrem, o que é bem diferente, se trata de um ataque a liberdade de julgamento, como se a liberdade de expressão fosse unilateral:

Há coisas sombrias acontecendo. Para começar, o Projeto de Lei C-16 codifica construtivismo social no tecido da lei. O construtivismo social é a doutrina de que todos os papeis humanos são socialmente construídos. Eles são desvencilhados da biologia subjacente e da realidade objetiva subjacente. Então o projeto C-16 contém um ataque à biologia e um ataque implícito à ideia da realidade objetiva. Isso também é flagrante nas políticas da Comissão dos Direitos Humanos de Ontário e na Declaração dos Direitos Humanos de Ontário. Ele diz que a identidade é puramente subjetiva. Então uma pessoa pode ser homem em um dia e mulher no próximo, ou homem em uma hora e mulher na próxima.

Os opositores dele dizem que não detém tanto poder quanto são acusados, mas como diz Peterson por que então transformar isto em um princípio legal? Ou como exemplifica, o princípio jurídico basilar em Ontário (e não só lá) de que se é inocente até que se prove o contrário passa a ser substituído pelo da "preponderância da evidência". E começa assim, nos campus para depois se alastrar por toda a sociedade. Enfim, o totalitarismo em sua forma legal, que difere do autoritarismo personificado. 
"Você não consegue meu respeito exigindo-o [e] você não tem direito de eu tratá-lo de forma especial" são algumas das sentenças óbvias de Peterson que atacam a pretensão totalitária desses regulamentos. Como ele diz, ninguém é naturalmente bom, as pessoas são provavelmente más, um "balde de cobras" para usar sua expressão, mas é perfeitamente possível, como assevera, que utilizemos um "neutralidade cética" uns com os outros ou uma "confiança corajosa" que permita que nos relacionemos com educação sem que abortemos nossos princípios. Que se pare com esta mania de se sentir ofendido pelo que os outros irão pensar ou dizer sobre nós. 
A tentativa de ordenar o caos pela palavra, algo similar ao Cristianismo aqui assume ar de revolução, dogmática e profundamente anti-liberal. No entanto, a mensagem da esquerda autoritária é anti-liberal e não há compaixão nenhuma em suas ações, apenas o ressentimento. E quando não há um ressentimento se evolui para o ódio. As leis que visam controlar discursos, inclusive o discurso de ódio acabam limitando o diálogo e quando metades não se comunicam, temos a constituição de inimigos. Com inimigos temos o combustível pronto para uma guerra. O discurso politicamente correto, embora pleno de boas intenções acaba por ser contraproducente.

Então nós não deveríamos chamar alguém de ‘sua majestade’ só porque eles pediram isso?
Bem, esse é outro problema que está se escondendo sob o argumento da subjetividade, uma vez que você divorcia a identidade de uma base objetiva. Essas pessoas [defensoras de múltiplas identidades de gênero e leis para protegê-las] afirmam que identidade é uma construção social, mas mesmo que essa seja sua afirmação filosófica fundamental, e que eles a tenham inserido na lei, eles não agem de acordo com aqueles princípios. Ao invés disso, eles vão direto à subjetividade. Eles dizem que sua identidade nada mais é do que seu sentimento subjetivo daquilo que você é. Bem, isso também é uma ideia exageradamente empobrecida do que é que constitui identidade. É como a alegação de uma criança egocêntrica de dois anos, e eu quero dizer isso tecnicamente. Sua identidade não é só como você sente sobre você mesmo. É também como você pensa sobre você mesmo, é o que você sabe sobre você mesmo, é seu julgamento informado sobre você mesmo. Ela é negociada com outras pessoas mesmo se você for vagamente civilizado porque de outra forma ninguém lhe suporta. Se sua identidade não for um híbrido daquilo que você é e daquilo que as outras pessoas esperam, então você é como a criança no parque com quem ninguém pode brincar.

Além do mais, sua identidade é um veículo prático que você usa para manobrar a você mesmo durante a vida. Em sua identidade real, você é um advogado, você é um médico, você é uma mãe, você é um pai, você tem um papel que tem valor para você e outros. Nada disso é subjetivamente definido. Então isso é completamente absurdo, e filosoficamente primitivo, e psicologicamente errado. Ainda assim, está inserido na lei. Eu acho que a lei faz das discussões de biologia e gênero ilegais. Acho que nós tivemos um gostinho disso na entrevista da TVO Agenda que eu tive onde [o professor de estudos transgêneros da U de T] Nicholas Mack disse ‘bem, o consenso científico das últimas quatro décadas é que não há diferença biológica entre homens e mulheres’. Isso é uma proposição absurda. Há diferenças entre os sexos em todos os níveis de análise. Há escalas de masculinidade/feminidade que foram derivadas; elas são basicamente derivações secundárias de descritores de personalidade. Há diferenças enormes de personalidade entre homens e mulheres. Há literatura explorando diferenças entre homens e mulheres em personalidade em muitas, muitas sociedades no mundo todo. Eu acho que a maior publicação examinou 55 sociedades diferentes. E eles ranqueiam as sociedades por igualdade sociológica e política. A hipótese era que se você equaliza o ambiente entre homens e mulheres, você erradica as diferenças entre eles. Em outras palavras, se você trata meninos e meninas igual, as diferenças entre eles desaparecerão. Mas não é isso que os estudos mostraram. Na realidade, elas se tornam maiores. Aqueles são estudos de dezenas de milhares de pessoas. A teoria do construtivismo social foi testada. Ela falhou. A identidade de gênero é muito determinada biologicamente.

 Excelente.



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