Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

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terça-feira, abril 16, 2013

Doutrinação e empulhação no ensino de geografia – 1

Fonte: bbsradio.com

Sobre: Tomatadas: Professores fazem doutrinação por terem sido igualmente doutrinados
Diniz, o comentário deste, eu suponho, professor é interessante porque toca em um ponto que muitas vezes passa batido, sem que tenhamos dado a devida atenção. Ele diz que o fato do professor escolher (eu diria sugerir), três livros didáticos para as secretarias de educação, municipais ou estaduais proferirem o veredicto final, não implica que ele tenha muita influência no processo decisório e, portanto, em sua capacidade de doutrinar. Ora, a premissa do comentário é equivocada, pois a capacidade de doutrinação não tem uma forçante formal, não é porque o estado ou município vaticina algo que os professores consentem. Se fosse assim tão simples, não teríamos oposição na ditadura porque o que mais tínhamos era censura e nem por isto professores, artistas e, muito menos, alunos concordavam com a ideologia oficial e sua propaganda. Ele diz que nas escolas particulares é bem pior porque, muitas vezes, se adota o sistema apostilado onde “tudo já vem pronto”. Outro equívoco, o que uma escola particular quer é que seu aluno fique satisfeito e não haja reclamações dos pais (daí a difícil tarefa de lidar com indisciplina, sobretudo quando ela é majoritária). Portanto, se o professor entrar com camiseta do Che Guevara na aula de História ou Geografia(!), mas for um “professor-show”, i.e., um entertainer ou, de modo menos adocicado, um palhaço está valendo. Eu já vi vários casos, que não creio ser a maioria, em que professores seduziam alunos (sobretudo alunas com seu charme de gigolô) e se faziam de amigos de adolescentes com seus crônicos déficits de presença paternal. Em um dos mais bizarros casos que vi, um professor de história entrou assoviando e cantarolando em sala de aula após o atentado de 11 de setembro nos EUA. Mais tarde ele se tornou um vereador em Santos, SP... Em suma, tem IBOPE? Os professores pintam e bordam. E se for em escola pública, nas quais a aceitação por parte dos alunos não é levada em conta como no setor privado? Se o professor concursado já tiver obtido sua estabilidade estatutária, eles também pintam e bordam.

E tu está certo sim, a maioria dos professores usa (quando usa...) os livros didáticos como mero material de apoio. Livros estes, diga-se de passagem, cuja maioria já vem com forte viés ideológico. Tenho uma série de informações coletadas sobre questões de vestibulares[1] e concursos em geral e, também já vi inúmeras páginas com assertivas enviesadas ou, na melhor das hipóteses, com regionalizações e simplificações grosseiras e ultrapassadas, como bem apontou o Fernando.[2]
Dentre tantas lembranças que eu tenho, em mais de 20 anos “de tablado” lecionando geografia no ensino fundamental e médio, em escolas públicas e, sobretudo, privadas, eu nunca vi:

·        Uma passagem sequer de livro nenhum afirmando que os chamados “tigres asiáticos” desenvolveram um forte mercado interno, pois a visão corrente é que são meras plataformas de exportação, cuja população não tem acesso aos próprios bens de consumo que produz(!);
·        Alguma passagem mostrando ações soviéticas incisivas durante a guerra fria e tachando-as, assim como sempre fazem com os EUA, como imperialistas, pois o que se alega é que apenas houve “erros de percurso na construção do socialismo”, ou se fez assim foi porque tinha que competir com os EUA e daí tudo resulta perdoado;
·        Se nossas grandes empresas multinacionais extraem a mais-valia do trabalhador e levam os lucros para fora, como se explica que suas filiais no país competem com outras filiais da mesma empresa no exterior? A ideia de uma grande corporação dominando o mundo se assemelha a figura de um polvo com seus tentáculos, mas na realidade, estes braços se debatem e são dotados de uma autonomia cada vez maior na medida em que os mercados internos se fortalecem. Não obstante, tudo que temos nos livros didáticos é a suposição de que estados-nacionais não passem de reféns de uma força global. O chamado estado com a imposição de tarifas alfandegárias é algo tão óbvio que estudar por um livro de geografia que ignore esta relação nos passa a impressão de estarmos submersos em um mundo de devaneios sem pé na realidade;
·        Como combater a fome no mundo quando se critica abertamente a presença de multinacionais do agronegócio, tratadas como vilãs como a Monsanto, ao passo que os países que registram os maiores casos de subnutrição são, justamente aqueles nos quais vigora a agricultura de subsistência, i.e., a orgânica tida como condição essencial para libertação do agricultor das amarras e dependência para com o capital? Ora, se isto fosse verdade haveria um jogo de soma zero no qual o desenvolvimento do empreendimento agrícola só seria possível, então, com nossa fome, uma vez que para que esta produção vingue, com baixíssimas taxas de produtividade, a escassez de gêneros alimentícios é um subproduto tão indesejável como inevitável.

 Os clichês são tão surrados, tão recorrentes e tão infames que mal dá para listá-los em uma seleção lógica. É como se todo argumento fraco e ultrapassado contra o capitalismo fosse colocado numa bacia e jogado e sacudido para estabelecer a ordem dos capítulos destes livros didáticos. Uma nojeira... Há inúmeros exemplos de raciocínios truncados, senão flagrantes contradições como esta que podemos vir a explorar em posts seguintes (acompanhem os próximos capítulos). E, por favor, se tiverem exemplos de livros mais lúcidos sobre estes e outros temas, me informem mesmo, pois estou precisando para indicar aos professores que bebem da fonte da idiotia como se fosse água filtrada.
Neste trecho, o teu interlocutor toca em um ponto chave:
“(...) Os professores não deviam mesmo confiar muito nos livros, mas o fato é que são mal formados e essa desconfiança não é incentivada por ninguém, a começar pelo discurso dos livros, invariavelmente monológicos e peremptórios (você mesmo já fez observações interessantes a respeito da desatenção para a variedade de explicações).
A questão é de onde vem esta má formação? Eu fiz o curso de geografia muito tempo atrás, mas já naquela época, fim dos anos 80 quando não só os professores de geografia tinham uma visão pobre desses assuntos, mas o pessoal da pedagogia, que nós tínhamos que encarar para a licenciatura pouco se preocupava com a dinâmica de sala de aula em si, mas se limitavam a um discurso revolucionário encarando o ensino tradicional como mero fenômeno superestrutural da dominação de classe ou dominação em si (de gênero, racial etc.). Ou seja, o sujeito saía destas disciplinas sem sequer estudar conflitos de sala de aula, psicologia de adolescentes, organização e administração escolar etc. Isto não rolava.
Quanto ao teu comentário:

Dizer que os professores não desconfiam dos livros por serem "mal formados" acaba por dar razão ao meu diagnóstico de que os professores usam esses livros porque concordam com seus conteúdos e concordam com seus conteúdos porque aprenderam no ensino médio e na faculdade as mesmas coisas que estão escritas nesses livros.
Note que mesmo dentro da visão deturpada deles, a maioria simplesmente sequer se debruçou sobre os cânones que diz defender. São leitores de informações terciárias ou quaternárias acostumados a lerem apenas resenhas de livros, obtidas facilmente na internet. Mas vai se cobrar que leiam um livro por disciplina para ver que choro e berreiro que acontece...
E, por fim, o que tu observa como homogeneidade do livro didático é algo relativamente simples de entender, uma vez que a norma é “buscar inspiração em autores consagrados”. Deixo este comentário sobre as cópias e reciclagens dos autores para outro momento, mas já dou uma dica, a regra é que do “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” pode ser adaptada para nada se cria, nada se perde, tudo se copia.
E o discurso da liberdade de expressão, da autonomia de opinião e da pesquisa e construção do conhecimento vão pelo ralo do misto de tradição, culto e pseudociência não investigativa, mas extremamente laudatória por trás disto tudo. A ocorrência de citações de autores famosos que proferem frases de impacto, sem correspondência na realidade, que se lixam para a estatística quando cobrados por dados e fatos que corroborem suas afirmações... “Você quer resumir o ser humano a número?”... Conferem um ar de autoridade intelectual na proporção direta que afastam o aluno do conhecimento porque este se mostra vago, etéreo e constituído por metáforas.

....



Um comentário:

  1. Experimentei usar outro navegador, como o Fernao sugeriu, e deu certo.

    Indo ao assunto, você tem razão quando fala sobre a autonomia que os professores têm para ensinar o que quiserem e como quiserem. No texto "A Geografia Crítica no Brasil: uma Interpretação Depoente", o Vesentini conta que, em 1969, ele e outros professores já ensinavam sobre luta de classes numa escola particular onde ele trabalhava.

    O DOPS chegou a fazer duas batidas no local, confiscou alguns equipamentos e levou os professores para prestar depoimento (mas não o Vesentini, que não estava na escola nessas ocasiões). Mas ninguém foi preso por isso, de sorte que essas ações não os impediram de continuar o trabalho de doutrinação ideológica esquerdista nas escolas. É por isso que o Vesentini afirma, com base nessa experiência pessoal, que a geocrítica brasileira nasceu no ensino médio, não na universidade. Bom, se os professores conseguiam falar sobre luta de classes numa escola privada em plena ditadura militar... imagine nos dias de hoje!

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