Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

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quarta-feira, março 16, 2016

Quando comecei a criticar o PT...

 Lucas Mafaldo13 h · Ottawa, ON, Canadá ·
"Quando comecei a criticar o PT em público, eu dei início a um fenômeno desagradável: vários colegas foram parando de interagir comigo.

Não que eu precise de muita atenção -- enquanto minha esposa estiver me aguentando, 'tá tranquilo. O problema é o motivo do sumiço: eu olho os perfis e não vejo mais sinal de interesse por filosofia, literatura ou ciência. Há apenas uma ordem do dia: defender o PT a todo custo -- ou ao menos salvar a reputação de parte da esquerda.

O que eu me deixa com uma questão sincera: qual é o processo mental de alguém que ainda defende esse governo?

"Mas o PSDB é pior!" Mas... e daí? O PT está no poder há quatorze anos. Quatorze! Tem adolescente que já nasceu com o PT na presidência. Quantas décadas alguém precisa governar para se tornar responsável por suas ações? Além disso, esse argumento deveria levar apenas a sentirmos uma repulsa pelo PT e pelo PSDB -- o que sinto -- e não a defender quem está no poder agora e há mais tempo. Isso equivale a defender o mal atual por ter existido outros males maiores no passado. Não precisamos fazer isso.

"Mas as conquistas sociais!" Ora, mas isso não é invenção do PT. Praticamente todo país do mundo tem welfare state em alguma medida. O que não tem nos outros países são: ausência de saneamento básico, sessenta mil assassinatos ao ano e medo generalizado de andar nas ruas. Por que teríamos que aceitar o desgoverno completo só para ganhar no pacote alguns programas sociais? Sem falar que, sem o completo desastre econômico dos últimos anos -- e principalmente sem os petrolões, mensalões e aparelhamento das estatais e dos fundos de pensão -- teria sobrado muito mais dinheiro para os serviços públicos.

"Mas o PT deixa investigar!" Se isso fosse verdade, ainda seria um péssimo argumento. É pior que o "rouba, mas faz". É o "rouba, mas não instala uma ditadura".

E, em todo caso, isso não é verdade. Tem gravação do líder do PT no Senado falando em corromper juiz do STF e em tirar testemunha do país. Estão cogitando levar Lula para o ministério só para livrá-lo da investigação. Isso é inegavelmente obstrução da justiça.

Não é que o PT deixe investigar. É que ele tenta, tenta, mas ainda não conseguiu parar totalmente as investigações. O PT é algo pior do que um partido de criminosos: o criminoso tenta se dar bem, mas deixa a lei quieta. O PT tem um projeto de poder que visa subverter e destruir todas as instituições que estiverem pelo seu caminho.

Não encontro nenhum argumento que faça sentido. O que me deixa -- sinceramente -- coçando a cabeça e tentando entender como ainda tem gente que defende isso.

Eu estou começando a achar que a explicação realmente passa por alguma coisa análoga à ideia do "marxismo cultural". Para quem não ouviu falar disso, é o seguinte: mesmo quem não adere formalmente ao marxismo, acaba interpretando todos os fatos segundo uma narrativa de inspiração marxista -- simplificada e vulgarizada -- dado a sua força na cultura em que estão inseridos.

Essa narrativa é mais ou menos a seguinte: no palco da política existe uma luta do bem contra o mal. É a velha luta de classes. De um lado, temos os burgueses -- os defensores do capitalismo e da exploração. Do outro, os proletários -- os defensores dos oprimidos e da justiça social. Todo mundo precisa escolher seu lado.

Dentro dessa narrativa, todo crime do PT está perdoado de saída. Eles são, afinal, os heróis do povo -- o que os absolve previamente de qualquer pecado que venham a cometer durante a gloriosa luta contra o Capital. Complementarmente, é preciso suspeitar e duvidar de qualquer ato -- por mais correto que seja -- daqueles que estão do outro lado. Em suma, perdão completo e irrestrito para os que estão do nosso lado -- dúvidas e suspeitas para quem está no nosso caminho.

Nesse mundo invertido, uma família que contrata uma babá é a inimiga do povo. O juiz que conduz uma investigação de desvio de dinheiro é o alvo das suspeitas. Aqueles que vão às ruas protestar contra a corrupção são os inimigos da democracia. Lula, que viaja de avião particular para ajudar empreiteiros a conseguir verbas públicas, é o herói proletário. O gabinete petista, onde ministro após ministro cai diante de acusações de corrupção e obstrução da justiça, representa a ordem institucional. Nesse sentido, eu, que fico aqui olhando o calendário para ir no supermercado no dia que tem desconto, só posso mesmo ser a própria encarnação da elite financeira global.

É uma narrativa poderosíssima. Ela engole todos os fatos. A única escolha que ela nos dá é escolher de qual lado iremos ficar.

Mas é também uma narrativa insana. O mundo simplesmente não funciona assim. É impossível destruir toda uma narrativa em um espaço tão curto, mas eu peço -- não, eu imploro! -- tente colocar esse esquema mental em questão. Essa imagem do mundo está totalmente errada. Precisamos de novas narrativas.

Olhem para os Estados Unidos, para o Canadá, para a Alemanha. Em poucos países se vive tão bem -- e falo justamente dos mais pobres. Agora olhem para Cuba, para a China, para a União Soviética. Nenhuma ideologia deixou um rastro de destruição, opressão e miséria tão longo quanto o marxismo. (E, antes que me falem da África, notem que houve ali pouquíssimo livre-mercado e "rule of law". O que havia eram ditaduras, colônias e um "capitalismo de estado" que foi substituído por revoluções socialistas e nacionalistas que aumentaram ainda mais a miséria anterior.)

Embora o marxismo já não seja levado à sério como doutrina, ele parece ter ficado impregnado no inconsciente coletivo. Continuamos enxergando luta de classes -- e heróis do povo -- onde há apenas mafiosos destruindo as instituições e roubando o dinheiro público. Precisamos de uma terapia cultural para nos livrar dessa neurose.

Eu comecei falando que minhas críticas ao PT afastaram meus colegas. Eu imagino que esse texto os afastará mais ainda -- se é que ainda lêem o que escrevo.

Mas juro que não é minha intenção. Eu escrevo essas palavras na esperança -- vã, alucinada -- que elas saltem da tela e lhes façam ouvir esse apelo:

-- Não precisamos defender bandidos. Não precisamos aceitar ataques sistemáticos às instituições públicas. Quem abre empresa, trabalha e investe seu capital não é nosso inimigo. Os nossos opressores estão no governo, desviando o dinheiro dos bens públicos para o próprio bolso e para financiar um projeto de poder.

(Sei que não há nada que eu diga que vá impedir alguém de vir falar no PSDB nos comentários, mas vou tentar: estou pouco me lixando para esse partido. Eu sou favorável ao livre-mercado, voto distrital e parlamentarismo no modelo inglês -- não no modelo PMDBista. Por mim, a saída para a crise é convocar novas eleições no nível nacional e renovar toda a classe política.)" 

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Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

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