Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

Compre o livro NÃO CULPE O CAPITALISMO nos links abaixo:




sábado, novembro 26, 2011

IDH e obscurantismo da ONU

Um velho texto meu, de 2003, quando escrevia para o MSM. E, claro, muitos links estão quebrados:


IDH e obscurantismo da ONU
por Anselmo Heidrich em 07 de outubro de 2003 
Resumo: A ONU se esforça em semear suas teses estatizantes e antiliberais ao sabor de um ranço tipicamente terceiro-mundista. 


A ONU se esforça em semear suas teses estatizantes e antiliberais ao sabor de um ranço tipicamente terceiro-mundista. Segundo recente relatório, a queda no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 54 países é reflexo da "globalização neoliberal" na década de 90 [1].
Este indicador nos mostra o que já é de amplo conhecimento da maioria, os países que se apresentam na dianteira pertencem a Europa Ocidental, América Anglo-Saxã e Japão. Mas ele não correlaciona efeitos às causas. Já o índice de Liberdade Econômica2 da Heritage Foundation/The Wall Street Journal analisa a política econômica de tais países, em grande parte responsável por seu sucesso ou insucesso econômico. No topo da lista quanto às melhores condições de comércio, política fiscal, monetária, financeira, qualidade da intervenção estatal entre outros figuram países como Cingapura, Luxemburgo, Nova Zelândia e territórios como Hong Kong.
Mas para a economista da ONU, Sakiko Fukuda-Parr que avalia tão somente o IDH3, "o impacto negativo da ‘abertura de mercados sem o fortalecimento do setor público’ só está aparecendo agora, dez anos depois da introdução de políticas de abertura de mercado". Mesmo admitindo que "o mundo ficou mais rico de uma forma geral", as conclusões do estudo apontam uma crise de desenvolvimento. Ao invés de apontar as raízes de por que alguns países não se desenvolvem e outros sim, procurando aí fatores endógenos ao desenvolvimento, trata-se de apontar um grande "processo" que espolia, extorque ou algo assim, o sangue e suor dos países subdesenvolvidos ao velho saber do terceiro-mundismo ressentido.
Mas como diz o economista John Williamson, como o mundo ficou mais pobre se a renda per capita aumentou? É claro, sabemos que se trata de uma média simples, mas em termos globais (já é que é disto que trata o estudo da ONU) não dá, pelos mesmos motivos, para se dizer que o mundo empobreceu. No máximo, poderíamos apontar um aumento da desigualdade interna aos países, mas disto não se fala no estudo da economista.
Em se tratando de América Latina, quais foram as reformas orientadas ao mercado adotadas nos anos 90? Uma década apontada por crises, baixo crescimento e com baixa distribuição de renda combinados se viu uma primeira geração de políticas prevendo liberalização (parcial) e estabilização, mas sem uma segunda geração complementar, de infraestrutura institucional da economia de mercado com viés igualitário. E as novas iniciativas necessárias não foram implementadas.
Interessante também como o estudo da ONU que, ao se basear no IDH, condena o aspecto quantitativo se baseia no número de países e não na população, pois se considerarmos só China e Índia, ou seja, 40% da população mundial, tiveram incremento de renda.
Ao se analisar a situação do Brasil, enfatiza o fato do país ter IDHs diferenciados conforme diferentes áreas, algumas semelhantes às da Europa e outras da África. Mas não há uma vírgula contendo análise sobre como tais localidades bem sucedidas se preparam institucionalmente para crescer, cujos exemplos poderiam ser seguido por outras.
Ao falar da posição brasileira, inferior a colombiana, a economista tergiversa. Atribui tal situação ao baixo índice de alfabetização e expectativa de vida, o que são efeitos e não causas.
Se o Brasil fica em 65º lugar na lista que relaciona 175 países com base em fatores como saúde, educação e renda, isto se deve à quê? A "globalização neoliberal" diria a economista da ONU. Mas não, isto se deve ao estado inchado e neopratimonialista4 que temos. Uma avaliação desse tipo de estado não interessa a ONU.
Segundo pesquisa feita pelo Banco Mundial, "The World Business Environment Survey"5, enquanto os demais países do Mercosul têm uma carga tributária de 19% do PIB, EUA e Canadá algo em torno de 32%, a brasileira se aproxima dos países europeus integrantes da Organização Econômica para Cooperação e Desenvolvimento6, mas têm avaliação pior nos itens saúde, educação, administração, lei e ordem.
Se for verdade dizer que o Brasil avançou pouco na educação como quer a economista da ONU, isto não se dá devido a uma "Nova e Maligna Ordem Mundial"7, mas sim devido a má administração de fundos públicos. E quando digo "má administração" não me refiro à famigerada corrupção, mas ao fato de não focalizarmos bem o objeto de desenvolvimento, ou seja, que o grosso dos recursos vai para o ensino superior e não para o ensino básico.
Também não faço coro àqueles que vêem como panacéia educacional o simples aumento salarial dos professores. É óbvio que é importante, mas tão importante quanto se trata de implantar algum sistema meritocrático onde os professores sejam avaliados e seus ganhos condicionados a isto.
Dados jogados aleatoriamente sem muita reflexão existem aos borbotões no estudo. Apesar da ONU criticar os estudos meramente quantitativistas, como explicar este tipo de afirmação?
"A economista diz, no entanto, que o Brasil avançou muito no campo da educação. (...) A avaliação é baseada principalmente no aumento do número de crianças matriculadas na escola e na redução dos índices de analfabetismo."
Segundo recente estudo do Sistema de Avaliação do Ensino Básico, do Ministério da Educação, 64% dos alunos da 5a série no Brasil não sabem ler8. Será que os economistas da ONU atribuem isto a uma "praga neoliberal"? Se, como afirmam "as melhoras foram muito irregulares" com a redução do analfabetismo de 12% a 18% na média nacional, mas apenas 1% na região Norte, qual a relação disto com o FMI e seu "receituário econômico" ou o Consenso de Washington?
Como deixar de levar em conta que a crise educacional é uma crise na formação do professor e que isto se imbrica com a qualidade do serviço público? Ou iremos acreditar agora que a região Norte possui mais ligações com a economia global e a volatilidade do capital financeiro do que as regiões Sudeste e Sul, já que se trata de acusar a globalização por algum mal? Para qualquer leitor com mínimas preocupações de lógica econômica, as afirmações da representante das Nações Unidas não têm o menor sentido.
Ou, por outro lado, se a renda per capita brasileira caiu, graças ao baixo crescimento da economia brasileira, isto se deve a entrada de cabeça na economia neoliberal dos anos 90? Mas, quando o país atravessou os anos 80 da "década perdida" com queda do PIB e tudo mais, o protecionismo econômico brasileiro e latino-americano em geral não contava para tanto? Qual seria a desculpa? Ao invés de se acusar o estado inchado e sua carga tributária, seriam as multinacionais as culpadas pela queda no PIB?
Sem dúvida que o estudo não levou em consideração o crescimento das economias asiáticas, cujos países transformaram-se em plataformas de exportação sob os auspícios do neoliberalismo destravando barreiras alfandegárias. Conveniência desconsiderar o fato?
Se for lícito dizer que o primeiro mandato do governo FHC errou em manter o câmbio sobrevalorizado criando um enorme déficit na balança de pagamentos, como seria possível investir em programas sociais sem o crescimento da economia? Como, sem procurar gerar um menor déficit público? A analista da ONU parece deixar implícito que os investimentos sociais são necessários à qualquer custo, mesmo que tais recursos se façam a custa da geração de mais déficits públicos.
Sinceramente, o espírito que move a análise desta gente é o mesmo que protesta em reuniões do FMI ou da OMC em Seattle, Doha e Cancún. Ao invés de propor mais abertura comercial que, obviamente, beneficiaria os mais pobres, vêem em tais conferências processos intrinsecamente maléficos que só tendem a beneficiar países ricos.
Um acordo favorável aos países pobres em Cancun que levasse a diminuição de tarifas de importação das economias avançadas lhes renderia até US$ 520 bilhões em lucros, tirando 140 milhões de pessoas da pobreza até 20159.
Em média, as mais de 2,7 bilhões pessoas que vivem com US$ 2 ou menos por dia enfrentam o dobro das barreiras comerciais impostas aos ricos no mundo. Assim como os países em desenvolvimento possuem geralmente menos distorções em subsídios que seus parceiros ricos através de tarifas protecionistas, são mais restritivos na área de serviços que tende a mina-los em suas economias ao diminuir sua produtividade. A globalização econômica como "via de mão dupla" tende a beneficiar especialmente os países pobres.
Obviamente o comércio puro e simples não é suficiente para o desenvolvimento dos países pobres. A sofisticação da infraestrutura também é fundamental. A redução em um dia do tempo que levam as mercadorias nos portos e alfândegas, por exemplo, equivale a reduzir as tarifas dos importadores em 1%.
Qual é a idéia dominante na ONU acerca da globalização econômica? De um "Fórum Social Mundial" em Porto Alegre até os mais recentes protestos em Cancun, "nós" do "terceiro mundo" somos explorados por "eles" do "primeiro mundo". Assim vai a horda em suas "profundas reflexões"...
Para estes fossilizados terceiro-mundistas, os países subdesenvolvidos têm uma maior taxa de desemprego por que são explorados. Isto é, no jogo de soma zero das nações endossado por eles, onde uns ganham por que outros perdem, nossos produtos, commodities são desvalorizadas estrategicamente por uma máfia mundial dos países ricos. Tudo na mais conveniente Teoria Conspiratória.
Um país qualquer com sua história particular, o Haiti, por exemplo, o mais pobre da América Latina tem, nesta perspectiva, uma pronta justificativa: composto na maioria por descendentes de africanos é resultado de cruenta exploração colonial e escravismo. Apresenta poucos recursos naturais e subsiste, em parte, da ajuda internacional e da atividade de 70% de sua população ativa na agricultura. Mas espere aí! Esta não foi, justamente, a primeira república negra mundial a alcançar sua independência em 1804? Não teria havido tempo mais do que suficiente para o país ter atingido um patamar mais satisfatório em seu bem-estar social e econômico?
Hernando de Soto em seu O Mistério do Capital nos diz que o Haiti é o país mais pobre do continente americano e seus pobres possuem ativos que correspondem a 150 vezes o que já obtiveram em ajuda internacional desde sua independência da França em 1804. Outro dado interessante: se os EUA transferissem aos países pobres em ajuda o recomendado pela ONU - 0,7% de seu PIB - o país mais rico da Terra levaria 150 anos para transferir àqueles, os recursos que estes já possuem.
Então, a questão não é a organização interna? De como gerir seus próprios recursos? Parece óbvio que sim, mas os terceiro-mundistas ainda dirão que o peso da colonização é por demais grandioso para permitir uma liberação da "dependência" aos países ricos. Os parâmetros de análise desses cérebros fossilizados estão totalmente equivocados, ao invés de enfatizarem a busca por uma interdependência que gere desenvolvimento, eles crêem em um desenvolvimento mágico baseado na idéia de auto-suficiência.
Insistirão dando exemplos deslocados do conjunto da análise econômica como o petróleo, o couro, o ferro, a bauxita, o zinco, o cobre, o látex etc., utilizados na fabricação e consumo de um automóvel não têm seu "preço justo" auferido na troca de bens no comércio internacional.
Apesar de se passar do argumento da colonização para o da competição, o que revela uma certa evolução do pensamento, mesmo assim, as premissas terceiro-mundistas são falhas.
Este raciocínio não é exclusividade de líderes ou pseudo-intelectuais terceiro-mundistas, alguns chefes de estado europeus têm sugerido que a causa de suas maiores taxas de desemprego reside na falta de competitividade industrial de seus produtos e não na crise de seu welfare state. Esta hipótese tornada "verdade" por líderes de ocasião não condiz com a realidade empiricamente verificável.
O descuido reside no fato de se confundir escalas de análise. Dizer que os Estados Unidos são competitivos no mercado global é algo fundamentalmente diferente de dizer que a Ford é competitiva no mercado de pick ups. O fim de uma empresa significa falência e o mesmo não pode ser dito de um país. Seria então a "falência nacional" representada pelo déficit constante e cada vez maior na balança comercial? Então, justamente, os Estados Unidos são o país mais comprovadamente falido do mundo devido a sua balança comercial constantemente negativa.
Isto é relativo. Em seu Internacionalismo Pop, Paul Krugman diz que na década de 80, o México foi acumulou vários superávits comerciais para pagar os juros de sua dívida externa, uma vez que os investidores mostraram-se receosos de efetuar novos empréstimos. Já, nos anos 90, reconquistada a confiança do capital internacional, o país contraiu novo e crescente fluxo de capital tornando sua balança de pagamentos positiva, ao mesmo tempo em que aumentava seus déficits comerciais. A segunda situação revelou força econômica para suplantar uma crise externa. Mas o que diria o paleolítico cérebro terceiro-mundista sobre os anos 80 que, apesar da maior competitividade, revelou um momento de fraqueza estrutural da economia mexicana?
A visão terceiro-mundista restrita às variações da balança comercial revela outra ingenuidade engraçada: se todos países buscarem e se empenharem em atingir a meta de mais e mais competitividade procurando exportar mais que importar, quem vai importar o quê? Não haverá mais importadores se todos só almejam exportar, ora bolas!
Descartadas as possibilidades da colonização e da competitividade nacional, o que resta ao mofado cérebro terceiro-mundista? Alguns falam em "dependência" uma palavra-chave, em realidade, um corolário para a noção de imperialismo. Para eles, haveria um "desenvolvimento nacional não dependente".
A situação de não dependência que tanto preconizam os terceiro-mundistas é vaga. Afinal, o que significa exatamente "não ser dependente"? Ser dependente economicamente de vários países - o que se costuma chamar de global trader -, não dá no mesmo que ser dependente majoritariamente de um único mercado representado por outro país. E, mesmo nesta situação não tão segura, encontramos um país como o Canadá, extremamente dependente dos Estados Unidos. Já, o Burundi não. Acho que não preciso explicitar e justificar qual país detém o melhor Índice de Desenvolvimento Humano...
Falta clareza e definição conceitual para os terceiro-mundistas da ONU. Sobra obscurantismo.



Fontes:

4 "(...) um sistema político que não funciona como ‘representante’ ou ‘agente’ de grupos ou classes sociais determinados, mas que tem uma dinâmica própria e independente [o que se mostra] incompreensível dentro de uma visão de corte marxista ou economicista convencional - que tende a interpretar tudo o que ocorre em uma sociedade em termos de sua divisão de classes -, mas torna-se mais inteligível em uma perspectiva weberiana, que distingue e trata de maneira diferenciada os sistemas de classe, os sistemas de dominação política e os sistemas de privilégio social e status em uma sociedade" (SCHWARTZMAN, Simon. Bases do Autoritarismo Brasileiro. Editora Campus, 1988, 3a. ed., p. 14).
7 À propósito vejam este interessante link cético: http://skepdic.com/illuminati.html
8 Folha Online, 12/09/2003 - 15h36.
9 Valor Econômico. Terça-feira, 9 de setembro de 2003 - Ano 4 - Nº 840 - 1º Caderno
...

3 comentários:

  1. Oi, Anselmo. O link para o texto está quebrado. Daria pra colocar o texto inteiro aqui no blog?

    ResponderExcluir
  2. Como disse o meu ex-orientador, Wanderley Messias da Costa, durante uma aula, a ONU é uma estatal mundial: grande, pesada, cara e pouco eficiente. E acrescento eu, com base no seu texto: a ONU malha a economia de mercado e o livre comércio porque é formada por políticos e pesquisadores que ganham dinheiro servindo ao Estado e à ONU. Nesse sentido, suas críticas ao mercado são uma forma de vender seu peixe...

    O IDH foi criado para ser uma medida de desenvolvimento e de qualidade de vida menos vinculada ao desempenho econômico, mas, na prática, seus resultados são a maior prova de que combinar economia de mercado com regime democrático é o melhor caminho para acelerar o crescimento econômico e a elevação dos indicadores sociais. O socialismo e as fórmulas terceiro mundistas da ONU e dos populistas da América Latina simplesmente não funcionam, como mostra o IDH. Mas a ONU jamais admitirá isso...

    ResponderExcluir