Não Culpe o Capitalismo



Pessoal, eu,

Anselmo Heidrich, o Fernando Raphael Ferro de Lima e o Luis Lopes Diniz Filho,

administradores dos blogs


respectivamente, acabamos de lançar um libelo da GEOGRAFIA ANTI-MARXISTA, o 1º do país!

Prestigiem...

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domingo, junho 05, 2016

Qualquer ideologia funciona mais ou menos



Assim, amiguinhos:
1.     A Somália não serve de exemplo de anarquismo?
2.     Os partidos políticos são guiados por ideologias bem definidas?
3.     Ideologia é algo mais concreto/efetivo do que o vago conceito de fenômeno social?
Para estas e outras dúvidas aconselho uma dose de discussão metodológica em ciências sociais.

Vamos lá, em 1º lugar, a realidade não é preto no branco, nunca foi. Há vários tons de cinza e são bem mais que 50... Até onde sei, o Republicano é anterior – Great Old Party, GOP – e o Democrata partiu dos estados sulistas. O que ocorreu pós Guerra de Secessão é articulação deste último para obter fundos da federação, já que o norte yankee era mais rico. A partir dos anos 60, com a contracultura, a New Left se estabeleceu dentro do Democrata, mas isto não caracteriza uma ideologia consolidada (como se vê em partidos comunistas, nazistas, liberais, socialistas etc.), são só articulações de interesses. Há muito tempo venho cantando esta bola que isto, na verdade, é que permite uma “cola social” aos EUA eliminando os extremismos.[1] Analogamente, qual seria a ideologia do PMDB? Não existe. Assim como o PSDB, por mais social-democrata que se afirme, qual a correspondência disto com o que vemos na Europa sob o mesmo rótulo? Nenhuma. E o PT seria um partido trabalhista? Dá um tempo! Não existe isto, exceto em legendas menores, que são menores justamente porque são puristas. Mesmo dentro do quadro conservador do Republicano não há esse purismo, uma vez que eles tem uma ala gay, uma vez que o pai de George Bush, quando governador do Texas propôs um controle de armas (gun control), o que é um verdadeiro tabu para conservadores. Portanto, falar em fenômeno social é muito mais acertado porque denota espírito analítico ao separarmos o nome, a ideia (ou ideologia) do que nós realmente observamos.
E o anarquismo? Do campo das ideias é uma beleza, é a mais perfeita das ideologias que, aliás, eu conheço desde meus 13 anos quando tive em mãos Os Grandes Escritos Anarquistas de George Woodcock, professor de história canadense. Mas, o que deu certo desta ideologia do século XIX? Onde foi aplicada? Em lugar nenhum. Seja as ideias de Pierre-Joseph Proudhon, de Michael Bakunin, de Enrico Malatesta ou Piotr Kroptkin, nada foi aplicado que durasse. Só noites efêmeras numa Comuna de Paris sitiada. E se dar ao luxo de acreditar nesta piada é negar a etologia, é negar a ciência. Não gosta do estado? Controle-o. Não é porque eu não gosto de ficar gripado que vou me achar tolo o suficiente para eliminar o vírus da face da Terra... Mesmo experiências autonomistas, como na comunidade de Christiana (dentro da cidade de Kopenhagen) existe uma série de regulamentos, como não usar drogas pesadas e portar armas de fogo.[2] Ora, assim até o Colorado e o Texas são mais livres que os novos anarquistas do século XXI! Portanto, se eu utilizasse a definição filosófica do século XIX, eu seria um materialista, pois o que me importa seria o campo da realidade, a sociedade e não, o campo das ideias, que me definiria como um idealista.[3] Prefiro, no entanto, outro par para explicar esta confusão... Em A Miséria do Historicismo, Karl R. Popper explica porque um grande elemento de atraso nas ciências sociais (no marxismo, em particular) é a busca por essências, algo como a estrutura molecular por detrás (ou dentro) dos fenômenos sociológicos. Marx, p.ex., chegava a mencionar esta analogia e toda sua “economia” é baseada na premissa de que existe algo oculto nas relações sociais e que as determina sendo que o que vemos está no mero “reino das aparências”. Isto é tão gritante na obra dele que não há a mínima preocupação em explicar os preços no mercado, pois isto seria meramente aparente e, de fato, contradiria totalmente sua visão econômica, pois implicaria em admitir e, pior, entender a lógica da economia de mercado.
Enfim, a este essencialismo, eu oponho o nominalismo, que é algo bem mais simples: nas ciências (sociais ou não), nós lidamos todo o tempo com nomes e esses remetem à conceitos, só que não é porque algo tem o mesmo nome que apresenta, necessariamente, o mesmo conceito. Daí entender como impossível um ruralista no Partido Verde, somente na conjuntura brasileira, pois em outras, podemos ter ruralistas orgânicos ou mesmo convencionais que procurem mitigar e/ou minimizar os impactos ambientais de sua atividade econômica. No caso que trato, o conceito de anarquismo é literal, sem ordem, mas não sem poder, pois poder é a moeda de troca de toda vida social. Não há um anarquismo, como o exemplo clássico que nos vem a mente quando lemos este nome (os casos do século XIX), mas vários... Os autonomistas do século XX, os anarco-capitalistas que vigoram até os dias atuais (assista os vídeos do youtuber Daniel Fraga que vai entender o que estou dizendo), os ambientalistas que propõem modelos de “economia solidária”, os próprios aborígines e indígenas que viviam em sociedades sem estado etc. Mas veja, nenhum deles elimina o poder. Poder é algo animal, biológico até. Negar este elemento dentro de um conceito de algo que não existiu e nem nunca vai existir é tão absurdo quanto um ideólogo de gênero tentando negar a biologia. E este é o conceito, sem ordem constituída de modo centralizado, que utilizo para caracterizar sociedades anárquicas, dentre as quais a Somália é um exemplo perfeito. Os caras não tem estado. Discorda? Então me dê um exemplo oposto, de paz e harmonia em sociedades sem estado. Exceto por contextos tribais e isolados, sem disputas por recursos não há como vicejar em populações numerosas. Isto mesclado a falta de segurança jurídica (garantida pelo estado) leva à exploração da mão-de-obra sem nenhum direito. Se tu tem uma dívida em trabalho não haverá algum órgão a que recorrer, caso discorde e será obrigado a pagá-la, nem que pela força (escravidão por dívida). Aliás, não vamos longe... Tem um país tropical, bonito por natureza, ai que beleza! Que em seus grotões isto é bem comum.
Mas em sociedades modernas existiria o verdadeiro anarquismo? Mesmo em comunidades autonomistas (que seria a releitura atual do anarquismo, vide o grego Cornelius Castoriadis), o mesmo só é possível dentro de territórios protegidos por forças armadas que não interferem naquilo dada sua irrelevância. Este é o caso de Christiana, dentro de Kopenhagen, dentro da Dinamarca que... Ora! Veja só! Faz parte da OTAN! Com os mísseis dessa organização, até eu faço troça de Putin...
Enfim, aprenda a diferenciar ideia, projeção, norma, ideal do que se observa e analisa. Se não tu vai continuar dizendo que Bakunin era um ícone da liberdade ao bradar contra o poder do estado e esquecer que ele era conhecido pelos governantes europeus de quase 200 anos atrás como o “pai do terrorismo internacional”. As ideias dele podem encantar jovens, mas nunca secarão as lágrimas das mães que perderam seus filhos com os artefatos que plantou para lutar por seu ideal.
Dois pontos que tu deveria procurar te informar:
1.     O que é liberalismo na Europa e nos EUA (não muda só a mão na estrada...);
2.     O poder clânico na Somália (assim como tribal na África), que manipula a ajuda da ONU e financia a pirataria no Oceano Índico, Mar Vermelho e, sobretudo, no Golfo de Áden;
3.     Metodologia em ciências sociais.

Este último é particularmente interessante com o tipo-ideal weberiano. Em A Lógica da Ação Social, Max Weber define o tipo-ideal como uma rede em que se joga na realidade e o que se encontra nunca é exatamente igual ao conceito por ele estipulado (nos casos clássicos que analisou, a dominação tradicional, a dominação carismática, a dominação racional-legal). O que se encontra, frequentemente, são tipos mistos, híbridos, com maior ou menor grau deste ou aquele elemento.
Eis aqui a súmula com o que tu tem que brigar:
·        metodologia (nominalismo v. essencialismo; tipo-ideal);
·        ideologias e fenômenos sociais (reais);
·        partidos nos EUA;
·        Chifre da África.


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Fas est et ab hoste doceri – Ovídio
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[1] Cf. Por que os EUA não são socialistas? <http://www.institutomillenium.org.br/artigos/por-que-os-eua-nao-sao-socialistas/>. Acesso em: 4 jun. 16.
[2] Cf. Interceptor: Anarquistas e sua vocação para ovinos. <http://inter-ceptor.blogspot.com/2016/06/anarquistas-e-sua-vocacao-para-ovinos.html?spref=tw>. Acesso em: 4 jun. 16.
[3] Esta terminologia não é mais adequada, pois o campo das ideias, a cultura, a religião, as ideologias são bem materiais, isto é, influenciam a realidade sendo fatores importantes em sua explicação.

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