sábado, agosto 06, 2011

Um povo sem heróis, mas com impunidade

         Nesta entrevista com Marco Antonio Villa ao Instituto Millenium, o historiador revela sua indignação com a respectiva falta de indignação da população aos sucessivos escândalos de corrupção no país. A ineficácia (quando não, completa ausência) da averiguação de tais casos desmotivaria por completo o surgimento do interesse em mudanças, particularmente pelos mais jovens.
Apesar de concordar com seus sentimentos e com os efeitos do que avalia na política nacional, há detalhes na sua fala que se não mantenho total discordância, eu tenho sim minhas dúvidas. Vamos a alguns trechos:


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Imil: Tais fatos podem gerar uma descrença na democracia, afastando ainda mais a população da política?
Marco Antonio Villa: Nós vivemos um momento sui generis. Não há um Estado autoritário, mas há umstatus autoritário no Brasil. As pessoas estão passivas porque não encontram conduto legal para manifestar sua insatisfação. Não é que elas estejam concordantes, em absoluto. Porém, não há mecanismos institucionais pra que elas possam manifestar sua profunda insatisfação frente à impunidade. E a democracia acaba virando um exercício a cada dois anos, simplesmente pelo voto. Porque a participação no decorrer da vida política entre as eleições não ocorre. Os partidos políticos são fechados, as câmaras municipais, assembléias legislativas e o congresso nacional também o são. A sociedade civil não tem espaços efetivos de participação e decisão nos grandes negócios públicos. Então nós temos um regime com eleições sucessivas, há alguma alternância, porém em relação à participação efetiva do cidadão e interesse pela política – que é fundamental para a formação de uma sociedade democrática – infelizmente nós vivemos, volto a dizer, um dos piores momentos da história do Brasil republicano. 
(...) 
Como disse o célebre jornalista Ivan Lessa, a cada 15 anos esquecemos o que aconteceu nos últimos 15. Nós temos um processo de esquecimento e apagamento da história com uma enorme facilidade, o que é extremamente danoso para a democracia brasileira. 
Imil: Há uma novela bastante popular no ar atualmente que trata do tema da corrupção, inclusive com o corrupto sendo punido. O senhor acha que isso influencia a opinião pública? É uma abordagem eficaz de alguma forma?
Marco Antonio Villa: Acho que as novelas brasileiras são extremamente importantes e tem um papel de apresentação do Brasil em outros lugares do mundo. Alteraram a novela latino-americana que eram dramalhões e começaram a ter temáticas urbanas, discutir questões políticas, morais, éticas etc. Isso desde os anos 70 em pleno regime militar, basta lembrar a célebre novela de Dias Gomes, “O Bem Amado”. Lembro-me de uma delas próximo a eleição do presidente Fernando Collor, chamada “Vale-Tudo”, que terminava com o bandido da história indo embora do Brasil depois de ter feito as maiores falcatruas. Acho que isso é muito mais real do que aparecer qualquer forma de punição ao corrupto. Se a novela está fazendo um diálogo com a vida real ela tem de mostrar a impunidade. Se não se cria a idéia de que o bem sempre vence e infelizmente no Brasil o mal está ganhando de goleada.
» Para Marco A. Villa, é a impunidade que afasta o jovem da política no país

       Bem, eu tenho minhas dúvidas se “estamos vivendo um dos piores momentos da história do Brasil republicano”, porque simplesmente desconheço momentos em que a população ou seus representantes tiveram uma postura muito diferente. Apesar dos avanços de nossa primeira constituição republicana de 1891, tivemos apenas nove meses de governo constitucional, antes que o presidente decretasse estado de sítio e fechasse o congresso nacional. Quer dizer, esta é a nossa gênese autoritária e pouco representativa. Então, não vejo a situação atual como uma involução, mas sim uma perenidade. Também não entendo que a sociedade tenha “um processo de esquecimento e apagamento da história”, porque desconfio da força de sua memória. Mesmo porque se esta memória raramente foi criada, não houve eventos que vieram embalados no curso criativo da população. Se estamos à deriva, ao sabor das correntezas que não são por nós influenciadas, como vamos nos ater por que ocorrem, ou como funcionam? Simplesmente é como se a dinâmica institucional e processo político brasileiro passassem ao largo de nossa vida social, comunitária e perspectivas individuais.
         Não acho que a arte, ou arte menor televisa tenha que ser ou funcionar como mecanismo de “crítica social”. Antes disso entendo que ela reflita algo que já faz parte de nós. Odorico Paraguaçu, o prefeito obstinado da novela Bem-Amado, não era um típico vilão. Interpretado por Paulo Gracindo, o simpático e malandro era um dos pontos altos quando flertava com as “irmãs Cajazeiras”. Por isso eu não tenho essa certeza de que “[s]e a novela está fazendo um diálogo com a vida real ela tem de mostrar a impunidade. Se não se cria a idéia de que o bem sempre vence e infelizmente no Brasil o mal está ganhando de goleada”. Nós conhecemos a impunidade, a vemos como nosso reflexo e aprendemos que tem que ser assim, infelizmente. Por isto, o que tomo como um ponto de inflexão não é a crítica insistente que chega às raias do niilismo por se tornar repetitiva. É como uma batida na porta ou obras na rua que, de tão freqüentes, com o tempo nos acostumamos e deixamos de lado. Onde vejo alguma esperança está em filmes como Tropa de Elite, sobretudo o segundo em que se mostra uma teoria e um fim desejado. Algo que nos reforça a indignação, mas com um desfecho a guisa de solução. Se não construirmos o heroísmo, seremos sempre uma nação sem meta, a deriva pelas correntes que levam para algum ponto cardeal a beira da Terra Plana. Ponto de onde suas águas caem em um abismo do infinito, sem norte e sem moral.
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